Kimooootaaaa!!! Eis que retorno para falar um pouco sobre o Defensor da Cozinha do Inferno e uma das revistas que marcaram época nas décadas de 1980 e 1990.

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Em 1982, chegava às bancas a revista "Superaventuras Marvel" da Editora Abril. Revista que até hoje ainda é considerada por muitos leitores como sendo: a melhor revista mix da Marvel já publicada no Brasil! Por suas páginas passaram artistas como Denny O'Neil, Frank Miller, Walter Simonson, John Byrne entre outros. E o mixes eram extremamente diversificados passando por personagens como Dr Estranho, Quarteto Fantástico, Thor, Novos Guerreiros, Surfista Prateado, Justiceiro, X-Men, Luke Cage, Mestre do Kung Fu, e, até Conan, o bárbaro, Sonja – a Guerreira e Kull – o Conquistador.
Mas o que chamou a atenção desde a primeira edição foi o Demolidor, o personagem mais constante da revista. A primeira edição trazia o arco "A lei do Terror" parte 2 e 3 (sabe-se lá o que aconteceu com a parte 1), com Roger McKenzie no roteiro e arte da dupla Frank Miller e Klaus Janson. A partir da edição 4 Miller passou a dividir o roteiro com McKenzie para depois assumir o titulo de vez e iniciar a fase mais aclamada do personagem.

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Não demorou para o Demolidor se tornar o carro-chefe da revista e com isso eram raras as edições que não o traziam na capa ou suas histórias no miolo. E há exatos 25 anos atrás (outubro de 1990) era lançada a tão aguardada edição comemorativa de nº100. Edição com lombada quadrada (o normal era canoa ou brochura… sei lá), 132 páginas (o número fixo era 84), e apenas histórias do Demolidor.
Foram selecionadas 6 histórias significativas cronologicamente (uma nem tanto), que formavam um panorama da evolução do personagem, e um apanhado da história artística do mesmo através dos seus mais importantes artistas.

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Começando com "A origem do Demolidor"  (Título original: “The origin of Daredevil”). Apresentando a origem e primeira aparição do Homem sem Medo. Publicada originalmente em Daredevil nº1 de 1964, com argumento do Stan Lee (sempre ele) e desenhos do Bill Everett.
A história nos apresenta o jovem Matt Murdock, um garoto de 6 anos, sem a mãe, e morando no pobre bairro da Cozinha do Inferno, em Nova York, o jovem idolatrava o pai o boxeador decadente Jack Murdock e queria ser um boxeador também. Jack, porém, fez o garoto prometer que estudaria para se tornar alguém na vida. Ao se tornar um “rato de livros", Matt se tornou presa fácil dos valentões da escola, que o chamavam ironicamente de “Demolidor". Para não apanhar mais, ele passou a treinar e se exercitar secretamente. A vida dupla do adolescente logo teria uma reviravolta, quando salvou um idoso de ser atropelado. O jovem herói acabou sendo exposto a um tambor cheio de resíduo radioativo que havia caído do caminhão. O trágico acidente lhe tirou a visão, mas espantosamente lhe concedeu seus sentidos hiper aguçados e um sentido de radar semelhante aos dos morcegos.

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Tempos depois, em fim de carreira, seu pai concordou em entregar uma luta para ganhar uma bolada para ajudar nos estudos do filho. Porém, ao ver seu garoto presente no público que assistia à luta, Jack não quis envergonhá-lo e acabou vencendo. Esta vitória selou sua morte, ordenada pelo promotor da luta corrupto.
Tudo na trama acontece muito rápido. Em apenas uma página vemos a morte do pai de Matt, o jovem se formando na universidade, fundar o escritório de advocacia com o melhor amigo Foggy Nelson e de quebra somos apresentados a bela secretária Karen Page. Na pagina seguinte ele finalmente se torna o Demolidor, e parte para enfrentar a gangue do ex-empresário do seu falecido pai.

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Obviamente é uma HQ datada cheia de maneirismos da época e uma certa inocência. Em uma cena Matt diz que graças ao seu super tato, ele pode costurar com perfeição e logo em seguida aparece com aquela merda de uniforme amarelo e vermelho. HAHAHA Mas, também era ousado pra época. Seguindo a linha iniciada em Quarteto FantásticoLee e Everett procuravam desconcertar o leitor habituado com heróis fisicamente perfeitos com um protagonista cego.

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Em "Combate Mortal com o Príncipe Namor" (publicada originalmente em Daredevil nº7 de abril de 1965), Namor após ser confrontado pelo atlante Krang vai até a superfície procurar um advogado para processar a humanidade pelos crimes que cometem contra seu habitat natural. Krang espera que Namor se enfureça e entre em confronto com o povo da superfície. E é exatamente isso o que acontece e o Demolidor o confronta.
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Namor chega causando na esperança de processar o povo da superfície (sério…)

Essa edição marca a estréia do uniforme vermelho criado por Wally Wood que substituiu Everett a partir da edição nº4. Vale mencionar que Everett criador do Namor, só foi ter oportunidade de desenhar novamente seu personagem submarino no inicio da década de 1970, nos títulos Tales To Astonish e Sub-Mariner.

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"O irmão gêmeo de Matt Murdock" cujo o titulo original era "Enter: The Leap-Frog”, publicada originalmente em Daredevil nº25/1965Stan Lee no "ápice" da sua genialidade nos apresenta o falastrão Mike Murdock o "irmão gêmeo" de Matt Murdock. Na trama um vilão chamado Sapo surge para enfrentar o Demolidor, enquanto Murdock inventa a existência de um irmão gêmeo para tentar esconder o mistério de sua identidade a seus amigos.
O lance foi que o espertão do Homem-Aranha manda uma carta para o Demolidor, dizendo que não iria revelar sua identidade secreta para ninguém. O que ele não esperava (OH!) era que os amigos de Matt fossem ler a carta.
A solução mais fácil encontrada por Matt pra sair dessa situação foi criar um irmão gêmeo. Surge então Mike Murduck  (Basicamente usando um óculos para não verem que era cego) um fanfarrão mulherengo que dizia ser o Demolidor.

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Matt disfarçado de Mike Murdock

E todos acreditaram pois era um absurdo um cego ser um super herói. Legal que ninguém suspeitava mesmo nunca tendo visto Matt e Mike juntos ao mesmo tempo. Mesmo Foggy acabou sendo convencido, e, isso porque além de ser melhor amigo, ele conviveu com Matt na faculdade e nunca tinha ouvido falar do tal irmão.
Curioso é que está história é mais bem humorada que as anteriores. Não que elas também não fossem, mas parece que o próprio Stan Lee achou difícil levar sua própria história a sério. Além do tom mais leve e voltado para comédia a trama contava com os desenhos do veterano Gene Colan. Antes de Frank Miller, a imagem do Demolidor desenhada por Colan era a mais associada ao herói.

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O vilão é ridículo, mas os desenhos do Colan são du car@#$%!

 

Stan Lee insistiu na ideia do gêmeo por um ano e meio e, terminou com Matt fingindo que Mike morreu e que havia treinado um Demolidor substituto. Esse período foi totalmente desconsiderado pelos autores que assumiram o titulo posteriormente – Quase como se não tivesse acontecido. Mas essa primeira aparição não é uma HQ ruim. Diverte e os desenhos do Colan são demais.

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Demolidor não teve muitas fases de destaque depois que Le abandonou o titulo (pelo menos entre o fim da década de 1960 e quase toda década de 1970). De acontecimento marcante vale mencionar a primeira aparição do seu eterno nêmesis (Daredevil nº131 ): O Mercenário, num arco que durou duas edições escrito por Marv Wolfman e desenhada por Bob Brown (mas o personagem foi criado por Wolfman e John Romita Sr.).
Foi então que Jim Shooter assumiu o titulo na edição nº144, começou a levar o personagem para um lado mais sombrio e pesado. E aí que entra a quarta história deste especial: "Duelo" ( Título original: “Duel!”), de junho de 1977 foi publicada em Daredevil nº146 com desenhos do lendário Gil Kane. Nesta história não vemos Karen Page, pois ela havia largado seu emprego de secretária para tentar carreira em Hollywood. A namorada de Matt então é Heather Glenn, filha do industrial Maxwell Glenn.

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Na trama o Mercenário, invade uma emissora de TV e ameaça matar os reféns caso o Demolidor não apareça. O vilão queria se vingar já que o Demolidor o impediu de cumprir seu ultimo serviço. Não é um plot lá dos mais inteligentes, mas vale pela cenas de ação desenhadas por Kane. Mas mesmo com a mudança de ares iniciada por Shooter, o Demolidor foi perdendo força e a partir da edição nº147 passou a ser bimestral. O saldo positivo foi que a curta passagem de Shooter (Daredevil nº144 – 151) pelo titulo serviu de embrião para o que Roger McKenzie (Daredevil nº#151-161, 163-166, 183) e Frank Miller fariam anos depois.

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"Elektra" (Titulo original: "Elektra"), publicada originalmente em Daredevil nº168, traz duas estreias: Frank Miller como roteirista (ele já desenhava o personagem desde a edição 158, e dividiu os roteiros com McKenzie nas edições 165 e 166 e com David Michelinie na edição 167) e da mercenária ninja Elektra.
Miller redefiniu o personagem inserindo diversos retcons onde explorava bastante o passado do Demolidor. Suas histórias chamaram atenção e alavancaram as vendas do titulo que por sua vez voltou a ser mensal a partir da edição 170. E "Elektra" foi o primeiro desses retcons.

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Na trama o Demolidor está à caça de uma testemunha de assassinato que tem a cabeça a prêmio. E isso o coloca frente a frente com uma caçadora de aluguel — Elektra. Recordações vêm a tona: o período no campus da faculdade, o desenrolar da paixão, o atentado que envolveu Matt Murdock e culminou com o morte do pai da moça, a dolorosa despedida.

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A principio "Elektra" era apenas uma HQ pra "tapar buraco", mas o sucesso inesperado da personagem fez que com que  Miller a torna-se vilã recorrente até assassina-la em Daredevil nº181. Mas como na Marvel ninguém morre de verdade…

"…e então você morre!" (titulo original: "And Then You Die") publicada originalmente em Daredevil nº225, fecha o especial. Miller deixou o titulo na edição 191, a edição 192 foi escrita por Alan Brennert, a 193 por Larry Hama, só então  Denny O'Oneil assumiu o titulo (Daredevil nº194-202, 204-207, 210-223, 226).  O'Neil continua seguindo a linha noir imposta por McKenzie e Miller, e em "…E então você morre!" ele traz um conto mórbido protagonizado por Foggy, o Abutre e o Demolidor.

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Na trama os personagens refletem sobre os últimos acontecimentos que os abateram como o suicídio de Heather Glenn, o fim do casamento de Nelson e Deborah Harris, e ainda a falência do escritório Nelson & Murdock. Enquanto são rodeados pelo Abutre, pois segundo o mesmo Nelson e Murdock estão sempre cercados de tragédia o que faz do escritório deles o lugar o perfeito para um abutre… Poético né?! Nem tanto.
Principal destaque fica por conta da arte de David Mazzucchelli, que era o desenhista mais regular da série desde a saída de Miller. E duas edições depois junto com o próprio Miller produziram a história mais emblemática do defensor da cozinha do infernoA queda de Murdock ("Born Again" no original).

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E é isso. Superaventuras Marvel foi um puta de um gibi foda e esse especial traz histórias muito boas e cumpre muito bem sua promessa de mostrar a evolução do Demolidor através das décadas. Seria bacana se publicassem um especial desse tipo mas com histórias das décadas de 1990 e 2000, mas sem chances disso acontecer…

— Beto Magnun quando criança queria se tornar membro dos Novos Titãs e dos X-men, mas com o passar dos anos, acabou se tornando uma das pessoas invisíveis das histórias do Will Eisner.