Em parceria com o Gibi Rasgado

Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, Vila Carrão, São Paulo. Ainda não eram nove horas da manhã de um domingo qualquer do começo de 1984. Cerca de 150 pessoas olhavam para aquele jovem franzino. Alguém ajeitava o microfone para aquela pouca altura.

Ele percebeu alguns olhares curiosos. Uma criança fazendo a leitura do Evangelho? Aquilo não seria muita ousadia?

O Padre Emilio decidira, alguns meses antes, aproveitar melhor aquelas jovens ovelhas das aulas de catecismo. Havia até permitido que alguns efetuassem as 1ª e a 2ª Leituras. Mas aquele era o Evangelho, a Leitura que precede à Homilia.

E uma criança o leria.

O moleque olhou a sua direita. O Padre Emilio lançou um olhar de cumplicidade. Na quinta fileira a sua esquerda enxergou sua mãe, ela lhe sorria orgulhosa. Sentada à sua frente, sua irmã torcia com aqueles olhos quase negros. Aquilo era tudo o que ele precisava.

– Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos, capítulo 3, versículos 13 a 19. “Jesus subiu a montanha e chamou os que ele quis; e foram a ele. Ele constituiu então doze, para que ficassem com ele e para que os enviasse a anunciar a Boa Nova, com poder de expulsar os demônios (…)”.

Foi a primeira vez que enfrentei uma platéia e fazia aquilo em nome de Deus. Eu tinha 11 anos e acreditava nEle de todo o meu coração.

Nunca tive problemas em falar em público. Sempre tive medo – tenho até hoje – mas isso nunca me impediu. O desempenho naquela leitura, as sutis nuances vocais e a teatralidade, me tornaram uma espécie de leitor oficial dos Evangelhos.

A beleza daqueles textos me levou a uma devoção cega e um comprometimento sincero. Fiz o Catecismo, Perseverança e o Crisma. As leituras em público me levariam ao teatro cinco anos depois. E o Teatro me tiraria definitivamente da Igreja Católica em 1992.

Tinha 21 anos e estávamos trabalhando num Encontro de Jovens. Haviam pessoas do Brasil inteiro. Na programação constavam 05 intervenções teatrais, todas elas com temáticas no mínimo contestáveis. Mas éramos jovens, cheios de energia e estávamos imbuidos dos ensinamentos daqueles padres torturados ou mortos durante o Regime Militar.

Após a 3ª intervenção – uma simulação da Guerra de Canudos – fui procurado por um dos padres que organizavam o evento. Lembro até hoje de suas palavras exaltadas:

– Estamos aqui para mostrar a Palavra de Deus a esses jovens, não para lembra-los da miséria humana. Não quero mais apresentações assim.

Peguei minhas coisas e saí. Só voltaria a igrejas para os casamentos de minhas irmãs e batizados de meus sobrinhos. Ou para olhar os santos, mas isso fazia pela arte, não pela Fé.

Aquele episódio criou em mim uma repulsa sistemática às Instituições Religiosas e comprometeu sobremaneira minhas crenças.

Talvez por isso não tenha comprado Yeshuah: assim em cima assim embaixo, de Laudo Ferreira (e arte finalizado por Omar Viñole), na época em que foi lançado pela Devir Livraria.

Mas confesso que as críticas me deixaram curioso. Ainda assim não comprei.

E a história de Jesus de Laudo teve seu segundo volume lançado no ano passado (Yeshuah: o círculo interno o círculo externo). Quase fui no lançamento, mas algo me impediu.

Mas tem cada coisa que acontece na vida da gente…

Na semana passada Deus resolveu mandar novo dilúvio nessa impermeável capital paulista. Justamente na semana em que voltava de férias. Duas linhas de trens paradas, o que lotou o metrô e o fez funcionar em contingência por motivos de segurança, as principais vias de acesso para as zonas Leste e Norte alagadas, zona Oeste inundada em vários trechos. Milhares de paulistanos simplesmente não conseguiam voltar às suas casas.

Desci até a estação de metrô República e o intervalo entre um trem e outro era de cerca de dez minutos. Não havia lugar na plataforma. Assim como não rezo, por uma questão de coerência resolvi também não ficar de mal com Deus e preferi culpar o prefeito e o governador…

E me aproveitei da situação, é claro, e subi pra HQMix, que tava ali do lado.

Não sei por quê. Não me perguntem pois não tenho uma resposta razoável. Sei que saí do Gual com os dois volumes de Yeshuah. Simplesmente resolvi compra-los.

Mas Laudo não me dobraria tão fácil. Não a mim. Comprei, mas não leria…

Três dias depois saí apressado de casa e peguei a mochila errada, por acaso a mesma que levava no dia do tal dilúvio. Claro que nessas esqueci em cima da mesa o gibi que estava lendo. Pra piorar, o trânsito tava um caos. Mas o ônibus estava vazio e fui sentado.

E eu sempre leio no ônibus. Nem lembrava mais o que tinha dentro da bolsa, então abri e vi os dois volumes de Yeshuah. Aquilo só poderia ser uma piada de alguém lá de cima.

Comecei a leitura. Reli seis vezes as duas primeiras páginas, sem acreditar no que lia. Com apenas uma dúzia de quadros eu já sabia que tinha pela frente um gibi excepcional. Doze quadros com um poder narrativo quase hipnótico.

Será que minha teimosia tinha me privado por tanto tempo de um bom gibi? Tudo bem, não seria a primeira vez mesmo.

À medida que lia, percebi que Yeshuah não era o que eu imaginava. Por mais elogiosas que tenham sido as críticas eu ainda assim esperava um “gibi de padre”.

E o que recebi foi uma história como poucas, escrita com uma sinceridade impressionante e um esmero sem igual.

O Jesus concebido por Laudo não é aquele ao qual estamos acostumados. Definitivamente, pouco tem a ver com as representações massivamente difundidas no mundo ocidental de um rapaz loiro e de olhos azuis.

E não é por menos. Para um melhor entendimento de Yeshuah são essenciais as leituras do prefácio e do posfácio. E posso garantir àqueles que simplesmente ignoram essas partes que sua leitura vai transformar a história narrada no gibi numa experiência muito mais interessante.

A extensa pesquisa de Laudo inclui de tudo um pouco daquilo que foi dito, representado ou estudado a respeito de Jesus, ou melhor, Yeshu, já que os nomes originais em hebraico foram mantidos.

Para chegar a esse Yeshu, Laudo se baseou nos textos canônicos (aqueles que estão na Bíblia, os ditos Evangelhos), nos textos apócrifos (textos sobre a vida de Jesus que a Igreja não reconhece como oficiais), em diversos estudos de historiadores e teólogos e também em concepções artísticas diversas, como o belíssimo filme O Evangelho Segundo São Matheus, de Píer Paolo Passolini (considerado por muitos, inclusive da Cúria Romana, como um dos mais belos e sensíveis filmes sobre a vida de Cristo).

Essa pesquisa, ao invés de criar uma história confusa, alienígena às nossas crenças (ou a falta delas), trouxe a tona um homem fascinante, que mudou de forma irremediável a história da Humanidade.

Nos trouxe um homem divino, por tudo o que foi e tudo o que transformou.

O primeiro volume compreende o período do nascimento de Yeshu até seu Batismo. O segundo volume mostra os primeiros tempos de pregação. O terceiro volume será publicado neste ano. Não há como estragar a surpresa contando o final, a história já é bem conhecida. O Homem morre na cruz e depois levanta dos mortos, essa parte todo mundo já sabe, resta saber como Laudo nos contará isso.

E a julgar pela forma como contou até agora…

A história é narrada por uma velha senhora. Não é preciso ser carola ou formado em teologia para perceber de quem se trata, mas seu nome ainda não é revelado.

No primeiro volume, o foco principal da história está centrado na figura de Miriam (Maria, mãe de Jesus) e nos adventos divinos que propiciaram o nascimento do Messias. É impressionante como essa primeira parte da história é feminina, materna. Laudo foi de uma felicidade incomum na concepção de sua Miriam, da criança virgem que pariu o Nazareno até a velha mãe (já no segundo volume) Miriam é uma mulher de verdade. Bem diferente daquela figura ensinada nas aulas de catecismo. Sua Miriam sofre, chora, sente raiva e medo. E ama seu filho, mesmo sem entender tudo o que lhe aconteceu.

Seu Yoseph ( José, o pai adotivo de Yeshu) também merece um destaque especial. Laudo criou um homem de seu tempo, com todos os defeitos próprios àquela região e formação cultural e religiosa, onde homens apedrejavam até a morte mulheres adúlteras e pouco contestavam a crueldade de tais atos. Mas ainda assim, esse Yoseph é um homem justo. Um homem bom. Que mesmo na dúvida mostrou-se nobre. E quando já não havia mais dúvidas, fez o que era necessário com coragem incomum.

E finalmente, nas páginas finais do primeiro volume, somos apresentados a Yeshu. Ainda não o conheceremos em sua totalidade, esse prazer foi reservado ao segundo volume.

E é do batismo de Cristo até o final de o círculo interno o círculo externo que somos apresentados a uma das melhores histórias em quadrinhos já feitas sobre Jesus.

O Yeshu de Laudo, como já disse, foi formado a partir de um mosaico de referências das mais diversas fontes. Ao invés de ferir o Jesus mostrado na Bíblia, a concepção do autor só nos faz entender melhor essa figura fascinante. Um homem capaz de transformar todos a sua volta.

Um homem que promove atos insanos a sociedade da época. Atos estranhamente insanos a essa nossa época, que foi moldada à partir de seus ensinamentos.

Um homem forte e doce. Alguém impossível de existir no mundo atual mas ainda assim alguém que você poderia encontrar na próxima esquina.

E se o encontrasse, você o seguiria até o fim do mundo.

 

Não se trata de um gibi, tampouco de religião. Yeshuah é um poema de amor e fraternidade.

O poder das imagens evocadas por Laudo assombram aqueles que lêem Yeshuah. Do nascimento de Cristo, passando pelo assassinato das crianças por Herodes (Hordus), até o retiro de Yeshu no deserto, o que temos são deleites visuais e momentos de emoção sincera, raras em se tratando de um gibi e mais improváveis ainda se lembrarmos que é uma adaptação em quadrinhos da história mais conhecida de todos os tempos.

Mesmo em pequenos detalhes, geralmente protagonizados por coadjuvantes, podemos perceber a força das mensagens ali contidas. Da obstinação de Maria Madalena (Miriam Magdalit, essencial à trama) a rudeza de Simão Pedro (Shimon), do desespero de Yoseph diante do vazio absoluto aos olhos cegos de João Batista (Yohanán), nada é gratuito.

Se os Evangelhos fossem despidos de todos os pecados ocorridos na história da Humanidade, tão generosa em desgraças e assassinatos, em deturpação dos ensinamentos ali contidos e em tantas “guerras santas” (como se fosse possível ser santo um ato de ódio), esse Yeshu criado por Laudo numa narrativa gráfica estaria em perfeita harmonia com sua mensagem.

Terminei o 2º volume naquele mesmo dia. Ou melhor, na madrugada já do dia seguinte.

Mas como disse, tem cada coisa que acaba acontecendo com a gente…

Num determinado momento do 2º volume, Yeshu prega a seu povo. Uma cananéia o procura, numa passagem do Evangelho de Mateus bastante conhecida, e implora por sua ajuda.

Foram apenas duas páginas. Duas páginas de uma história que eu lembro de ter lido há muitos anos atrás, quando era jovem e ainda tinha Fé.

Ao terminar de ler a passagem, pela primeira vez em muitos anos, chorei copiosamente.

Não havia tristeza naquelas lágrimas, nem alegria. O que havia era apenas a reação a um momento de pura beleza. Uma emoção verdadeira, daquelas que não necessitam explicações.

Numa fração de segundo, me lembrei daquela primeira leitura, tantos anos antes, e da força da fé que tinha.

Da cumplicidade do Padre Emilio, do sorriso de minha mãe, mas principalmente, dos olhos grandes e quase negros de minha irmã.

E ao menos naquela fração de segundo pude saborear a Fé que julguei para sempre perdida.

Isso, para mim, resume toda a beleza contida nesse Yeshuah.

 

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.