capa o gosto do cloro

Um grito preso na garganta.

Nunca sentiu isso?

Quando criança sempre sentia. Aliás, até os 17 anos não senti outra coisa. Uma vontade louca de sumir, de fugir de tudo e de todos.

Uma constante sensação de não pertencer a aquele lugar. A certeza incômoda de saber que também não pertencia a nenhum outro lugar.

E ensaiava o que ia dizer, fosse para a menina mais linda da rua pela qual eu era apaixonado ou para o valentão do bairro, de quem eu sempre fugia. Cada palavra, cada ação, cada olhar, tudo parecia tão certo na minha cabeça…

Mas na hora não rolava. O medo tomava conta de mim, minha mente não funcionava, minhas pernas bambeavam e as palavras simplesmente não saíam.

E cada centímetro do meu corpo sentia isso.

Um grito preso na garganta pode arruinar toda a sua vida, física e emocionalmente.

É claro que uma hora tudo mudou. No meu caso a mudança veio acompanhada de rock, sexo, porres homéricos e todo o resto que nesses tempos politicamente corretos provavelmente me causaria alguma dor de cabeça com a Lei.

Mas “cada qual com cada qual”, como diria uma velha (e doida) amiga.

E o grito preso uma hora sai. Para alguns mais cedo, para outros mais tarde. E para aqueles que nunca perceberam ele aprisionado, talvez só saia nos sonhos ou nos momentos de desespero.

Ou quando não dá mais.

E por que estou dizendo isso?

Por causa de uma piscina.

Ou, melhor dizendo, por causa de um gibi sensacional que se passa numa piscina.

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Ler O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès (Leya/Barba Negra – R$ 49,90) é uma experiência única, mágica.

A história?

Um carinha que tem dor nas costas e vai nadar pra ver se melhora. Lá ele se encanta à distância por uma menina e tenta se aproximar.

Se empolgou?

Se você respondeu que sim procure um analista agora. Essa premissa é tão interessante quanto uma tampa de garrafa de refrigerante no chão. E se você se interessa por tampas de garrafas de refrigerante no chão… bem, é melhor realmente procurar ajuda profissional.

Mas O Gosto do Cloro é muito mais do que uma simples história de um cara com dor nas costas.

É a história de alguém que sofre diariamente. Uma pessoa que passa cada minuto do seu dia pensando em como amenizar suas dores.

Ingênuo, nunca percebeu que suas dores eram muito mais profundas do que um trapézio defeituoso. Se soubesse, teria mudado sua postura antes. E quando digo postura, não estou falando de ergonomia.

Ao aceitar o conselho de seu fisioterapeuta e ir praticar natação, o protagonista de O Gosto do Cloro acaba encontrando muito mais do que o alívio à sua dor.

Ele acaba encontrando a si mesmo.

E é aqui que temos a verdadeira história do gibi.

Algumas novas correntes da medicina alternativa (e todas as milenares correntes) entendem que as dores do corpo possuem estreita relação com as dores da alma. E que às vezes, o mais poderoso antinflamatório pode caber no tamanho de um sorriso, de um desprendimento, de uma atitude.

Ao tomar coragem e começar a vencer seus medos, nosso atormentado herói começa um processo irreversível de descoberta.

Da insegurança inicial à sequência em que atravessa toda a piscina embaixo d’água, o que vemos é a evolução de uma pessoa frágil em alguém capaz de vencer qualquer obstáculo.

Não porque o exercício lhe criara músculos, mas simplesmente pela certeza da vitória. Ou então, muito mais apropriado seria dizer pela falta de medo da derrota.

E a evolução está estampada em cada quadro da soberba narrativa de Vivès.

Num olhar assustado, no cabelo molhado grudado às costas, em meia dúzia de quadros para um único movimento de pernas, nos ângulos e enquadramentos improváveis, na visão centrada em si mesmo mas principalmente na visão focada no outro e refletida novamente em si (ou em quem lê, cuidado, pois a armadilha é poderosa), Vivès criou uma narrativa assustadoramente bela.

Numa história com uma premissa tão banal, O Gosto do Cloro fala sobre tudo o que é importante na vida.

A menina que ele curtiu?

O lance todo não era sobre ela. Ficou em algum lugar da história e proporcionou um dos mais brilhantes finais que um gibi já apresentou.

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Como disse, um grito preso na garganta pode arruinar toda a sua vida, física e emocionalmente.

E quanto antes o soltarmos, melhor.

Nem que seja um grito silencioso no fundo de uma piscina.

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— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.