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 ► Keli Vasconcelos¹

 

 

 

azulDia desses, vasculhando uns documentos, encontrei uma carta de despedida, e um fora, de um ‘carinha interessante’ dos tempos de colégio. Mas o destino prega peças e anos depois acabei revendo-o, bem diferente (e desinteressante) do capoeirista bonitão daquela época. O bilhete estava junto com outras mensagens de colegas em um caderno bem colorido.

Aquela situação lembrou-me de “Azul é a cor mais quente”, de Julie Maroh (Martins Fontes). Engrado é que primeiro eu li uma resenha da adaptação para o cinema (dirigido por Abdellatif Kechiche) e depois comprei o álbum, que conta a trajetória de Clémentine, uma jovem de Lille, cidade no norte da França, que passa pelos perrengues de qualquer ser que adolesce: descobertas, festas, dúvidas, amigos, porres (com ou sem dor de cabeça), amores (os que ‘tampam buracos’ e os que ‘preenchem espaços’ no coração), entrelaçar de mãos ao som de R.E.M … Tudo isso relatado no diário ganhado da avó no aniversário de 15 anos.

 Até aí, nada demais. Porém, Clém vai ao primeiro passeio com o namoradinho de escola, Thomas, na Grand’Place em 27 de outubro de 1994. Durante o trajeto, a mocinha cruza com Emma, uma engajada estudante de Artes de cabelos e olhos azuis, companheira de Sabine, ativista da cultura gay. Apenas um olhar e muda-se a vida por completo… Ah, leitor, quantos olhares já mudaram as nossas existências, hein?

Pois bem, há um reencontro quando Valentin, amigo de Clém, convida-a para ir a um bar gay da cidade. E agora? Assumir ou não esse desejo que assombra as noites da nossa sonhadora? Encarar os pais severos, que nunca aceitariam a filha única apaixonada por outra mulher?

Com traço e roteiros delicados, Maroh levanta discussões que vão do universo gay a Hipertensão Arterial Pulmonar (que é pressão alta nas artérias pulmonares, sobrecarregando do coração), mal que ceifa a vida da protagonista; o álbum começa pelo fim, diga-se.

A autora também lança uma provocação, já retratada nos livros, nas artes, na música, na poesia: o que o amor? Existe amor eterno, com conceito e sexo? E quando esse sentimento dissipa, será que volta? De que maneira? Com que forma? É possível amar novamente alguém que amou antes?

Ah, só sei que o amor retratado em “Azul é a cor mais quente”, tomando as palavras de Clém, é abstração, é indiscernível. É nuance de azul ou de marrom, preto, cinza, quiçá vermelho. Ficam, então, as lembranças, os desejos.

E tomando agora as palavras de Emma, que vê o quebrar das ondas, “só o amor pode salvar o mundo”. Daí, lembro-me de “Vento no Litoral”, aquela canção da Legião Urbana que fala: “Já que você não está aqui/ O que posso fazer é cuidar de mim/ Quero ser feliz ao menos/ Lembra que o plano era ficarmos bem?”. 

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¹ Keli Vasconcelos é jornalista de São Paulo e freelance para revistas. É colaboradora do Portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br), em que conta histórias sobre São Miguel Paulista, no extremo leste da capital paulista. Saiba mais em http://twitter.com/keliv1

*O conteúdo deste post expressa a opinião da autora, que é plenamente responsável pelo mesmo.

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...