No final do ano passado eu estava navegando na internet, procurando alguma novidade no cenário independente de quadrinhos. Chamou minha atenção o lançamento do número 11 de uma HQ chamada "La Bouche du Monde". Já tinha ouvido falar bastante sobre esse título mas nunca tinha me deparado com uma edição e, como leitor preguiçoso que sou, nunca a tinha comprado via internet ou outra forma de venda à distância. Fiz o pedido, paguei (diga-se, a módica quantia de R$ 7,50) e cadê da revista chegar? Logo quando eu ia começar a reclamar não é que me chega um envelopão selado na França!? E dentro uma bonita edição em formato ofício, papel de boa qualidade, bem diagramada e uma simpática dedicatória. Mas o melhor: um conteúdo surpreendente, como material do Brasil, França, Portugal, Cuba e Canadá. Sem dúvida uma gratíssima surpresa e valeu a pena esperar atravessar o Atlântico até chegar na minha caixa de correio.

A princípio o que seria um mero pedido de informações sobre La Bouche para um post aqui no Quadro a Quadro, mas o editor da revista, Eduardo Pinto Barbier nos respondeu com tantos detalhes e de uma forma tão interessante que acabou se transformando em uma pequena entrevista. 

Confira:

QaQ: Qual a origem de La Bouche du Monde?

Eduardo: Na verdade a La bouche du Monde é uma revista 100 % papachibé (termo utilizado pelos próprios paraenses para se nominar). A então chamada "A Boca no Mundo" foi o resultado da primeira oficina de quadrinhos populares, administrata pelo Lupa (Luis Paulo Jacob), criada em dezembro de 1991, que agrupava os trabalhos dos alunos num fanzine tosco de 46 páginas.

Nos anos seguintes foi continuando com os autores que quiseram seguir com a aventura, sendo que sempre fiz parte dos editores. No segundo número eu já estava quase editando sozinho e na número 3 assumi o comando de vez. Quando comecei a pensar que deveria partir para a França, queria que alguém continuase a aventura da Boca, como é chamada carinhosamente pelos autores no Brasil,  mas infelizmente ninquém quis. Então, ao invés de acabar com ela, editei uma e última versão da Boca no Mundo, já com a idéia de poder editá-la em francês. Nisso coloquei tudo que sempre quis ver na Boca, formatão, capa colorida coisa que era quase impossivel na época e algumas referencias quadrinísticas, como na 4.° capa uma homenagem minha a Sandman, o desenho representava o proprio Sandman jogando a areia de sonhos com a frase " com um punhado de páginas mostrei os quadrinhos para vocês", isso já era em 1994.

QaQ: E a versão francesa? Como ela concretizada?

Eduardo: Quando cheguei na França não falava nada de francês, tive que me adaptar e além disso tive que sobreviver também, mas com uma vantagem muito boa que era a nacionalidade francesa. Tentei ir para o Beaux Arts e não deu por causa da grana, então comecei a trabalhar para viver, e vivia trabalhando, deixando a minha Boca de lado. Em 1998 enfim lancei a La Bouche du Monde, primeiro fanzine franco-brasileiro de quadrinhos, formato A5 28 paginas. Claro que poderia fazer como todos os fanzineiros e publicar vários e varios fanzines. Mas não! Deste o dia em que criamos A Boca no Mundo, fiquei apegado a ela. O título foi dificil de encontrar, sei que queria que fosse um titulo composto como o Piratas do Tiête, tudo isso têm historia, então porque deixar de lado? Sem esquecer que seria como deixar Belém do Pára de lado, e não era isso que eu queria. E para mostrar todo o simbolismo, a capa da ultima edição brasileira foi a primeira francesa, desenhada pelo cartunista paraense Luis Pê, que representa um tiranossauro rex com a costa desenhada como a Amazônia e devorando todo mundo, ingleses, americanos, franceses e japoneses, além do Rambo correndo, o que representa bem a revista! Agora as coisas são bem mais práticas com tudo digitalizado. Na época era na boa e velha tesoura e xerox, bom é verdade que ganhamos muito em qualidade, mas me dá uma certa nostalgia… é a prova que a velhice esta "quase" chegando!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

QaQ: Como você conhece e faz contato com todos esses artistas que participam da La Bouche, vindos de tantos lugares do mundo?

Eduardo: Pela internet ! O que levava meses para poder chegar ao autores, a internet foi a grande revolução para o meio artistico, mesmo se de uma certa forma isso fez com que muitos fanzines e revistas migrem para a telinha, internet fez com que tudo seja mundializado. Quando deixei Belém, a Boca do Mundo, já estava começado a ser conhecida no meio alternativo, uns novatos como André Diniz já estavam em contato e eu sempre estava correndo atrás de algum jornal no Brasil para que falassem da Bouche (Boca), então sempre tive muitos contatos, o que é fundamental no meio dos quadrinhos. Às vezes são os artistas que entram em contato com a Bouche outras sou eu. Mesmo quadrinhistas com uns fanzines toscos entram em contato, me mandam material e sempre que consigo estou acompanhando o trabalho deles. O Sérgio Chaves é um deles. Lembro do Justiça Eterna que era fuleirozinho… mas que tinha um pontencial, agora é a Café Espacial, uma das melhores revistas do Brasil e sempre estamos nos falando, falo o que penso da revista dele e ele o mesmo. 

QaQ: A revista tem uma linha editorial? Como é selecionado o material a ser publicado?

Eduardo: Linha editorial realmente não tem, o que seria a linha editorial seria o meu gosto dos quadrinhos, a Bouche é muito diversificada começa com ilustração, passa pelas tiras, cartuns e HQ'. Com isso quero poder mostrar num número toda a diversidade dos quadrinhos, em especial os brasileiros. Gosto quando peço para os leitores as verdadeiras críticas sobre a Bouche, vai ter uma HQ que ele não vai gostar outra que ele vai ficar surpreso, essa são as reações que quero ver nos leitores e autores. Cada numero é um encontro com autores, é um dialogo, como na n° 11, em que vários brasileiros não reconheceram o trabalho do Laudo, mas que foi um trabalho mas intimista, num estilo que poucos já viram e também é a realização de Anne Marie, uma francesa que sempre sonhou em desenhar, em fazer HQ's, o que era mal visto para a época. Agora, com mais de 40 anos, ela realiza os sonhos dela. Dois opostos que nunca estariam numa mesma revista.

 

 

QaQ: Como se dá a repercussão da revista no Brasil, na França e no mundo?

Eduardo: É um passo atrás do outro. Quando olho pra trás, vejo que o caminho foi grande, que os sacrificios foram enormes mas a vontade e a ingenuidade de criança está sempre lá,  penso que atualmente a Bouche esta na sua melhor fase, que é a de ser convidada a certos eventos (também, se não convitam a gente se convida!). Ainda hoje o Brasil e a França estão descobrindo a La Bouche du Monde,  o que era apenas uma vontade, de ter um outro pais nas páginas da Bouche virou normal, o que foi engraçado foi a exclamação de uma autora do Camarões, que achava que o título foi bem achado para a revista, tudo isso foi o acaso. Atualmente estou trabalhando na divulgação na África e o próximo caminho será a Ásia. Fiz uns contatos com uns autores de Taiwan e gostaria que eles participem na Bouche… vamos ver.

 Prêmios a Bouche não teve, como ela faz parte do 4.° mundo, no Brasil nós conseguimos vários prêmios de grupo. As nominações foram em Angoulême em 2009 e 2011, assim que como no Festival Internacional d'Argel 2010 (Fibda). Isto prova  que o trabalho da La Bouche du Monde esta dando resultado. Um dia a gente chega lá! 

O fato de ser apenas nominado no maior festival de quadrinhos do mundo (Angoulême), já é um prêmio em si. Para este ano de 2011 a felicidade foi maior porque das 36 seleções do mundo inteiro, 6 revistas foram brasileiras mais a La Bouche du Monde, e dessas 7 ao total 6 são dos membros do 4.° mundo, sendo que o Sérgio Chaves da Café Espacial deixou o grupo depois. E principalmente isso resume o trabalho que faço para ver as revistas e os quadrinhos brasileiros divulgados fora do Brasil.

 
QaQ: O espaço está aberto para o que mais você quiser acrescentar.

Eduardo: Vale apena mencionar o trabalho que o 4.° mundo está fazendo para o quadrinho brasileiro. É importante, mas penso que podemos fazer mais. Atualmente está começando a haver um espaço e um apoio maior para os quadrinhos com editais em vários Estados brasileiros, isto é bom, mas precisa ser levada adiante a lei de proteção dos quadrinhos brasileiros. Autores como o Cedraz que faz um otimo trabalho de divulgação da cultura nordestina, o Henrique Magalhães da editora Marca de Fantasia que faz um verdadeiro trabalho de editor mais que fica limitado por causa das dificuldades de distribuição e do preconceitos das livrarias em relação aos pequenos editores. Estamos indo por um bom caminho. Este ano vão haver dois festivais Internacionais de quadrinhos no Brasil. Isso mostra que o mercado brasileiro está se criando e que o próximo caminho será a democratização dos quadrinhos, talvez com uma fiscalização especial para a produção nacional, já que quem lê quadrinhos é uma população elitizada. Vejo poucas pessoas lerem quadrinhos, além do material dos Maurício de Sousa. O principal problema é o alto custo.

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acesse:

Blog oficial La Bouche du Monde.

Site do coletivo 4.º Mundo.

La Bouche du Monde pode ser adquirida na Bodega do Leo.

— Não gosta de falar sobre si mesmo, mas a sua orelha queima quando estão falando dele.