– Por que você acha que colocaram ele no formigueiro?

– Você não leu não? Porque ele perdeu o cavalo!

Não adiantava, eu não conseguia entender. Pra um moleque de 8 anos, alguns conceitos são abstratos demais. A violência da escravidão, naquela época, era um deles.

Acho que no final das contas minha irmã sempre foi mais inteligente e esperta do que eu.

–  Ele era escravo! Naquela época, escravo apanhava de cinta do dono!

Eu continuava sem entender. Olhava para aquele desenho: o Negrinho sem camisa e calça branca, uma mão segurando na crina do cavalo e a outra num aceno amigável.

O sorriso aberto não indicava a sova que acabara de tomar.

Minha cabeça – influenciada pelas dezenas de gibis de terror (que já naquela época devorava com um apetite incomum) – conseguia entender o Curupira, com seus pés virados e sua cabeleira flamejante. Mas um negro açoitado quase até a morte e jogado num formigueiro era humano demais, cruel demais.

Mas aquela ilustração no livro didático ficou gravada na minha cabeça. Pelo sim e pelo não, a partir daquele dia parei de futucar formigueiro com pedaço de pau.

Só que memórias de infância são traiçoeiras e o destino é o rei das trapaças.

detalhe02

Conheço o André Diniz há cerca de dois anos. Gente boa, amabilíssimo, sempre marcando presença nos eventos e nos lançamentos de HQ, nunca nada menos que disponível para um bom papo.

E, claro, um dos melhores roteiristas do país.

Quando anunciou que ministraria um curso de roteiro na Quanta Academia, não pensei duas vezes e me matriculei.

No primeiro dia de aula o André levou alguns trabalhos que já tinha publicado, para os alunos conhecerem um pouco de sua produção.

Tenho bastante coisa do André. Do que foi publicado nos últimos 7 anos, praticamente tudo. Mas com o olho treinado em quase três décadas de visitas a sebos, vi de longe um pedaço de capa diferente. Quando o exemplar chegou em minhas mãos não pude deixar de soltar um sorriso.

CAPA NEGRINHO sem camadas

O André, atento às menores reações – qualidade essencial em sua profissão – percebeu e emendou:

– Acabei de receber, nem saiu nas livrarias ainda.

Ao final da aula, ele não se fez de rogado:

– É seu, faço questão.

Justamente o Negrinho. Aquele cara que eu nunca consegui entender. De todas as lendas, a mais humana e sensível.

Escrita e desenhada por um dos autores mais competentes do país.

detalhe01

Contador de histórias habilidoso, André parece ter nos últimos anos alicerçado sua carreira nos ensinamentos do inigualável Flavio Colin (1930-2002), que durante sua vida sempre acreditou que quadrinhos brasileiros deveriam explorar temas brasileiros, com uma cara genuinamente brasileira. Nesse sentido, André talvez seja um de seus mais ardorosos discípulos. Basta ver o comprometimento histórico e cultural de seus últimos trabalhos: Chico Rei, O Quilombo Orum Aiê, A Cachoeira de Paulo Afonso e o surpreendente Morro da Favela.

A eles agora junte-se a adaptação de uma lenda brasileira.

O Negrinho do Pastoreio (Ygarapé Quadrinhos – 64 páginas) é uma história de dor e honra. Baseado na lenda de mesmo nome, o gibi conta a tal história do negrinho que perdeu o cavalo e foi duramente castigado por isso.

Nesta versão, Diniz mistura características de diversas versões da lenda gaúcha, obtendo uma universalidade e unidade dignas de qualquer compêndio sobre folclore nacional.

Mas o grande mérito de O Negrinho do Pastoreio reside muito mais no que nunca foi abordado sobre o tema do que naquilo que se sabe sobre a lenda.

Ao transpor a lenda para os quadrinhos, fica bastante claro que tanto nos breves resumos de livros didáticos como em estudos mais aprofundados em obras especializadas, sobram lacunas na história.

E uma lacuna, meu amigo, nas mãos de um roteirista como o André é simplesmente um convite à imaginação.

E o resultado disso são momentos de pura beleza gráfica e narrativa.

Negrinho 37 cor copy

Com seu traço estilizado – neste álbum valorizado pelas belíssimas e sensíveis cores de Marcela Mannheimer – André consegue, em sua simplicidade, transmitir toda a dor e dramaticidade da história original.

E vai ainda além: ao dar “corpo” à lenda, acrescentando personagens coadjuvantes essenciais à narrativa e atribuindo-lhes personalidades distintas, com motivações próprias, André cria o conflito base que culminará no horrível castigo do Negrinho.

Dessa forma, se torna clara a dualidade entre o bem e o mal, o senhor e seu escravo, a nobreza e a vilania, justificando as decisões das personagens, sobretudo do protagonista.

E assim André consegue, sem desrespeitar a história original, imprimir ainda mais verossimilhança a mais humana de todas as lendas de nosso folclore.

Mais um excelente gibi desse excepcional autor.

detalhe03

E escondida nos cantos mais obscuros da minha memória, aquela menina de grandes olhos negros ri debochadamente da minha cara e sentencia:

Não adianta, seu negócio é mula sem cabeça! Você é muito bobo, nunca vai entender!

Demorou 30 anos, querida, mas finalmente entendi.

detalhe04

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.