‘“Ei ê lambá
Quero me cabá no sumidô
Que me cabá no sumidô
Lamba de vinte dia
Ei lambá
Quero me cabá no sumidô”*

CapaAcordar ainda com o dia escuro. Frio cortando o nariz, café amargo e ônibus lotado. Pão com manteiga ruim, na chapa cheia de óleo sujo. Correria, rapa, os hómi tão lá, só esperando pra tomar a mercadoria.

Na Praça da Sé um menino descalço foge hoje. Vai continuar fugindo, não sabe até quando. Mais dia menos dia, vai se tornar sombra na memória dos amigos e chaga aberta no coração de uma mãe.

No Pelourinho um menino de 11 anos acende um cachimbo. Minutos de prazer, fissura, o mundo todo mudando naqueles poucos segundos. E depois tristeza. Tristeza e mais nada, só a vontade de ter uma uma moeda pra matar a outra vontade. Um dia também vai virar sombra.

Acordar cedo e cortar o pão, passar manteiga com as costas da colher e sair pra vender café com leite.

– A manteiga é de qualidade sim senhora. Pode provar, não é pão dormido, não.

Mas é a unica qualidade que seu pouco dinheiro pode pagar, o que não é muito. Mas o freguês sai contente, o café estava quente.

A calça apertada. Não tem onde ser mais gostosa. Os olhos sempre a acompanhando, desnudando seu corpo, sua alma. A boca de vulcão, a brejeirice, a delicadeza, a alma indomável. É vento que arrasa tudo e é brisa fresca no rosto. É cheiro de chuva e todo mundo a quer.

E tem também quem ganhe dinheiro fácil, não importa a quem venda a alma. Aqui, ali, sempre um golpe, sempre uma palavra falsa, uma promessa, um engodo.

A vida é – sempre foi – muito mais perigosa que a morte.

E pra aguentar a vida, só com força e fé.

E é isso que é São Jorge da Mata Escura. Uma história de fé, amor e ódio, mas, principalmente, uma história sobre a vida e a dificuldade de se viver.

oxossibaixaMarcello Fontana surpreende a todos numa história contundente. Esqueçam os finais felizes, as personagens estereotipadas ou a ação vazia dos comics. Em São Jorge da Mata Escura o que temos é uma história madura, onde a realidade se mistura à riquíssima religiosidade baiana.

E não poderia haver um palco melhor: Salvador, a cidade de todos os Santos, cidade que acolheu o autor e o tomou como seu filho legítimo.

Não a Salvador das novelas globais com sotaques estereotipados. São Jorge da Mata Escura nos revela uma Salvador sombria e bela. Um cidade que abarca o mundo todo. E mais que isso, Marcello nos revela a dura vida na periferia soteropolitana: a Mata Escura do título.

A história gira em torno de um complicado triângulo amoroso entre o nobre Jorge, a vivaz Bárbara e o ambíguo Jarcisley. O primeiro negro, ela com a cor que consagrou a Gabriela de Jorge Amado e o último albino. No criativo jogo de cores e etnias reside boa parte das pistas da trama, sobre quem está numa ponta, quem está na outra e quem transita entre os dois extremos, ora com razão, ora a perdendo. A história de suplício e redenção de Jorge é o contraponto perfeito à de Jarcisley, ambos pobres, ambos lutando para sobreviver.

Mas em caminhos opostos.

E em rota de colisão.

Se utilizando de recursos narrativos pouco usuais, Marcello desenvolve o conflito com a matéria prima que tornou a Bahia famosa no mundo inteiro: o misticismo.

Jorge não é só um homem de coragem ímpar. Jorge é filho de Oxóssi, o astuto e corajoso Caçador, o Senhor das Matas, o que porta as armas necessárias à sobrevivência. E Oxóssi, por inteligência e fé dos negros escravos que o cultuavam, é também São Jorge da Capadócia.

E São Jorge, da Capadócia, é Jorge, da Mata Escura.

Assim como Bárbara é também Iansã, dos raios e das tempestades, que conquista, que ama, que odeia. E a fecunda e sensual Iansã, tal qual o sincretismo religioso que definiu todo um povo, reflete-se na Bárbara da Mata Escura. E é nela que reside todo o inconformismo e sonhos do povo brasileiro. Um povo capaz do belo e do sórdido. Capaz de negar seu amor e amar seu inimigo.

E temos Jarcisley, a encarnação de Oxumaré, aquele que move o mundo. E numa sociedade que caminha apressadamente rumo à danação, Jarcisley é quem dá as cartas e toma pra si a Mata Escura, a mulher que ama e tudo o que mais vier. Para o bem e para o mal.

cidadeE o sincretismo também parece ter influênciado as escolhas estéticas do autor na seleção dos artistas que ilustram a saga de Jorge.

O traço preciso de André Leal nos chama à realidade durante a maior parte da história, numa viagem à Salvador atual, à sua arquitetura e aos seus moradores. O mestre Antonio Cedraz abre o álbum, retratando os protagonistas ainda na infância, num toque de genialidade e bom humor. E por fim, as expressivas ilustrações de Naara Nascimento pontuam a história de Oxóssi e São Jorge, que complementam e se confundem à história do valente Jorge.

Das tristes figuras que habitam a miséria de uma cidade, até a suntuosidade daqueles que venceram as dificuldades da vida, seja da forma que for, o roteiro de Marcello mostra um autor maduro, sensível e comprometido com a história de sua gente.

Não há super heróis, bichinhos fofinhos ou soluções fáceis em São Jorge da Mata Escura. Há algo muito maior. Algo que não pode ser medido e que Marcello propositadamente não contou.

Algo que reside nas sarjetas entre os quadros e que transformam duas ilustrações estáticas em movimentos e sons na cabeça dos leitores. Algo que faz parte da vida de todos e que Marcello  resolveu deixar que a própria Bahia e os Orixás ali retratados contassem.

A Bahia e os Orixás de São Jorge da Mata Escura contam ao leitor histórias de sua própria vida.

Reflexos do medo que sentimos ao olhar os céus se fecharem antes da tempestade.

Marcello Fontana encarou a difícil missão de contar uma história sobre a verdade. Não poderia estar melhor acompanhado.

salto

* Vissungo (canto). Letra extraída do livro de Aires da Mata Machado Filho, O negro e o garimpo em Minas Gerais (2ª ed., Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1964). Gravado em 1982 no belíssimo disco “Canto dos Escravos”, do selo Eldorado.

No canto, o escravo reclama da pesada carga de trabalho e pede pela a morte.

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.