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► Keli Vasconcelos¹

 

 

 

 

walukÁrtico. Quando pensamos nessa palavra, o que vem na sua mente? Terras e mais terras gélidas? Ativistas que protestam contra a exploração indiscriminada daquele lugar? Aquecimento global? Paisagens brancas? Focas? Frio? Casacos?

Eu? Penso em compreensão, coragem, entendimento, importância, respeito, tolerância. Sim, isso mesmo! Digo porque ganhei o exemplar do álbum ‘Wáluk’ (Ana Miralles/Emilio Ruiz – Editora Nemo), que tem o mencionado território como pano de fundo, de forma bem curiosa: em um concurso cultural promovido por um site de Literatura (adendo: adoro participar de promoções, reais e virtuais. Perdoe a fraqueza e franqueza!). O tema era escrever qual qualidade que encontramos em um amigo. Resposta? As mencionadas anteriormente. Afinal, uma puxa a outra e todas são práticas diárias, que precisamos evoluir constantemente.

A HQ conta a amizade dos ursos Wáluk, um filhote abandonado pela mãe, e Esquimó, que já carrega o peso da idade e da experiência, e precisam lidar com as dificuldades impostas por nós, descritos pelo velho urso como seres sem pele, garras fracas, sem olfato (e coração?), mal sabem correr, saltar ou nadar…

Poderia ficar aqui esbravejando sobre conflitos de gerações, a terrível e temível mania de acharmos os ‘donos do planeta’, e todas outras temáticas que foram muito bem desenhadas e argumentadas (literalmente) por Miralles e Ruiz (e os ursos também!). Mas aí, amigo leitor, eu estaria vendo o belo álbum no contexto crítico, daqueles colocados no pedestal das intelectualidades.

Seria sem graça.

A HQ revela o quanto precisamos dar valor a esses sentimentozinhos tão desvalorizados, ou melhor, não tão bem trabalhados como deveríamos. Isso começa por valorizar o próprio Ártico, que hoje, infelizmente, está virando um depósito de resíduos, sofrendo com as mudanças climáticas cada vez mais aceleradas e quem ‘paga o pato’ é o urso, e os outros habitantes desse termômetro do mundo. Virou uma lixeira, em resumo.

Ruiz, no início do álbum, fala do povo inuit, que consegue sobreviver nas regiões mais remotas e geladas de maneira simples, leve, quase imperceptível. O que leva a pensar que adaptar não significa aniquilar.

Exemplo: Wáluk auxiliava Esquimó, que não tinha o mesmo ritmo, o mesmo olfato, com sutileza e deixava-o no comando. Afinal, ele era o mais velho. E o mais sábio. Já Esquimó deixava Wáluk passar por perrengues para entender que nós (e esse ‘nós’ refere-se a todos os seres vivos) não somos fáceis, como o ato de viver. Não somos apenas uma ‘bolinha de gordura branca moldada pela língua’ de nossas mães. Temos a nossa personalidade e vamos lapidando, emoldurando, adaptando… Erramos? Claro! E vamos aprendendo com os erros.

Necessitamos entender que a a vida é uma sucessão de transposições, escolhas, erros, acertos, fronteiras, desafios. É ser um pouco Nanook, grande urso que supera os problemas com sabedoria. E isso leva tempo.

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¹ Keli Vasconcelos é jornalista de São Paulo e freelance para revistas. É colaboradora do Portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br), em que conta histórias sobre São Miguel Paulista, no extremo leste da capital paulista. Saiba mais em http://twitter.com/keliv1

*O conteúdo deste post expressa a opinião da autora, que é plenamente responsável pelo mesmo.

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...