Fazia tempos que não folheava mangás. Quando adolesci, e isso já tem algumas décadas, adorava lê-los, além de assistir animês comocapa_tom_sawyer_g Sailor Moon e Cavaleiros do Zodíaco. Visitas ao bairro da Liberdade, em São Paulo, eram sagradas para comprar adesivos, colecionáveis, cards e mais mangás.

Essa leitura, mais as orientações de um velho amigo japonês jornaleiro e falecido há quase três anos, me fez aprender algumas palavrinhas do idioma nipônico – mas tomarei vergonha e matricularei em um curso. Fui crescendo e os interesses idem: os mangás ganharam outros amigos como publicações brasileiras, independentes, releituras de clássicos da Literatura mundial em Quadrinhos.

Eis que me deparo, na banca de jornal dia desses, com o volume único de Tom Sawyer (Shin Takahashi – JBC), um mangá baseado no livro As Aventuras de Tom Sawyer, do norte-americano Mark Twain. Tinha lido, em inglês, uma obra do mesmo autor chamada Huckleberry Finn, que, logo na primeira página, mostra o convívio desse personagem com Sawyer, e norteou aquelas páginas.

 Na versão arquitetada por Takahashi, a mescla dessa relação é materializada pela figura de Haru, uma jovem que, desde cedo, teve de lidar com a rudeza da vida: com a mãe relapsa, a mocinha não teve companhias, muito menos travessuras, só chacotas, repreendas e a infância apagada. Seu refúgio, porém, aplicou-se no caderno de desenho, nas suas ilustrações.

Moradora em Tóquio, Haru é forçada a ir ao funeral da progenitora em uma cidadezinha litorânea, onde vivera. Lá conhece Taro, o moleque branquelo mais espoleta daquelas bandas, que passa os veraneios com a tia obcecada por saúde e a irmãzinha travessa Tae.

Haru não sabe o que é verões. São como longos invernos.

tom-sawyer-inRelacionando-se com Taro e sua trupe – Quatro Olhos, Joe e Açougueiro, ela pode ser o que ‘dava na telha’. Ou seja, torna-se pirata em suas jangadas, explora tesouros, testemunha assassinatos (com direito a dupla fazer pacto de sangue), ou seja, simplesmente experimenta as criancices. Ou melhor, ela e os seus amigos são gentes que florescem e se permitem.

Nisso, ela exorciza os passados – ou passa a seguir seu rumo melhor com eles. Outrora fora humilhada, mas agora pertence a um grupo mesmo sendo adulta, mesmo que isso dure um mero verão.

A visão de Shin Takahashi em seu Tom Sawyer vai além da literatura fantástica de Twain, pois mostra de maneira mais incisiva as mazelas e delícias da prática do viver, sentidas por Haru e Taro (ou seria Huck e Tom?).

Sofre, mas se diverte, chora, entretanto dá gargalhadas, corta o cabelo “Joãozinho”, aprende com erros e esperneia como um recém-nascido, sem cerimônias. Reconhece que ser ignorada por aqueles que se importa é mais doído. Razão esta que a incentiva adotar os excluídos, os que estão à margem, como ela mesma. 

Podemos considerar esse mangá como uma leitura sobre a pureza dos verões que passam, dos que estão por desabrochar, dos que merecem o ‘adeus’. É redescobrir o sabor do beijo, do desenho feito, do tomate maduro, do chá de trigo, vulgo cerveja.

É libertar, nem que seja por um instante, a criança dentro de si.

P.S: siga o conselho de Takahashi, (re)leia as Aventuras de Tom Sawyer (e também a de Huckleberry Finn). Vai dar uma visão mais completa desse mangá.  

— Jornalista freelancer, moradora de S. Miguel Paulista - SP e também colabora para o portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br). Nas horas vagas, lê Quadrinhos. Nas outras também. Mais em http://twitter.com/keliv1