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 Para meus amigos da “Bota”, especialmente Davide Curcio, e seus pais.

 “Os quadrinhos possuem o fascínio espectral das personagens de papel, das  situações perenemente suspensas, das marionetes sem fios, imóveis. É    intransponível para o cinema, que baseia sua sedução no movimento, no ritmo, na  dinâmica. É um modo radicalmente diferente de impressionar o olhar, outro estilo, uma  maneira de nos exprimirmos.”

 “O mundo da BD pode generosamente emprestar ao cinema os seus argumentos, as  suas personagens, os seus enredos, que não terá nunca esse misterioso e inefável  poder de sugestão que é o da fixidez, o da imobilidade da borboleta trespassada por  um alfinete.”

 Federico Fellini.

 

Quando dois mestres em seus ofícios se encontram, a sorte está lançada e daí pode resultar um grande triunfo, terrível fracasso ou um pouco de ambos. É o caso da parceria de Freud e Jung, que revolucionaram a psicologia para então tomarem caminhos diversos, ou Van Gogh e Paul Gauguin nos dois trágicos meses de outono em Arles. Mas nada tema – antecipo você leitor, que nesse caso temos em mãos uma maravilhosa obra prima!

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Quando Milo Manara e Federico Fellini, duas figuras notáveis no panorama artístico italiano e mundial juntaram talentos, produzindo uma obra juntos, o mundo parou.

Fellini, criador de aventuras oníricas, leitor voraz de quadrinhos, diretor dos inesquecíveis “La Dolce Vita” e “Amacord” tinha um projeto para o cinema chamado “Viagem a Tulum”. Manara por sua vez, demiurgo de mulheres cheias de sensualidade e cenários lindos, trazia o desejo de adaptar esse projeto aos fumetti, e assim entrou em contato com o diretor, que recebeu a proposta com grande entusiasmo. Do talento de ambos nasceu esse magnífico álbum, coordenado por Vincenzo Mollica, que soube reunir e organizar toda a informação, desenhos e textos que lhe chegavam às mãos. Assim, “Viagem a Tulum” transformou-se rapidamente numa agradável realidade.

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 A história segue mais uma vez o alter-ego de Fellini, Snaporaz (o mesmo de Cidade das  Mulheres) trazendo a alma e a elegância do eterno Marcello Mastroianni, que junto ao   jornalista Vicenzo (quem deu força a idéia) e uma bela ragazza, embarca em um avião  submarino a partir das ruínas cenográficas da Cine Cittá (excelente metáfora comparando  as ambições e glórias da velha Roma e de Hollywood, para a qual nutre extremo fetiche  através de seus épicos) e nos conduzindo através de sequências memoráveis de filmes  como “La Dolce Vita” e “Roma”.

 E então, como em um sonho, surge Los Angeles, onde os protagonistas passarão por  desventuras em meio às luzes ardentes da América, fãs enlouquecidos, um casal  descompensado e até mesmo a presença de outros dois grandes artistas, Moebius e  Alejandro Jodoroswky (quem não leu O Incal, procure saber!)   

 E assim segue o enredo maravilhoso, tomado de reviravoltas, mudanças de cenários e  personagens, delírio e fantasias, mistérios de civilizações antigas no coração das selvas  tropicais, feitiçaria e a beleza nostálgica que somente Federico era capaz de evocar.

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A pena de Manara é leve, descompromissada e elegante, suas cores rememoram um tempo perdido entre o fechar de pálpebras, quando deixamos o inconsciente emergir; cada cena tem uma paleta diferente, de tons pastéis, indicando a mudança de estado emocional. Me fez lembrar as antigas tiras de Little Nemo no início do século XX.

Hoje é corriqueiro ver a relação entre cinema e quadrinhos tão próxima, quase simbiótica, desde a explosão Marvel de cores e raios até obras mais autorais como “Persépolis” ou “Azul é a Cor Mais Quente.” Mas houve um tempo em que tal fato era impensável, quadrinhos era uma mídia marginal e cinema, bem… era Cinema. Graças aos velhos e novos Deuses da arte isso é história.

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No Brasil, descobri que a editora Globo publicou uma edição nos anos 90 – tive a oportunidade de ler a versão da portuguesa ASA, com acabamento de luxo, capa dura e formato álbum, com introdução e croquis do próprio Fellini.

Fica a dica para a querida Editora Nemo que nos presenteou ano passado com “Os Companheiros do Crepúsculo” e as obras de Moebius, trazer outra vez para o Brasil esse delicioso conto de dois astros.

PS: É impossível não pensar no caminhar do tempo ao reler “Viagem a Tulum” – De fato, Fellini deixou a vida um pouco menos doce em 1993, Marcello Mastroianni, que empresta seu rosto a Snaporaz, partiu pouco depois, assim como Moebius… prefiro imaginar que eram todos sonhos que se fizeram homens para iluminar esse mundo cinzento com arte, genialidade e beleza, para então voltarem ao infinito.

 

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Serviços:

TítuloViagem a Tulum
Autores: Federico Fellini e Milo Manara 
Editoras:
 Asa – PT e Globo – BR
Número de páginas: 90 – PT e 100 – BR
Formato: 24 x 32 cm – PT e 21 x 27,5 cm – BR
Publicado em: 2003 – PT e 1992 – BR

— Hugo Canuto é arquiteto e quando o tempo permite, ilustrador. Interessado por mitologia e literatura antiga, se apaixonou pela Nona Arte aos nove anos, ao ler "O Cavaleiro das Trevas" e desde então não largou mais, formando uma biblioteca que preenche seu quarto e serve de cama, mesa e travesseiro.