morro-da-favela-preview_f01-305x440“Eu não estou falando da vista maravilhosa, mas, sim, das pessoas. Aqui está cheio de gente legal…”

Maurício Hora

 

Eu poderia começar essa resenha dizendo que Maurício Hora, personagem principal de Morro da Favela, de André Diniz (Editora Barba Negra, R$ 31,90 ) é um exemplo de brasileiro. Que mesmo contra todas as probabilidades se tornou um cara gente boa, honesto e trabalhador.

Mas essa afirmação seria, para se dizer o mínimo, preconceituosa, pois o tornaria uma exceção, quando, na verdade, ele é a regra. Regra que, geração após geração, fazemos questão de não enxergar.

Maurício é um cara bacana, com uma história mais bacana ainda. E é sim um exemplo de brasileiro, mas não porque lutou contra todas as adversidades.

É um exemplo de brasileiro porque teve coragem de nunca se esquecer quem é e de onde veio. E fez disso sua espada, seu escudo e sua seara.

Maurício Hora é um favelado, filho de um dos primeiros traficantes do Rio de Janeiro, nascido e criado no Morro da Providência, antigo Morro da Favela, a primeira favela brasileira, construída sobre os últimos escombros da vergonhosa Campanha de Canudos, por soldados que aguardavam a entrega de suas moradias, uma promessa do Governo que nunca se cumpriu.

E foi essa história que o tornou o que ele é. Mas principalmente no que ele não é.

E Maurício não é um cara que fica parado, escondido sob o véu do preconceito, da pobreza e da criminalidade. Maurício Hora se tornou fotógrafo. E não tira fotos de passarinhos, beldades ou celebridades.

Mauricio fotografa aquilo que convenientemente é escondido por todas as esferas do Governo e desprezado pela maioria esmagadora da sociedade. Maurício Hora fotografa a vida e beleza de pessoas comuns, a arquitetura caótica e os hábitos de sua comunidade.

E fez de sua profissão uma arma de combate ao preconceito.

Fez de sua profissão uma das poucas defesas a aqueles que aprendem desde cedo que a alma é algo fácil de se perder.

E coube a André Diniz contar sua história.

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Diniz,  já não é de hoje, é um dos melhores roteiristas do país. E cada vez mais tem aprimorado seu traço, que a cada publicação se mostra mais maduro e expressivo.

Com um lançamento atrás do outro, André tem conseguido um efeito raro: quantidade aliada à qualidade. Mas dessa vez ele superou qualquer expectativa.

Durante as mais de 120 páginas do álbum, André nos apresenta o Morro da Favela, desde seus primórdios até os dias de hoje. Pouco a pouco, acompanhamos o crescimento da favela e a transformação social da criminalidade – dos antigos malandros até os traficantes armados de hoje.

E é aí que entra a história de Maurício. Filho de Seu Luíz, um dos primeiros traficantes do Morro, Maurício viu de perto essa trasformação. E são suas lembranças, no roteiro e traço de Diniz, que nos guiam por um mundo poucas vezes divulgado.

O que vemos em Morro da Favela não é a favela dos filmes ou dos noticiários sensacionalistas. Também não é a favela dos cartões postais vendidos a turistas estrangeiros, maravilhados com aquele mundo.

A Favela de Maurício e Diniz é um lugar onde as pessoas acordam cedo, trabalham e sobrevivem como podem. É a Favela da mulher que desce o morro todos os dias com a trouxa de roupa lavada da madame, do guardador de carros, do moleque que samba pra poder estudar numa escola que pouco oferece.

É a Favela de vencedores de batalhas diárias, que são discriminados por morarem no Morro, que não possuem as mesmas oportunidades de emprego.

É a favela de quem traz sempre a faca entre os dentes pra enfrentar um leão a cada dia.

Pessoas comuns, de vidas comuns.

A Favela de Morro da Favela desmente todos os argumentos daqueles que apoiam a truculência em detrimento de políticas sérias de inclusão social.

E Morro da Favela é um lançamento que deve ser celebrado, pois trata de forma verdadeira e sensível a vida de pessoas que são sistematicamente discriminadas. Não é apenas um gibi, é um contudente depoimento sobre a vida, suas dificuldades e alegrias num país chamado Brasil.

André Diniz nos presenteou com o melhor gibi brasileiro dos últimos tempos e sem dúvida o melhor lançamento do ano.

Maurício Hora nos presenteou com algo muito maior. Nos presenteou com aquilo que ele é, nos mostrando assim tudo aquilo que poderíamos ser.

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— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.