No dia 20 de outubro de 2010, José Serra, o então candidato do PSDB a presidência da República, foi brutalmente agredido no bairro de Campo Grande – RJ, durante uma confusão generalizada entre seus eleitores e os de sua adversária, Dilma Rousseff.  O candidato foi atingido na cabeça e levado ao hospital, para exames.

Sim, e isso – a exemplo de outro golpe famoso da mídia, em 1989 – poderia ter mudado os rumos das eleições e do país. Se isso seria bom ou ruim nunca saberemos, afinal o candidato “agredido” não ganhou as eleições e a atual presidente, mesmo em meio a uma avalanche de denuncias de corrupção envolvendo vários de seus ministros, acabou de encerrar seu primeiro ano de mandato com um índice de aprovação surpreendente.

Mas digo mudaria por uma razão muito simples: porque não mudou.

Com a mesma velocidade com que a mídia tentativa canonizar o candidato agredido, milhares de pessoas desmentiam o ocorrido. O “objeto” fulminante das imagens veiculadas nos meios de comunicação era decupado – frame a frame – nas redes sociais, nos blogs, nos sites…

A mentira não se sustentou.

O candidato havia sido atingido por uma letal bolinha de papel.

Para desespero da mídia tradicional, tão acostumada a santificar e demonizar conforme sua conveniência, o eleitor brasileiro descobria ali uma das mais eficazes armas já criadas: a democracia.

Foi uma descoberta. A internet, muito além das redes sociais, dos jogos e da pornografia fácil, também servia para informar e denunciar. E numa velocidade impressionante.

Não, querido leitor, você não errou o endereço e acabou caindo no (excelente) blog do Luis Nassif.

Isso ainda é um blog de quadrinhos e esta ainda é a resenha de um gibi.

Mas não um gibi qualquer.

capa

O Paraíso de Zahra (Editora Leya/Barba Negra, 272 páginas, R$ 39,90), de Amir & Khalil, dois autores que preferem se manter anônimos para evitar represálias do governo iraniano, é a versão impressa da webcomic de mesmo nome.

O gibi conta a história de Mehdi, um jovem de Teerã que participava dos protestos acontecidos em junho de 2009, quando milhares de iranianos foram às ruas exigir uma recontagem dos votos na eleição presidencial que reelegeria o presidente Mahmoud Ahmadinejad – num processo eleitoral repleto de denúncias de fraude.

Na verdade, o gibi trata do desaparecimento de Medhi e da busca incessante de Zahra e Hassan – respectivamente mãe e irmão de Mehdi – por informações sobre seu paradeiro.

O Paraíso de Zahra é o nome do blog de Hassan, essencial para manter viva a chama da esperança em encontrar seu irmão.

Mas também é o nome do principal cemitério do Irã, onde além dos mortos, foram enterrados clandestinamente muitos dos desaparecidos naqueles protestos, assassinados nas prisões do Irã. Um cemitério de homens que nunca morreram oficialmente.

E é esse Irã que iremos conhecer. Um Irã dominado pelo Islã, onde seus representantes, antes de acreditarem em Deus, acreditam em sua Ira. Um lugar onde a liberdade foi definitivamente abolida e toda e qualquer cidadania vale apenas no dever, nunca no direito.

Um país onde pessoas são arrancadas de dentro de suas casas – ou impedidas de entrar nelas. Onde uma palavra mal usada condena um jovem à morte e sua família à desesperança.

Zahra

É curioso notar como o discurso do gibi teoricamente dá razão ao tendencioso comportamento norte americano em difamar aquele povo, em especial seu governante. Mas um leitor mais atento também identificará, entre uma e outra atrocidade cometida pelo governo do Irã, as terríveis mentiras contadas sobre aquela nação.

Isso porque Amir & Khalil, ao invés de centrarem sua narrativa apenas num governo podre e corrupto, que usa a religião para dominar seu povo – e não libertá-lo, como seria de se esperar – aproveitam a trágica história de Medhi para sintetizarem em Zahra, Hassan e nos personagens secundários muito do que aquele povo é.

Em meio à desgraça, um povo solidário.

Mesmo nas engrenagens da corrupção, um povo arguto.

E ainda que a violência bata à sua porta e ameace tudo aquilo que lhe restou de uma vida, uma nação de bravos dispostos a morrerem pelo que acreditam.

Aquele Irã retratado nas páginas de O Paraíso de Zahra, que ousou desafiar os donos do poder, denunciando via internet as atrocidades cometidas naqueles conturbados meses de 2009, começou um movimento que mudará irremediavelmente o mundo que conhecemos.

Os celulares de Teerã despertaram no mundo árabe uma revolução.

E essa revolução, após tomar todo o oriente, um dia retornará a Teerã.

O Paraíso de Zahra  é um gibi obrigatório para aqueles que querem entender um pouco mais sobre esse estranho mundo em que nos meteram.

E em tempos onde famílias inteiras são retiradas de suas casas com uma violência incomum, num ato onde as autoridades competentes declaram estar amparadas por uma “decisão judicial”, à revelia dos direitos civis de cidadãos trabalhadores, ou ainda numa cidade em que dependentes químicos são tratados como caso de polícia e não de saúde pública, abandonados à própria sorte sem que nenhuma explicação minimamente razoável seja oferecida à população, o Paraíso de Zahra é muito mais do que um gibi sobre o Irã.

O Paraíso de Zahra é um manifesto contra a mentira, num mundo que clama pela verdade na velocidade de um clique.

 

 

Zahra1

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.