Esse texto foi publicado originalmente em 03 de outubro de 2011 e muito me encantou saber que alguém estava registrando o andamento do curso de pós-graduação em "Estudos em Quadrinhos", lá na Universidade de Dundee. Rapidamente entrei em contato com a Laura Sneddon e pedi autorização para traduzir e publicar os textos referente à coluna dela no CBR sobre o assunto. Apesar de datado, vale a pena conferir a experiência da Laura para que possamos refletir ainda mais sobre os estudos acadêmicos sobre histórias em quadrinhos. Tentarei manter uma frequência na tradução dos textos com o intuito de diminuir a defasagem do tempo de publicação – tradução

Gostaria de agradecer imensamente a Laura pela oportunidade de divulgar em terras tupiniquins seus relatos e pelas dúvidas tradutórias devidamente tiradas e à Dianna Montenegro pela revisão da tradução.

 

Espero que apreciem.

Adalton Silva

 

Uma introdução aos "Estudos em Quadrinhos"

Por Laura Sneddon*

 

 

 

 

 

Terra dos livres, lar dos bravos e o país com uma das maiores produções de quadrinhos na história; De qual lugar estou falando? A Escócia pode não ser o primeiro lugar que vem à mente quando se considera os bastidores do mundo dos quadrinhos, mas esta terra pequenina e um tanto úmida teve uma influência espantosa no cenário dos quadrinhos britânicos e americanos. Ao longo dos anos, deu ao mundo Grant Morrison e Mark Millar, Judge Dredd e Alan Grant, Frank Quitely e Jamie Grant.

Sim, metade da nossa população chama-se Grant e sim, todos nós, na realidade, conhecemos Morrison. Talvez.

Então, que lugar melhor para lançar uma das primeiras graduações acadêmicas oficiais em estudo de quadrinhos do mundo do que a pequena cidade escocesa de Dundee? A Universidade de Dundee acaba de iniciar um novo curso de pós-graduação (um mestrado em literatura) de um ano nos Estudos em Quadrinhos. Na minha nova coluna para CBR, cobrirei o curso a partir da perspectiva de uma estudante e analisando o que o termo "Estudos em Quadrinhos" realmente implica.

Por que Dundee, você pode perguntar? A cidade deu ao mundo muitas coisas, desde o Willian Stryker do filme dos X-Men (Brian Cox) até Mickey Mouse (Jimmy MacDonald fez a voz!), mas ela é mais famosa por ser a casa da DC Thomson, editora de jornais, revistas e quadrinhos do Reino Unido. Na verdade The Dandy (uma série de quadrinho escocês para o público infantil), é o terceiro quadrinho mais antigo ainda em produção no mundo e há uma incrível estátua de Desperate Dan, um personagem principal desse quadrinho, no centro da cidade. Dundee tem uma comemoração anual de quadrinhos que tem atraído grandes nomes como Warren Ellis e Bryan Talbot, em grande parte devido ao imensamente respeitado Dr. Chris Murray: estudioso local na área de quadrinhos e o grande homem encarregado do recente curso de Estudos em Quadrinhos.

O Reino Unido ainda associa fortemente os quadrinhos com entretenimento infantil e a este novo curso foi dada atenção da imprensa bastante previsível, com um membro do parlamento declarando no twitter sobre o emburrecimento das titulações acadêmicas e comparando os Estudos em Quadrinhos a uma licenciatura em forquilhas, ou um bacharelado em Ciências de Battlestar Galactica. Porém, eu tenho que admitir, um grau de ciência em Tecnologias de Battlestar Galactica seria fantástico.

É claro que não há nada surpreendente no fato dos quadrinhos não serem levado a sério como a literatura e as artes plásticas. Este  preconceito foi, de fato, um dos muitos assuntos abordados na palestra introdutória a que assisti esta semana. Antes que o curso fosse anunciado em junho, eu não tinha absolutamente nenhuma intenção de retornar à universidade. Meus dias de exames, ensaios e miojo eram uma feliz e distante lembrança. Como uma escritora freelancer que se especializa em teoria e história dos quadrinhos, no entanto, foi difícil resistir a me inscrever em uma pós-graduação nesse campo de estudo. Especialmente quando sua mãe te estimula a escrever sobre algo sensato pelo menos uma vez na vida.

Como você certamente adivinhou, eu não estou aqui para ler quadrinhos de crianças. O curso é composto de três módulos: o primeiro com foco em quadrinhos autobiográficos, o segundo em cultura de quadrinhos internacionais e por último, temos a opção de escolher um dos tópicos: a criação de quadrinhos, roteiro ou escrita para publicação. Eu escolhi a primeira opção, pois eu bem gostaria de tentar a sorte na criação de quadrinhos e isso deve me fornecer uma melhor compreensão do meio.

Dr. Murray é bem conhecido nos círculos acadêmicos por suas diversas contribuições para o campo de estudos em quadrinhos e eu tive a experiência surreal de ser apresentada a ele em julho por Grant Morrison. Eu estava entrevistando o escritor da Action Comics em Edimburgo para um jornal nacional no Reino Unido antes de ser convidada para ficar por perto para encontrar algumas pessoas, o Dr. Murray entre eles. É um país pequeno, com certeza, mas não tão pequeno!

Antes de entrarmos de fato nos quadrinhos autobiográficos, assistimos à palestra introdutória que define o conceito de Estudos em Quadrinhos como um todo e um breve resumo da teoria e história dos quadrinhos, como é atualmente compreendida. Historicamente, o estudo das histórias em quadrinhos tem sido algo irregular quando comparado com outras formas de entretenimento e a literatura. Mesmo o cinema, outra mídia com sua própria história de luta contra a desvaloração imediata como uma forma de arte, tem uma fonte muito mais rica de trabalhos acadêmicos e críticos para escolher. Os quadrinhos geralmente têm sido estudados a partir de um ponto de vista histórico, detalhando a origem do super-herói e a queda de oferta de mercado.

A The Comics Journal existe há décadas, focando na crítica e Scott McCloud, Thierry Groensteen e Trina Robbins são apenas alguns dos nomes merecedores de um lugar em qualquer estante de livros acadêmicos sobre quadrinhos. No entanto, a real teorização acadêmica dos quadrinhos continua em sua infância e é vista como indigna de ser o foco de uma licenciatura em literatura. Dado que quadrinhos são uma combinação de duas formas de arte bem respeitadas – ilustração e literatura – de onde surge esse ressentimento? 

A última capa da brochura do Estudos em Quadrinhos nos dá uma boa indicação dos livros a serem estudados durante o curso do programa 

Os Quadrinhos de produção em massa nasceram por volta da mesma época do cinema; os primórdios da sétima arte e as primeiras tiras só foram possíveis devido à invenção de técnicas de reprodução mecânica das imagens. Antes dessa evolução industrial, toda a arte era única e todas as apresentações eram vistas pessoalmente. Para ter acesso a uma obra de arte ou desfrutar de uma noite no teatro era necessário ter status, dinheiro e fazer parte da classe social adequada. De repente, no espaço de poucos anos, a arte e a performance foram ambas disponibilizadas a baixo custo e de pronta-entrega. Os pobres desgraçados tiveram acesso à cultura de massa, um evento intolerável para a elite da sociedade.

A hierarquia das artes logo entrou em cena mais uma vez, com a ópera no topo, o cinema na parte inferior e os quadrinhos em algum lugar ainda mais baixo. Quando se trata de literatura, a regra de "palavras: bom; imagens: ruim" está firmemente arraigada. Quadrinhos possuem a capacidade de transmitir idéias complexas com um estilo (aparentemente) simples. Esse poder, muitas vezes colocado para o uso político através de caricaturas e paródias, foi incrivelmente assustadora para os demais acima na hierarquia. Anteriormente, tais idéias eram mantidas fora do alcance do público em geral, discutidas somente por aqueles com o privilégio da educação. Posteriormente, os quadrinhos foram minimizados como algo juvenil, criado para as crianças e que não deveriam ser levados a sério. 

O sucesso do gênero de super-heróis e a sua rentabilidade atraente garantiu que os quadrinhos permanecessem presos a  estes rótulos, independentemente do seu conteúdo, durante décadas. Da próxima vez em que alguém te zombar por ler quadrinhos, sugiro informar-lhe que o seu ódio elitista para com a classe trabalhadora é mais do que impróprio. 

Entre os leitores regulares de quadrinhos, claro, é bem sabido que há muito mais do que capas e cruzadas. O primeiro módulo do curso de Estudos em Quadrinhos, Autobiografias, abrange uma série de obras; do premiado Maus de Art Spiegelman e Persepolis, de Marjane Satrapi até títulos menos comerciais, como Fun Home da Alison Bechdel e Epiléptico, do David B. A seguir, estudaremos os Quadrinhos como Confissão, com American Splendor, a aclamada série autobiográfica feita por Harvey Pekar. Seus quadrinhos são sem glamour e mundanos, sem nenhum senso de excitação ou unidade, e ainda assim eles são emocionantes, viciantes e completamente fascinantes. Pekar documentou sua vida como ela se desenrolou, de consertar a privada para se preocupar com seu trabalho nos quadrinhos e encarar seus problemas de saúde. Todos os detalhes no papel. 

A cada semana, teremos um texto recomendado para analisar e comentar antes da próxima aula, trechos dos quais são enviados on-line previamente. Hoje à noite, darei uma olhada no capítulo sete de Nosso ano do câncer e me perguntarei quando poderei comprar algumas edições. As experiências vividas por Pekar são retratadas tão realisticamente, em toda sua glória prosaica, que elas não teriam o mesmo peso como texto puro. Minha próxima aula deve me ajudar a entender com mais detalhes porque American Splendor tem tanto impacto. 

Na terceira semana, espero fazer a primeira apresentação de sala sobre Persepolis, uma história muito querida para mim. Mencionei anteriormente que apesar de eu ser geek sob todos os aspectos, minha especialidade é teoria e história dos quadrinhos; estreitamento que se concentra ainda mais: o meu tópico preferido é mulheres nos quadrinhos e foi uma série de artigos sobre esse assunto que, acidentalmente, primeiro lançou a minha carreira na escrita. Uma combinação das divagações do meu cérebro e o meu conhecimento sobre a  indústria editorial chamou a atenção de nomes realmente grandes, de Jim Lee a Greg Rucka. E quando Warren Ellis retuita seus artigos, você sabe que sua vida está prestes a ficar muito estranha. 

Palestrantes convidados certamente estão no programa, uma vez que Dundee tem uma longa tradição de conseguir alguns grandes nomes para vir visitar. Por sorte, cerca de metade deles vivem em Glasgow, a apenas um par de horas de distância. Posso também prometer aos visitantes estimados meus famosos brownies e um pouquinho de adoração. 

Finalmente, para responder à pergunta que as pessoas tem me feito sobre meu retorno à vida acadêmica – quem estuda quadrinhos? Estarei eu cercada por uma multidão de trolls de fórums ou por acadêmicos me julgando por meu tempo afastada da universidade? Eu sou a única mulher? Será que todo mundo tem barba? Eu sou a mais velha na classe? (É certo que esta última era a minha própria pergunta, uma preocupação ridícula no melhor dos tempos para alguém com vinte e tantos anos.) 

Felizmente a resposta para todos os itens acima é não, a classe é na verdade composta de uma mistura eclética de pessoas, tanto das artes quanto das ciências, juntamente com aqueles que estão mudando de carreira, outros que simplesmente gostam de quadrinhos e até mesmo alguns senhores de DC Thomson. Talvez um par de barbas. E eu, claro, a escritora de cabelos roxos ("jornalista caramba!" Grita o Spider Jerusalem que vive na minha cabeça), ainda um pouco surpresa por estar de volta na sala de aula.

Estudos em Quadrinhos não é muito diferente de outros cursos de pós-graduação em Inglês – ninguém entra no curso com ilusões que irá conseguir um emprego com Estudos em Quadrinhos Corp. Mas é fantástico ver este tão difamado campo finalmente recebendo a atenção que merece. 

E sim, minha mãe agora concorda que quadrinhos valem a pena, afinal. 

 

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*Laura Sneddon é jornalista freelance sobre quadrinhos no Reino Unido, escrevendo para imprensa e sites similares. Você pode segui-la no Twitter ( @thalestral ) e ler a maioria de seu trabalho em comicbookGRRRL. No seu horário de trabalho, ela vende quadrinhos para um público inocente e formula seu plano para se tornar uma professora do mal dos quadrinhos.

— Adalton nasceu no último dia de uma lua cheia, mas acha que isso não tem nenhuma relação com a sua vida; começou comprando quadrinhos por puro modismo - uma edição da Turma da Mônica parodiando Jurassic Park; sua primeira compra consciente foi a edição nº 01 de Batman: A queda do Morcego, ainda formatinho. Acredita que irá terminar a graduação em Letras antes da catástrofe de 2012 e daqui até lá está estudando parte das traduções intersemióticas das peças de Shakespeare já produzidas. E nos interlúdios, tenta produzir roteiros a partir idéias rabiscadas em antigos pedaços de papel.