Por Diego Aguiar Vieira

 
O escocês Alan Grant nunca escondeu suas preferências políticas. Antigo editor da 2000AD (revista britânica com histórias de f&c de tom semelhante à francesa Metal Hurlant), Grant também se destacou como escritor, gerando boas e divertidas aventuras para o Juiz Dredd e, a partir do final da década de 80 e boa parte dos 90, como um dos principais roteiristas de alguns dos principais títulos da DC Comics, como Legião, Lobo e o Batman.
 
Com este último, Grant parece ter tido um caso de amor que durou bem mais de uma década, destacando-se entre nós, brasileiros, sua fase ao lado do ilustrador Norm Breyfogle, publicada aqui na única revista de super-heróis com formato americano no começo da década de 90, intitulada Batman e durando menos de trinta edições. Foi com o Homem-Morcego, alias, que o escocês se sentiu mais à vontade para destilar sua metafísica anarquista, apresentada principalmente através de um interessante nêmesis criado por Grant e Breyfogle, o adolescente Lonnie Machin, que disposto a apresentar um novo mundo aos olhos dos acorrentados pela globalização, passa a agir pela noite sob a alcunha de Anarquia, um vigilante anti-heróico (ao que os olhos dos americanóides tem por heroísmo).
 
A assinatura de Grant nos roteiros quase sempre garantia uma aventura interessante, principalmente por se tratar de um autor que colocava questões psicológicas muito a frente da estorvante necessidade dos autores do período de colocarem os heróis frente a situações de tensão que não resultavam em mais que pancadaria desenfreada. É por isso que as histórias analisadas aqui tem grande valor,
afinal.
 
 
Publicadas em 1995, nas revistas Shadow of Batman (edição 42) e Batman Chronicles (edição 02), as histórias que compõem O Dia em que a Música Acabou, são desenhadas por Joe Staton e Liam Sharpe e foram publicadas no Brasil nas edições 11 e 12 de Batman: Vigilantes de Gotham, em setembro e outubro de 1997.
 
Enquanto a primeira história apresenta os membros de um grupo musical de sucesso, a fictícia banda Missing Lynx, sendo sucessivamente assassinados por um andróide gigantesco e com a típica aparência das máquinas assassinas dos quadrinhos da Era Image, a segunda história exibe o diferencial da narrativa de Grant, dando ao vilão uma oportunidade para se apresentar seus motivos. Feedback, o vilão, é
confrontado pela Dupla Dinâmica num lixão de Gotham, tendo como refém o empresário da banda.
 
Feedback derruba o Batman durante uma luta e quem acaba tendo de lidar com ele é o Robin, na altura o terceiro jovem a agir como parceiro do Homem-Morcego, Tim Drake. Acostumado a lidar com tragédias, Drake era um tipo diferente de parceiro-mirim. Sua atuação como Menino-Prodígio se deu por vontade própria, antes que os crimes e os traumas lhe corroessem a alma, como parece acontecer com aqueles que se
dispõem a ajudar Batman em sua jornada.
 
E ainda que satisfaça o público do período, colocando o Batman para se digladiar com um robô assassino com mais de dois metros de altura, Grant não deixa que isso interrompa a narrativa, deixando a batalha se desenrolar por poucas páginas
apenas, deixando o restante da trama para um diálogo entre Robin e Feedback. Duas pontas da balança, os dois personagens representam o que de mais influência havia entre os jovens americanos da década de 90. De um lado, o racional e idiossincrático jovem maduro, habilidoso em artes-marciais, detetive por excelência e com um estranho gosto para roupas. (Esse é o Robin, é claro!) Do outro, um ex-astro do rock, Johnny Lynx, que por não representar o ideal de beleza (o rapaz pegara pólio na infância e teve um corpo frágil por toda a vida, sendo
obrigado a se locomover de muletas) é sacaneado pelos membros da banda que criara e fluíra com a poesia de suas letras. O grupo não podia ter como leader band uma pessoa de aparência fora dos padrões e, afim de convencer Johnny de que sua atuação seria melhor nas sombras, deixam-no para nadar até o coma em uma piscina.
 
 
Enquanto conta sua história, de como entre viver tetraplégico ou como um robô de 50 milhões de dólares em busca de vingança, Johnny resolveu optar por este último, adotando o nome de Feedback, o vilão aperta o pescoço de seu ex-empresário diante de Robin, que tenta convencê-lo do baixo valor da vingança.
 
“Eu nunca fui fã do Lynx, Johnny… Mas minha geração cresceu com as suas músicas! Elas eram do caramba! Não estraga tudo, cara! Você pode dar a volta por cima! Enfrenta teu ódio… A tua necessidade de vingança! Faz isso pelos teus fãs! Pela música!”, diz Robin, tentando despertar sua razão.
 
A tensão não dura mais que duas páginas e o estilo de desenho, numa levada à lá Simon Bisley, dá um tom bacana ao todo da trama. A última página, com Feedback já próximo da morte, o não-tão-vilanesco-assim vilão decide por deixar o ex-empresário ir, liberando a si mesmo de sua necessidade de mudança: “Saia daquia, Ferrig! Se um dia arranjar outra banda, fala pra eles de mim! Da noite em que a música morreu. E o
guri nem era meu fã.”, diz Feedback, enquanto é cercado pela polícia.
 
Grant é um autor que anda meio esquecido no momento, mas em retrospecto suas histórias falavam muito sobre a época em que foram lançadas, e algumas, como àquelas em parceria com Breyfogle, permanecem atuais e interessantes.
 
 
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* Trecho de uma música do Missing Lynx
— Adalton nasceu no último dia de uma lua cheia, mas acha que isso não tem nenhuma relação com a sua vida; começou comprando quadrinhos por puro modismo - uma edição da Turma da Mônica parodiando Jurassic Park; sua primeira compra consciente foi a edição nº 01 de Batman: A queda do Morcego, ainda formatinho. Acredita que irá terminar a graduação em Letras antes da catástrofe de 2012 e daqui até lá está estudando parte das traduções intersemióticas das peças de Shakespeare já produzidas. E nos interlúdios, tenta produzir roteiros a partir idéias rabiscadas em antigos pedaços de papel.