scanner

Quase toda vez que penso em resenhar algum quadrinho aqui pro QaQ vejo que o li primeiramente na internet via scans. Exceto pelo Gata Garota <http://quadro-a-quadro.blog.br/tag/gata-garota/> que li impresso primeiro e depois li o que a Fefê Torquatto vem publicado em seu site.

Por isso me veio a ideia de escrever um texto sobre os tais scans.

Acho que nem precisava, mas queria lembrar que este é um artigo de opinião pessoal a qual não é necessariamente a mesma dos outros membros do blog.

Aprendi a ler com quadrinhos, como muitas crianças. Leio de tudo e não tenho preconceitos – ao menos até a primeira leitura, claro, quando posso não gostar. Depois que comecei a ter mesada, com o troco do gasto com almoço comecei a comprar os meus gibis.

Comprava quase tudo da Marvel na época (cheguei até a assinar por um tempo…) e algumas coisas que gostava da DC (sou Marvete de carteirinha, não adianta…). Fui atrás de muita coisa em sebos e bancas de revistas antigas. Só que aos poucos conheci o universo Vertigo da DC e suas histórias mais adultas.

Devagar, fui deixando de lado os quadrinhos de super-herois exceto por uma ou edição especial que me chamasse atenção. Lá nos EUA eram muitas as histórias lançadas desse gênero e aqui no Brasil não dávamos conta de acompanhar tudo o que saía. Sem contar os mix feitos pelas editoras daqui com muitas histórias chatas para serem lidas junto com duas ou três boas. Queria mais qualidade e em grande quantidade coisa praticamente certeira nos quadrinhos adultos e autorais que estava descobrindo.

Só que eu ainda queria saber como tinha acabado aquela história do Wolverine e do Ciclope que eu lia nas mensais, ou quem estava na atual equipe dos Vingadores. Aí um amigo me apresentou o universo dos scans, onde ele leu com calma toda a fase do Grant Morrison nos X-Men que ele não tinha conseguido pegar nas mensais. E foi pelos scans que li todas as últimas grandes sagas da Marvel desde Guerra Civil e onde conheci diversos outros quadrinhos que nunca tinha ouvido falar e que, depois de muito tempo, acabei comprando quando saiu no Brasil.

Sobre os scans em si o que eles são? Existem pelo menos dois tipos: aqueles que escaneiam materiais antigos, às vezes tão antigos que não são mais encontrados por aí, que estão esgotados e até que já estejam em domínio público, para fins de arquivo, preservação digital etc.

O outro tipo, mais usual eu diria, faz um trabalho parecido com o do pessoal que legenda filmes e séries de TV: utilizando versoes digitais dos quadrinhos lançados lá fora (ou escaneados por grupos estrangeiros), fazem a tradução de todo o texto dos quadrinhos, diagramam o novo texto substituido o original, lançando assim a versão traduzida.

Existem ainda aqueles que se utilizam de quadrinhos lançados aqui no Brasil mesmo, na forma de encadernados, digitalizam o calhamaço todo, tratam as imagens e lançam na forma digitalizada.

Me perguntariam: “Mas, Marcelo, isso não é pirataria?” E eu responderia que depende. O primeiro tipo de escaneamento até tem uma justificativa mais válida, alguns proprietários desses direitos até poderiam não se importar tanto, seria uma forma de compartilhar uma cultura há muito esquecida, mais difícil de ser encontrada.

Já no segundo caso… Pode-se argumentar a questão do compartilhamento de arquivos, de informação, de cultura, como já foi falado à exaustão na época do Napster com relação à música. Como no caso de eu ter um CD, gravar essas músicas no computador e compartilhá-las com meus amigos. Mas sim, na letra fria da lei é pirataria, da mesma forma que os filmes compartilhados assim, as séries, as músicas, jogos de computador etc.

Ah, quer dizer então que o pessoal que trabalha com quadrinhos perde dinheiro com os scans? Boa pergunta! Sim, nenhum dos quadrinhos de super herois que li escaneados eu acabei comprando depois sua versão física, ou mesmo digital legalizado. Mas li, por exemplo, Fábulas inteira por scans, bem como as séries correlatas e comprei tudo o que saiu no Brasil até agora.  Ou Hitman. Ou Hellblazer. Ou Monstro do Pântano. Ou Preacher.

Os scans me serviram para eu ler coisas que iria demorar de 6 meses a um ano pra sair aqui no Brasil (caso dos quadrinhos de super herois), serviram para eu conhecer quadrinhos dos mais diversos que nunca foram publicados no Brasil (e alguns que nunca o serão porque são ruins mesmo), serviram para eu conhecer algumas das melhores coisas que já comprei na vida e foram opção para eu ter acesso a algo que nunca consegui comprar por terem preços impraticáveis por aqui.

Se a Marvel fizesse um esquema de leitura on line de seus quadrinhos – em português, pois meu ingles é bem meia-boca – onde você pagasse um preço razoável por isso, tipo o que se paga no Netflix, imagino que daria bastante certo.

E o pessoal que publica seus quadrinhos on line? Como eles ganham dinheiro com seus quadrinhos? Eles já publicam de graça. Só ganham algo quando vendem produtos relacionados ou quando conseguem compilar suas histórias em um album físico. Surge o conceito do Social Comics, também, uma espécie de Netflix de quadrinhos, criado por brasileiros onde já tem algumas coisas interessantes por lá, mas enquanto não tiverem um apoio maior de editoras e de quadrinistas não sei como isso vai virar.

Como amante de quadrinhos, pela coisa nostálgica deles que tenho, não troco o virar de páginas pela tela do computador pra sempre. Quero sim que os quadrinhos físicos tenham vida longa ainda. Mas, para mim, os scans tiveram um papel bem importante nesse acesso a diversos quadrinhos diferentes.

— "Marcelo é advogado, historiador e professor de história. Nas horas vagas escreve sobre quadrinhos. Deixaria tudo isso de lado se fosse escolhido o Lanterna Verde protetor da Terra. Lê HQs desde que se lembra por gente. Sempre foi cercado por elas em casa ou na chácara do avô. Durante o curso de História as percebeu como fontes inesgotáveis de informação sobre seu tempo (tempo em que foram publicadas e tempos retratados em suas páginas) além de poderem ser usadas em sala de aula. Aí não parou mais e quer difundir ainda mais esse conhecimento sobre a Nona Arte."