Chove.
Ela se aconchega em meus braços, trêmula. A chuva cai fria em nossos rostos, o mar revolto ameaça o casco do velho ferry-boat.
Ela olha o oceano e me diz baixinho, sorrindo:
 
– Prefiro o mar assim, mostrando o que realmente ele é: bravio e sincero!
 
Beijo-a e a aperto mais forte, tentando, no seu corpo, esquentar também o meu frio.
No horizonte, a Ilha se aproximava mais, sempre mais. A chuva nos molha.
Estamos felizes. Esquecemos tudo e nada mais existe, apenas nós, um grande amor e uma casinha na ilha.
 
E a casinha nos espera, tanto eu quanto ela sabemos disso.
 
Desembarcamos, ela sorri e seus olhos brilham como pérolas!
–  Chegamos, amor! Eis a casinha: feia, pequena, mas ao mesmo tempo singela. A porta? Não há problema, entrarei pela janela.
 

Ainda não almoçamos e já são quase três horas…
Ovos, pão e sardinha, um saboroso almoço de Reis. Ela gosta do cheiro e o cheiro nos faz rir, felizes. E a casa pequena, de repente, nos parece uma mansão. E nela somos o Senhor e a Senhora. O tempo é nosso, não temos hora. Lá fora a chuva não cede, rega toda a ilha. Quando a noite vem nos encontra ainda no pequeno quarto. O barulho da chuva se transforma numa canção de amor, o leve suspiro dela em meu peito marca o ritmo da canção, o brilho em seus olhos anuncia a mudança do compasso.
E agora, são nossos gemidos e juras de amor que conduzem a canção e se confundem com os uivos do vento lá fora. À luz das velas temos o cenário perfeito para a orquestra dos nossos desejos, dos nossos sonhos.
 
Quando a canção cessa, sabemos que é hora de partir. Piso firme no acelerador, já são quase onze.
Ela olha preocupada, talvez pensando em seus pais e no tardar da hora.
Na fila para o ferry boat, lembramos de todo o amor que fizemos há pouco. Seus olhos brilham de desejo novamente.
Mas estamos na fila, que anda lentamente, como se nos torturasse por sentirmos tanta felicidade. Nos vingamos de sua lentidão com beijos apaixonados.
 
Mais tarde, ainda abraçados, olhamos para a ilha cada vez menor na escuridão da noite.
A ilha ganhou dois filhos. Filhos que se amaram como se não houvesse um outro amanhã ou uma outra ilha no mundo.
Ela põe a cabeça em meu ombro e adormece com aquele sorriso que só os amantes possuem.
 
E a barca continua sua viagem mar adentro.
 
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Ufa… Essa foi uma das minhas lembranças que voltaram a tona ao ler Mix Tape, da mineira Lu Cafaggi, e assim como ela escreveu nos quadrinhos, "danou-se. Não vai sair da cabeça tão cedo".
 
Mix Tape é formado por quatro "gibis miudinhos" como define a autora. Os quadrinhos narram a história de quatro mulheres e sua relação com a música, em um misto de lembranças que vão transportar o leitor para o lugar mais íntimo da sua memória… Com uma suave melodia – possível de sentir através do traço poético da Lu – conduzindo essa viagem.
 
Mix Tape custa R$ 9,60 e foi uma das surpresas do FIQ. Para adquirir basta entrar em contato com a autora: lucafaggi@ladyscomics.com
 
Depois passa aqui e nos conta qual foi a sua lembrança!
 
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Título: Mix Tape
Autora: Lu Cafaggi
Nível de recomendação do QaQ: 10/10

 

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...