Lendo um texto feminista, me deparei com a naturalizada situação de tratamento onde homens são senhores conforme a idade, enquanto mulheres são senhoras conforme o estado civil.  Em língua inglesa o termo Ms é usado quando a mulher em questão não tem claro sua condição de relacionamento com um homem. E assim é titulada a nova super heroína da Marvel em encadernado lançado pela editora Panini recentemente.

Pode-se perguntar: Mas o que exatamente essa revista em quadrinhos tem a ver com feminismo? Bem, a resposta mais plausível é que o difícil mesmo é não ver onde a hierarquia de gênero não atua em nossa sociedade. É o que acontece com a Ms Marvel nova, limitada em diversas questões tratadas com leveza pelo roteiro de G. Willow Wilson. Longe dos padrões de beleza, essa pequena adolescente, Kamala Khan, precisa ainda conviver com a singularidade de ser uma descendente de paquistaneses em solo estadunidense. Ganhou poderes e a sua insegurança ficou ainda maior com tanta responsabilidade.

Responsabilidades reforçadas ainda mais por toda uma rede de expectativas que os personagens coadjuvantes, seu pai, sua mãe, seu irmão e colegas, lhes atribuem. Kamala passa por problemas de identidade comuns para sua idade, sua condição exótica e seu visível gênero. Em reunião na mesquita que frequenta, questiona a separação física de homens e mulheres. Os questionamentos sobre cultura e religião estão inseridos em diálogos bastantes comuns entre colegas de uma mesma escola ao se deparar com véus sobre os cabelos ou “permissividades” sobre ir em festas com bebidas.

A arte de Adrian Alphona escapa à estética comuns dos super-heróis, casando confortavelmente com a narrativa mais adolescente. Certamente houve uma pesquisa bastante carinhosa com a família de Kamala, seus traços. Talvez uma estratégia para conquistar um público distante do super-herói comum, talvez apostando no gênero feminino como consumidor, lembrando muito o trabalho recente com a DC Comics com a personagem Batgirl. Da mesma maneira que é um trato diferenciado que permite a diversificação, é, também, a separação de um nicho de público segregado do “comum”. Os efeitos disso merecem uma atenção maior que não cabe aqui.

Aqui cabe, sim, pensar se o gênero de Kamala fosse outro, se as situações vividas pela mesma fossem vividas por um rapaz, mesmo paquistanês, se seriam iguais. Se em tal exercício de reflexão já se depara com condutas diferentes, talvez sejam frutos de expectativas e oportunidades desiguais entre os gêneros. Kamala vem para nos entreter, mas isso não nos impede de refletir. Longe de fazer desse quadrinho um panfleto feminista, e não o é, mas nos permite ter sua narrativa incomum um verdadeiro laboratório divertido para nos fazer pensar sobre a nada normal (mas normalizada) vida de uma Super menina.

— BATMAN em tempo integral e Historiador nas horas vagas, busca a verdade e enfrenta vilões em ambas as ocupações!