Após a série animada dos anos 90, todo lançamento mutante para cinema e TV tem apresentado grande desprendimento em relação ao original de papel.

A animação noventista, apesar de pequenas alterações – para que a história pudesse se adequar àquela mídia – é considerada até hoje a mais fiel aos quadrinhos, tentando respeitar ao máximo origem de personagens, lugares e situações.

Pois bem, o tempo passou, e os Filhos do Átomo se tornaram cada vez mais populares até que chegaram ao cinema. Nada mais natural. A questão é que adaptar décadas de quadrinhos para um formato que não permite tanta liberdade – temporal e de roteiro – não é tarefa fácil! E sendo assim, nos idos de 2000, ano em que o primeiro filme foi lançado, o resultado não foi ruim, aliás, foi muito bom para a época. Brian Singer conseguir mostrar heróis com super poderes, que não ficassem ridículos, adaptou os uniformes para algo mais sério, e deu um tratamento especial para o baixinho canadense que, justa ou injustamente, foi o centro das atenções dos dois primeiros filmes.

Não comentaremos o terceiro filme. Não há o que ser dito sobre aquilo.

Considero o primeiro longa dos X-Men o principal responsável pela nova abertura dos heróis de quadrinhos no cinema, pois até então, a imagem de um super herói correndo por aí de uniforme colado ao corpo, perseguindo um grande vilão soava bem ridículo. É claro que outros se arriscaram nessa área, mas ou não fizeram muito sucesso, como Spawn – cujo filme ficou muito aquém do que poderia ter sido, pela preocupação com a censura, ou mesmo pela restrição orçamentária – ou Batman que, depois dos longas de Tim Burtom, perdeu-se numa onde de neon, mamilos e vergonha alheia.

Apesar de no início haver grande alvoroço por conta das alterações nas adaptações em relação ao original, com exceção dos fãs mais xiitas, o resto acabou por aceitar que certas mudanças eram necessárias, e entendeu o fato que uma adaptação, é uma ADAPTAÇÃO, e não uma cópia.

Até porque, mesmo nas HQ’s, não há apenas uma linha a ser seguida. As fontes, assim como os universos – 616 e Ultimate – muitas vezes divergem, o que, por um lado oferece uma rica quantidade de informações a se basear, também torna difícil filtrar o que melhor se encaixa ao formato de destino.

É claro que algumas produções são melhores e outras piores, como X-Men Evolution, que apesar de ser divertido, distorce muito da história original para poder dar um clima mais teen à equipe mutante; ou Wolverine and the X-Men que, surpreendentemente, mostrou-se uma animação muito bem feita, e que apesar de se tratar de uma história totalmente nova, era digna de ser aproveitada nos quadrinhos; pena que a conclusão nunca veio, já que a série foi cancelada ainda na primeira temporada.

O motivo por que foi dito tudo isso, é simples: Quando se sentar na cadeira do cinema, esqueça as origens do universo mutante que você conhece. E isso não é um aviso de que o filme é ruim. Ao contrário! 

Nunca foi tão divertido ver tudo aquilo que conhecemos de uma forma tão diferente!

Tentando resumir (muito) a história, o Clube do Inferno quer fazer a mesma coisa que o Magneto queria no primeiro filme: Acelerar a evolução humana para a nova raça. Mas diferente do Sr. LehnsherrShaw é um pouco mais radical, tentando forçar um caos nuclear, onde a radiação desencadearia uma mutação em massa naqueles que tivessem o gene X latente. E para confrontar os infernais, está Charles Xavier, Magneto e mais alguns mutantes, amparados (ou quase) pela CIA.

O Clube do Inferno é exatamente como devia ser! Um clube de elite, onde por trás de toda a privacidade que esse tipo de lugar exige, está um seleto grupo de senhores (e senhora) que se reúnem para decidir o destino do mundo. Kevin Bacon como Sebastian Shaw, ao contrário do que todo mundo disse por aí, não me convenceu. Nos quadrinhos, Shaw é um cavalheiro, educado, e ótimo estrategista: ataca quando deve, mas também recua se necessário; porém não se importa de sujar as mãos se preciso for. No filme, Bacon sabe como manter a classe que o personagem pede, mas peca ao se mostrar mais falastrão que um homem de atitude. Com exceção do momento em que ataca a sede da CIA, amparado principalmente pelo mal aproveitado Azazel, ele pouco faz além de se gabar e dominar líderes momentaneamente indefesos.

Ao lado de Shaw temos Emma Frost  – January Jones – que, mesmo eu tendo ouvido muita gente reclamar, devo admitir, foi uma boa surpresa. Apesar de o papel da manipuladora e autoritária Rainha Branca ter sido diminuído para torná-la pau-mandado de Shaw, a linguagem corporal e o jeito frio de tratar os outros demonstram como poderia ter sido se bem aproveitada. Uma pena. Digo que foi uma boa surpresa porque nos trailers e fotos que tinha visto antes, a atriz me pareceu bem fraca para uma personagem tão importante. Mas a participação foi retraída.  E talvez por isso ela tenha se mostrado depois tão bem no papel. O chato é que fica aquela curiosidade de saber se a moça daria conta se o roteiro fosse mais digno à Frost. Apesar de colocar fé que daria, não há como saber…

Quanto a Maré Selvagem, fez o que devia.

A participação de Azazel particularmente me deixou decepcionado. Como um demônio tão poderoso se torna um mero lacaio de um humano!? Acho que não haveria problema algum colocá-lo no círculo interno, mas ficou meio difícil de engolir o pai do Noturno como mais um Orelha-seca.

O filme em momento algum fala em círculo interno ou em Rei Negro, Rainha Branca, etc… O que não faz muita diferença para o contexto em que é apresentado.

Uma das coisas interessantes do filme é a forma como mostra a leveza de espírito de Xavier, e o peso que Magnus leva na alma.

Seria uma aliança improvável entre pessoas de vidas tão diferentes. Mas ainda sim remete para uma amizade que às vezes parece duvidosa, já que enquanto Xavier ainda não tem o tal sonho, apenas o ímpeto de fazer o certo; Erik parece estar ali por conveniência, como se tudo fosse um meio para sua vingança. O que de certa forma é!

Falando em Magneto, acredito que da mesma forma que Singer deu uma atenção especial na caracterização do Wolverine nos seus filmes, Vaughn fez com Magneto em First Class. Mostrando desde o início quais os traumas do garoto, elucidando os motivos por que este continuou em sua cruzada de caça à Shaw – o principal impulso para os atos de Erik durante todo o filme. E nesse ínterim Fassbender não deixa a desejar. De todos os personagens apresentados, Magneto é o que mais se assemelha àquele das HQs. Da história ao temperamento, foi o único cuja essência foi mantida intacta.

Para não estragar a surpresa de quem ainda não viu, não ficarei apontando incoerências nem furos de roteiro, mas apenas adianto que nada disso prejudica o resultado final.

Mas se me permitem um desabafo, tem uma coisa que não engoli: O que diabos é aquele bambolê energético do Destrutor!?!?!? Sério… a representação do poder dele com o aparato é ótimo, mas o rapaz dançando com uma argola em volta ficou meio estranho… enfim…

Outra coisa que faz o filme ficar mais divertido é o fato de que muitas vezes você simplesmente esquece que está ali vendo um filme de super heróis, já que a história envolve os personagens de uma forma que a preocupação com os acontecimentos é mais interessante que o foco em um ou no outro. E isso sem falar que os eventos são bem dinâmicos, sem tempo para muito lenga-lenga. Ficando apenas um pouco rápida demais a história de amizade entre Xavier e Magneto, que apesar de importante no contexto, parece ter sido breve demais se levarmos em conta a consideração que desenvolve em relação ao outro.

Outra boa surpresa é a Mística e sua amizade com Xavier. Raven, ao contrário do que se viu nos outros filmes, aqui é apenas uma garota carente e insegura com a própria aparência, que tem em Xavier o melhor amigo – e as vezes insinua ela querer mais – e companheiro. E que com o andamento dos acontecimentos, vai se conhecendo, aprendendo a lidar consigo mesma…

E um adendo em relação à história é o fato de que o não há muita preocupação em retratar a discriminação aos mutantes – com exceção de alguns agentes da CIA que tratam a reunião como freak show – pelo simples fato de a população não ter consciência ainda da existência deles. Mas já fica claro no final da película qual o tipo de tratamento a ser despendido aos hommo superior.

Confesso que não faço idéia dos planos da FOX para a franquia mutante, mas tenho para mim que os filmes anteriores foram totalmente esquecidos, visto a incoerência de roteiro que se daria se tudo fosse unido num mesmo Universo: Xavier e Magneto teriam pelo menos uns 70 anos no momento em que se passasse o primeiro filme (de Brian Singer), Emma Frost não envelheceria e teria uma irmã uns 20 anos mais nova – Alguém viu X-Men Origins: Wolverine!? Meus pêsames… – Ciclope, Tempestade e Jean teriam lá seus 40 anos quando encontraram Logan… E por aí vai…

O interessante é que um filme assim abre a possibilidade de se trabalhar com algo que, apesar de novo, fique mais próximo do clássico.

E dessa vez, senti uma leveza diferente dos outros filmes. Não parecia haver um esforço tão grande em apresentar elementos que fossem ligados ao universo mutante estabelecido nos quadrinhos. O que vi foi um roteiro original, que apenas usou elementos já conhecidos para criar uma história nova. Algo que deve ter cativado os leitores antigos e agradado os leigos no assunto.

Para quem já leu por aí que X-Men First Class é o melhor filme de herói já feito, deixo claro minha posição: Não concordo. Acredito que a nova Franquia do Batman ainda é a melhor. Mas de certa forma, não haveria por que comparar, já que são vertentes diferentes, histórias que tratam de assuntos diferentes, e o foco dos personagens é totalmente divergente.

Também não é a melhor adaptação de quadrinhos para as telonas, porque transcende esse rótulo. First Class é um filme de ação/aventura que vai além de mera adaptação.

E talvez por isso seja tão bom!

A menos que você seja um chorão xiita, pode ir tranqüilo, porque a diversão é garantida!