A origem das histórias em quadrinhos remonta dois séculos. Fato. E infinitos são os autores que já narraram essa história, muitos até tentando recuperá-la. Porém, a melhor História do surgimento das HQs – para mim – foi narrada nesse século, neste ano, por um amante-curioso-militante das HQs, Rogério de Campos, na obra Imageria – O nascimento das histórias em quadrinhos, vencedora do prêmio 28º Trofeu HQ Mix na categoria Livro Teórico.

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Deixo aqui o gostinho de um trecho que mostra como as Histórias das HQs são construídas ao longo dos séculos, em várias partes do mundo.

No dia 25 de outubro de 1986, um menino careca, descalço e vestido com um camisolão amarelo conversou com um papagaio nas páginas do New York Journal. Que, aliás, já haviam sido inventadas quatro anos antes por Jimmy Swinnerton (nascido em Eureka, Califórnia), criador da primeira série de HQs: The Little Bears.

Swinnerton tinha então apenas dezessete anos, mas já trabalhava no San Francisco Examiner, do mesmo dono do New York Journal: William Randolph Hearst, que publicava quadrinhos nos seus jornais havia alguns anos. Sim, porque, quando os Little Bears estrearam, fazia tempo que, por exemplo, Caran d’Arche e Christophe produziam quadrinhos na França, assim como Appel les Mestres e Mecachis publicavam seus quadrinhos na Espanha, e a Alemanha aplaudia Busch e Oberländer. A Inglaterra já tinha seu primeiro gibi: Funny Folks, lançado em dezembro de 1984. E, em 1982, o português Rafael Bordalo Pinheiro até já fizera uma graphic novel: Apontamentos de Rafael Bordallo Pinheiro sobre a Viagem do Imperador de Rasilb pela Europa, uma sátira ao nosso imperador dom Pedro II. “Rasilb” é um anagrama de Brasil, para onde Bordalo Pinheiro se mudou em 1875.

Aqui, Bordalo fez amizade e depois inimizade com Ângelo Agostini, que inventou as histórias em quadrinhos em 30 de janeiro de 1869, com a publicação de “As Aventuras de Nhô Quim”, na revista Vida Fluminense. Mas ele já fazia quadrinhos antes inventá-los. Aliás, a primeira história em quadrinhos brasileira foi publicada catorze anos antes do “Nhô Quim” e foi obra do francês Sébastien Auguste Sisson, que criou “O Namoro, quadros ao vivo, por S… o Cio” para a revista Brasil Ilustrado, em 1855.

E, um ano antes de Agostini inventar os quadrinhos, os moleques Max e Moritz, filhos em formato de desenho do alemão Wilhelm Bush, começava a se tornar os primeiros personagens de sucesso da história dos quadrinhos. […]

Mas, na França, o fotógrafo Félix Nadar já desenhava desde 1848 a primeira tira semanal da história dos quadrinhos: “Vie Privée et Publique de Monsieur Réac”, publicada o periódico humorístico La Revue Comique à l’Usage des Gens Sérieux. Monsieur Réac fez tanto sucesso que até ganhou uma versão alemã: Herr Piepmeyer, criado por Adolf Schrödter. (CAMPOS, p. 9, 2016).

 

No Brasil, Álvaro de Moya foi um dos grandes responsáveis por trazer as histórias em quadrinhos à discussão e, também, constituir a história nacional. Em 1951, Moya participou da organização da Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos, com obras originais. Moya deixou alguns discípulos ao longo dos anos e, dentre eles, o pesquisador-professor Giovani Pagliusi, fundador do Núcleo Álvaro de Moya de Quadrinhos (NEHQ), na FIAM/FAAM, em São Paulo. O nome, claro, homenageia o grande precursor dos quadrinhos no Brasil, também antigo professor da casa.

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O núcleo vigorou mesmo no segundo semestre de 2015. Convidei os professores Marcel Tomé, Adriano Nouman e Efrem Pedroza, que pesquisam história em quadrinhos como objeto acadêmico na FIAM, para montar o cronograma de atividades. Rapidamente, os alunos interessados já foram incluídos numa lista de candidatos para iniciação científica, organização de fanzines, palestras e workshops teóricos.

A proposta do núcleo é emancipar a pesquisa científica em comunicação dentro do ambiente ‘história em quadrinhos’, integrar o maior número possível de alunos, na tentativa de ingressá-los no escalão acadêmico da área, e mostrar que ‘quadrinhos’ é um objeto de pesquisa que pode se inserir em várias áreas científicas. Além disso, o núcleo conta com o apoio do Observatório de História em Quadrinhos, da Escola de Comunicação e Artes (ECA-USP), organizado por Waldomiro Vergueiro, Roberto Elísio e Nobu Chinen, os pesquisadores brasileiros de HQs mais representativos da atualidade.

O núcleo é composto por três grandes frentes: Iniciação científica, Eventos e palestras com convidados, e Orientação para artigos científicos e fanzines, este último ainda em fase de planejamento.

Os Eventos e palestras não têm uma frequência definida, mas há a tentativa de realizar um evento por semana. Isso foi possível no mês de agosto e foi um sucesso, segundo Pagliusi. Os convidados abordam as HQs tanto no âmbito do mercado quanto das pesquisas acadêmicas, assim os alunos se sentem contemplados com as teorias e com as práticas. Alguns temas já tratados no núcleo foram: A importância do Monstro do Pântano na preservação do meio ambiente nas Histórias em Quadrinhos, apresentado por Alexandre Callari; A informação imagética das histórias em quadrinhos (e sua atuação na mente neuroplástica), por Gazy Andraus; e Mike Deodato Jr e a invasão brasileira na terra dos superheróis, por Rodrigo Arco e Flexa.

As palestras são abertas ao público e a programação está disponível no link do NEHQ!

Além disso, os pesquisadores interessados em propor uma palestra podem entrar em contato com Giovani Pagliusi pelo e-mail giovani.moura@fiamfaam.br.

— Bárbara Zocal frequentou a Mansão X até seus dezessete anos. Sua voz é seu grande poder. Com ela, inebria seus inimigos e os desacorda com habilidades de bāguàzhǎng.