Antes que alguém se amedronte com spoilers, esse texto não tem essa motivação. Espero ter elaborado um título que deixasse claro o expediente aqui. Não é nenhuma novidade a relação feita entre os personagens X-men e conflitos que envolvem raça e mutação, tratei disso rapidamente na minha graduação em história e não é muito difícil encontrar o assunto numa básica busca na internet. Antes mesmo da sessão de X-men: Apocalipse, dialogando com a amiga Maria Fernanda, bióloga, me lembrei das tentativas que fiz de correlacionar não apenas a condição biológica envolvida no assunto, mas, também, a social. Abrir o diálogo aqui pode ser bem proveitoso!

1-40Quando foram criados em 1962, buscando acompanhar a boa safra inagurada em 1961 com Quarteto Fantástico, Stan Lee queria chamar apenas de Mutantes. Pelo menos é o que ele assume em diversas entrevistas e no documentário Stan Lee: Mutantes Monstros e Quadrinhos, de 2002. Não leva mérito sozinho, já que o design dos personagens foi obra de Jack Kirby. Ser chamado apenas de "Mutantes" tinha pouco apelo comercial, tornando-se X-men por conta de seu lider Xavier. Essa primeira edição saiu no Brasil no número 100 da revista Heróis da TV, pela editora Abril em 1987, e posteriormente em encadernados: Biblioteca Histórica Marvel: X-men e Coleção Histórica Marvel: X-men (ambas pela Panini, 2007 e 2014, respectivamente) e Heróis Mais Poderosos da Marvel – X-men e Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel: X-men (ambas da Salvat em 2015).

A revista não foi um sucesso, não cativou o público como o esperado, pelo menos até 1975. Nesta data foi publicada Giant-Size X-men 1, com Len Wein no roteiro e Dave Cockrum no traço. Longe daquela formação com Ciclope, Garota Marvel, Fera, Homem de Gelo e Anjo, a nova formação, com Tempestade, Ciclope, Solaris, Colossus, Banshee, Noturno, Pássaro Trovejante e Wolverine. A nova formação era composta de representantes de minorias! X-men sempre foi isso, uma representação de metáforas! As pessoas sentem os X-men como representantes de várias lutas pela respeitabilidade e igualdade jurídica de grupos que possuem claras diferenças com os detentores majoritários de poder. São mulheres, negros, gays, entre tantos outros. É fácil se identificar com os X-men quando se tem empatias sociais pelos que sofrem exclusões.

X-Men-Dias-de-um-Futuro-EsquecidoMas esse grupo marginalizado é o quê? Aí que nos deparamos com o terreno da biologia para construir a compreensão do que são os X-men. Originalmente, sabido, são mutantes. Na ficção, eles possuem um latente Gene-X que, quando "ativado" lhes concedem habilidades extraordinárias, como ter asas, pele escamada, lançar raios dos olhos. No livro A Ciência dos Super-heróis, Lois Gresh e Robert Weinberg dedicam um capítulo inteiro para a questão dos X-men, sendo um exemplo do interesse que as ciências já manifestaram sobre a questão mutante. Mutações são modificações ocorridas no material genético dos seres vivos e podem ser neutras, benéficas ou deletérias, ou seja, podem não causar impactos, causar vantagens ou desvantagens aos seus portadores. As características herdades pela mutação não produzem uma nova raça, são um enorme fractal de modificações nos genes até a seleção natural de características durante um longo caminho de populações. Seguindo essa ideia biológica, somos todos mutantes a um nível em que não deixamos de ser todos humanos.

Então se somos todos iguais (mesmo sendo diferentes), assunto resolvido! Não. A desnaturalização das diferenças nos serve, sim, para fragilizar o discurso da desigualdade. Esse falso dilema entre igualdade e diferença já causou muitos problemas no movimento feminista, principalmente com o caso Sear, em 1970, Estados Unidos, onde para justificar as desiguais ocupações de postos de trabalhos, a empresa buscou nas diferenças entre homens e mulheres a justificativa para os cargos inferiores femininos e os cargos mais altos (consequentemente com salários melhores) masculinos. A historiadora Joan Scott, no livro A Cidadã Paradoxal, faz um simples exercício: A discriminação é fruto da desigualdade. A desigualdade é o inverso da igualdade. A "diferença" não é sinônimo de "desigualdade".

60As condições sociais preconceituosas são construções humanas, não naturais, que se valem das diferenças entre os indivíduos para legitimar as desigualdades. Por isso o conceito de raça, classificação de divisões através de fenótipos numa mesma espécie de ser vivo, foi adequado dos estudosbiológicos para a antropologia entre os séculos XVIII e XIX. Era uma maneira de usar uma lógica científica através de fenótipos, ou seja, características visíveis de diferenças entre os indivíduos, para segregar o ser humano em raças desiguais. O Projeto Genoma em 2003 e a Associação Americana de Antropologia Física em 2009, já fizeram cair por terra essa materialização do que é social. O homo superior nada mais é que um discurso, os X-men são homo sapiens também.

Se nossas diferenças não acarretam legitimidade para nossas desigualdades, então a explicação vem de outras fontes que não as biológicas ou naturais. As super-habilidades dos mutantes podem gerar desconfortos, assim como acontece com as identidades com orientações sexuais acontecem no nosso mundo heteronormativo. Um exemplo disso é o filme X-men 2, em 2003, onde Bryan Singer insere no roteiro uma cena onde a mãe do Homem de Gelo, descontente com a condição mutante do filho, pergunta: "Você já tentou não ser mutante?", uma clara metáfora com a orientação sexual dissidente. Não é nada fácil criar gelo com as mãos ou amar alguém do mesmo sexo. Na mesma cena surge a acusação de que a herança dessa carga genética é paterna. Além do fato de que humanos "normais" podem gerar mutantes.

medoO mais reconhecível e visível, bastante comum em textos sobre os X-men e preconceito, é o conflito racial contra negros em sociedades racialistas. Preconceitos diversos geram as discriminações (cor, sexo, gênero, etc) e se expressam desde evitar a presença do outro, até pela separação espacial ou mesmo a agressão física. Na edição de X-Men – Deus ama, o homem mata, lançada como Graphic Marvel pela editora Abril em 1988 e posteriormente num encadernado pela Panini, em 2003, se vale de um conjunto de discursos discriminatórios do reverendo William Stryker que usa de sua posição de homem religioso para perseguir e condenar os mutantes. Diversos artigos do professor Kabengele Munanga tratam pedagogicamente dessas relações. Recomendo vitalmente este vídeo.

Uma fácil analogia se faz com grupos que levantam bandeiras contra homossexuais e contra mutantes, ou que tentam buscar a cura ou o controle de ambos os grupos. Analogias são um elemento forte, bastante presentes nos quadrinhos, animações e filmes dos X-men. Não é nada incomum ver nos discursos de Xavier e de Magneto a concepção identitária de raça. A Raça Mutante. Ainda que não sejam as classificações biológicas, essas raças são, dentro das construções sociais, diferenças físicas, culturais ou religiosas entre grupos que sofrem de racismos, intolerâncias, perseguições. E ainda que a razão escancare na face da sociedade que não há nada de natural nisso, Xavier e Eric, King e Malcolm, ou qualquer outro que se posicione politicamente contra a opressão, é preciso mais que superpoderes para um dia resolvermos essas injustiças. O maior vilão é a ignorância.

 

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— BATMAN em tempo integral e Historiador nas horas vagas, busca a verdade e enfrenta vilões em ambas as ocupações!