Hoje se comemora o dia da África, desde 1963 quando representantes de 32 nações africanas se reuniram na Etiópia e fundaram a Organização da Unidade Africana, num período em que ainda existiam diversos países africanos na posição de colônias de impérios europeus. Essa unidade não buscava heterogeneizar a África, mas reconhecer na força unitária o caminho para a descolonização. Heterogeneização que o imaginário abusou, principalmente nos quadrinhos da primeira metade do século XX.

Quando me conscientizei africanista, não havia me dado conta do quanto eu já tinha de bagagem sobre a África desde a graduação uns aninhos atrás. Por conta de matérias relacionadas à história da África, devorei a coleção História Geral da África, e vi que havia muito mais além desse generoso compêndio que começou a ser escrito justamente no fervoroso período de 1964. Quando da feitura desta obra, as narrativas de entretenimento já haviam produzido estereotipias sobre a África através de imagens depreciativas e preconceituosas. 

Eu já havia conhecido essas Áfricas imaginadas nas narrativas do Tintin, Tarzan e Fantasma. São populações autóctones tratadas como animalescas ou infantilizadas, fazendo uma rápida associação com a natureza igualmente inóspita em sua volta. As pessoas já associavam o lugar com o perigo, de tantas narrativas literárias e quadrinhescas que foram produzidas, principalmente por viajantes compatriotas dos países que ainda colonizavam todo este vasto território. Mais do que simples depreciadores do mundo dos outros, essas narrativas nos são, hoje, fonte rica para se entender o nascedouro dessa visão negativa da África e de todos os povos e sociedades ali presentes. 

Mesmo quando se tentava salvaguardar uma herança respeitosa, o pouco conhecimento sobre o continente por produtores estadunidense de quadrinhos não era bem sucedido. Dois casos são interessantes sobre isso: O primeiro deles é Waku, príncipe de Bantu, lançado pela editora Atlas Comics (futura Marvel Comics) em 1954 chamada Jungle Comics, onde um guerreiro ajudava populações locais da África do Sul. O segundo personagem, uma publicação pensada por Orrin Cromwell Evans, jornalista afro-americano que publicou a revista All Negro Comics, em 1947, totalmente feita por personagens negros e autores negros, como John Terrell, Cooper e George J. Evans Jr, este último desenhando as histórias do Lion Man, um forte guerreiro africano que, de novo, ajuda populações locais contra a tirania de estrangeiros. Apesar das boas intenções de ambas as narrativas, continuavam sendo Tarzans negros sobre uma África estereotipada.

Mas com o advento dos super-heróis as coisas começaram a dar os pequenos passos para a mudança. Ainda que muitas vezes a representação do imenso continente fosse continuamente feita por estereótipos. Quando Wakanda foi inserida em 1966 como cenário das narrativas do Pantera Negra (Prometo qe não vou me prolongar aqui, já que já escrevi bastante sobre ele), ela foi feita como a isolada cidade mais evoluída da África, uma espécie de Atlântida Negra. Sua localidade geográfica sempre inserta, numa região centro-africana que reduzia os diversos biomas africanos (savanas, florestas, desertos) no entorno da cidade. Esta cidade-Estado, por sua vez, com tanto destaque por suas riquezas, centralizava o foco de conflitos diversos: estava cercada por reinos como Rudyarda (no número 119 da revista Fantastic Four em 1972), Canaan (surgida na revista Deathlok número 22, em 1993), Ghudaza (na revista Black Panther em 1999), Ujanka (mesma edição anterior), entre outros. Conflitos, também, com as repúblicas de Burunda (na revista Moon Knight em julho de 1989) e Azania (aqui no Brasil no número 92 da revista X-men, editora Abril em 1996) e os Emirados de Nairobia (edição de Black Panther de 1977).

Aqui se fortalece o imaginário que a vivência africana está atrelada a conflitos "étnicos" e que é uma constância fatídica. Wakanda, isolacionista e xenófoba, teria uma política fechada de não participações nos problemas dos seus vizinhos, atitude bastante controversa em relação aos movimentos de apoio às emancipações que ocorriam três anos antes, com a Organização da Unidade Africana e muito menos com o Movimento dos Panteras Negras em solo estadunidense. Entretanto, apesar dessas persistências num imaginário sobre a África, está claro que o super-herói de Wakanda, o Pantera Negra, afastava-se de uma simplista inocência quando comparado com os heróis da aventura, Waku e Lion Man (aqui é bom tomar cuidado e não confundir com o Tokusatsu de 1973). 

Mas houveram singulares momentos onde as narrativas ficcionais foram usadas para fazer críticas indiretas aos conflitos africanos, ou pelo menos seu conflito mais famoso: o Apartheid. O reino de Rudyarda já havia sido usado pela Marvel para falar de segregações raciais, mas nada se compara à estratégia de Chris Claremont na revista X-men. A partir da edição de número Uncanny X-Men número 235, em 1988, a pequena ilha de Genosha, nas proximidades de Madagascar, na costa oriental africana, era inserida para fazer uma clara alusão à política segregacionista que vigorava na África do Sul (foi lançada pela editora Abril na edição 44 da revista X-men, em 1992). Obviamente a narrativa emulava a situação apresentando conflitos entre humanos e mutantes, mas mexeu na ferida que ainda estava bastante aberta, já que o Apartheid durou entre 1948 a 1994, apenas seis anos após a indireta nos quadrinhos dos mutantes (e se você pensou: Ah, mas é claro! Conflito racial é coisa de mutante, leia esse texto)!

wallaye1Mas existem outros narradores, outros "griots" sobre essa África, não menos imaginada, mas, porém, muito melhor sintonizada com a que o entretenimento ainda está conhecendo. Trabalhos fora do mainstream que buscaram suas narrativas e cenários no extenso continente, e que buscaram apresentar uma vivência bastante afastada das comuns estereotipias de guerras e sociedades selvagens. Em 1991, por exemplo, saiu pela editora Abril a edição Wallaye! Keubla & Kebra na África pelo selo Graphic Novel, contando a intimista história de dois músicos na África. Os dois personagens apresentam problemas sociais e miséria, com crítica e humor ácidos, frutos de uma viagem de seu autor, Jano, à África francófona. Na edição de número 6 de Grandes Aventuras Animal, em 1991, também, temos a África em uma chistosa narrativa chamada Edmundo vai à África, de Martin Veyron e Jean-Marc Rochette.

Recentemente produções foram feitas ainda mais intimistas sobre sociedades africanas, e que não focaram em problemas, como os anteriores. Ou melhor, focaram problemas bastante fidedignos, sem as amarras dos arquétipos. Um exemplo é o conto de Sundiata, o leão do Mali, que Will Eisner narra o mito originário do povo Mandinga, sobre sua vitória guerreira e política e a inserção do islamismo na região. A tradição oral de transmissão dessa narrativa pode, muitas vezes, fazer-se entender erroneamente de que se trata de uma fábula, mas o que temos é uma narrativa epopeica de um evento pertinente à história da região do Mali anterior ao neocolonialismo. Na mesma região temos o povo Dogon representado no quadrinho O Apanhador de Nuvens, de Beka e Marko, autores europeus, lançado pela editora Nemo em 2013. Na história, dois meninos aventuram-se em busca de um objeto mágico para promover bonança a sua comunidade. Ambas as histórias são pratos cheios para serem usadas em sala de aula.

Nessa lista generosa de histórias em quadrinhos recentes sobra a África, não haveria de faltar a obra Aya de Yopougon, da escritora Marguerite Abouet e seu marido Clément Oubreie, lançada pela editora L&PM em 2009. Bastante intimista, a narrativa busca em diálogos e memórias apresentar todo um imaginário feminino e familiar do distrito Yopougon da capital Abidjan, Costa do Marfim. Essa relação de proximidade, principalmente com questões de expectativas familiares como casamentos e filhos, faz de Aya uma obra singular não apenas no trato sobre uma sociedade africana, mas, também, sobre padrões sociais, planos de vida, autonomia e as multiplas dimensões do bem estar (e que pretendo falar a respeito disso na Segunda Jornada Temática de Quadrinhos agora em julho).

Talvez nos seja proveitoso questionar o quanto que ainda somos limitados a entender a diversidade da África, a começar com o desvendar de sua geografia. Contra a heterogeneização da África, reduzindo-a a estereótipos comuns, faz-se proveitoso compreender que esses lugares imaginados da África, nessas narrativas ficcionais, surgem, entre tantas motivações, por duas especificidades: a primeira delas é a ignorância sobre a geografia e história africanas. A segunda é fruto de um triste conforto que a inventividade faz ao tirar responsabilidades com a realidade africana. Atender as expectativas da lei 10.639 também se faz pela superação de preconceitos sobre a geografia africana, como nos esclarece Renato Emerson dos Santos (assista aqui). Que toda imersão sobre a África seja, então, tijolos que possam construir esse saber com felicidade. Feliz dia da África!

 

 

— BATMAN em tempo integral e Historiador nas horas vagas, busca a verdade e enfrenta vilões em ambas as ocupações!