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 ► Keli Vasconcelos¹

 

 

 

BSCeMLtCEAMfNCFDia desses, passei por uma prova. Nas questões de Português, foi usada uma crônica de Rubem Braga sobre a nossa língua, que, mesmo sendo chamada de Portuguesa, está cheia de brasilidades, estrangeirismos, extravagâncias, ministérios dos mistérios.

Após três horas de avaliação, voltei para casa, em São Miguel Paulista, no extremo leste da capital paulista, e aproveitei o embalo para fazer uma faxina nos livros da (micro) biblioteca que cultivo.

Deparei-me com uma série de obras, das mais requintadas às mais singelas, que, ao seu modo, tentam relatar fatos, contar histórias, mas, no final, mergulha no mesmo limbo: o do nicho. Afinal, é um grupo de pessoas que as lerão e prenderão a informação, se você não passar para frente o que foi decifrado, e as palavras vão acabar assim.

Daí, metade desesperançada e, obviamente, cansada, peguei o exemplar de Estórias Gerais para ler. Pra quê, meu Deus? A cada página, um suspiro de desespero e de encantamento!

“Por quê?”, você deve se perguntar. Pois respondo: folheando as páginas vi ali imortalizadas as Estórias da nossa História. E essas, por si, não foram escritas. Foram repassadas ‘via telefone da contação’.

Veio à tona, então, tudo que ouvi nesses mais de 30 anos de vida.

Minha mãe, nascida na Bahia, contava para nós sobre as mulheres, abandonadas pelos noivos forasteiros, que literalmente enlouqueciam e de nossas primas, que fugiam com os amados na boca da madrugada, para evitar um casamento arranjado pelos nossos tios.

Os olhos brilhantes dela contando dos casórios sob a lua cheia, com direito a sanfoneiro subindo na mesa e ‘bebemorância’ até a última gota do alambique. Da formação das ‘comadres’ de fogueira, melhor, cumades, que ‘batizavam’ suas bonecas de pano na fogueira de São João.

Meu pai, pernambucano, que sentiu na carne a miséria salgada na terra árida, falava de seus grandes medos: o da fome e do “Papa Figo”, um velho que pegava crianças desobedientes e comia o fígado delas.

Nossos pais nos contavam dos ‘revoltosos’, que no livro/História em Quadrinhos são os jagunços – e na terra de meus pais são os cangaceiros, que apareciam ora para saquear as casas, ora para salvar vidas desgarradas.

Tempos em que a honra era medida no fio do bigode, na ponta da peixeira e no cano da espingarda. Em alguns rincões desse país, ainda é assim.

Percebi que Estórias Gerais não é somente para ‘buritizenses’ e belo-horizontinos. Tem todos os sotaques e todas as cores de São Paulo, Rio (de Janeiro, Grande do Sul, Grande do Norte…), de Itanajé (BA), de Lagoa do Ouro (PE), da Paraíba, do Ceará, dos confins do Amazonas, das periferias de Guaianases e de Itaquera (SP). Decifra a mim e a você que lê estas palavras, tenha certeza disso.

Porque fala de Brasil, pátria esta que, não sei o porquê, a gente meio que acha sem graça ou exagera na definição. Afinal, não somos só mulatos ou sulistas, somos nordestinos, candangos, pretos, brancos, asiáticos, afros, nacionais e importados. Somos o que somos. E ponto final.

Não tem como você fugir dessas origens, elas correm em nossas veias.

A obra poderia ser só mais uma HQ nacional de capa impactante, desenhos belíssimos de Flavio Colin (que Deus o tenha) e roteiro pujante e irritantemente simples (por mostrar que não é preciso fórmula rebuscada para falar de nós mesmos, ora!) de Wellington Srbek – que tem estrangeirismo no nome, como a pessoa que vos escreve (e o cartório fez abrasileirar), mas isso não impede frisar que “Sim, somos brasileiros”.

Poderia ser só isso, porém há um defeito que me desespera por demais… E ele pode ser causado por você, caro leitor: é preciso passar Estórias Gerais para frente!

Ou seja, assim que você terminar de ler cada quadrinho, não seja ‘quadrado’: releia para os outros, releia para as gerações futuras, releia para você.

É o legado que nossa gente precisa ver e valorizar, apreciar e saber!

Sabedoria não mora em um livro bonito, habita mentes e corações de todos nós. Como diria meu pai, ignorância é ‘peça péba’, não presta! Não cometa esse erro de ler e deixar na prateleira, portanto.

E, como diria Chico Certeiro, um dos personagens de Estórias, o pior barulho que a pessoa pode ouvir na mata da vida é o do coração batendo no peito. Se você ultimamente está sentindo isso é porque precisa preenchê-lo de coisas belas, singelas. Enchê-lo de Brasil.

Bom, e o Rubem Braga, o que tem a ver com isso? Naquela crônica ele mencionou a pulcritude da Língua. Achei essa palavra linda e ela encaixa direitim com Estórias Gerais.

A obra é, digamos, pulquérrima, belíssima. Porque a nossa História, ah, essa aí não é pouquíssima.

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¹ Keli Vasconcelos é jornalista de São Paulo e freelance para revistas. É colaboradora do Portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br), em que conta histórias sobre São Miguel Paulista, no extremo leste da capital paulista. Saiba mais em http://twitter.com/keliv1

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...