Em maio deste ano a Mega Saga 'Marvel Super-Heroes Secret Wars', mais conhecida em terras brasílis pelo título 'Guerras Secretas' completou 32 anos de sua publicação original. A Panini, sempre com timing "perfeito", esperou dois anos após o trigésimo aniversário para a lançar a Coleção Histórica Marvel: Guerras Secretas. A saga também foi republicada ano passado pela Salvat, e claro que essas republicações causaram um pequeno reboliço nas redes sociais. Muitas discussões onde uns defendem que a saga é simplesmente genial, outros que a saga é péssima e que por ser ruim não pode ser considerada um clássico. Resolvi tirar da estante meu antigo encadernado da saga (aquele de 2008) e reler para tirar minhas próprias conclusões. 

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O encadernado da Panini, traz um texto introdutório do ex-editor da saga Tom DeFalco, que logo de cara revela a questionável razão de ser de 'Guerras Secretas'. DeFalco explica que com o sucesso de linhas de brinquedos como Comandos em Ação e He-Man, não demorou para que empresas de brinquedos começassem a investir numa linha de super-heróis. E a primeira linha de super-heróis de brinquedos de sucesso foi justamente da DC Comics, e no texto DeFalco faz questão de salientar que por terem procurado a DC e não a Marvel, a tal empresa (a finada Kenner) era composta por idiotas. Os bonecos da DC fizeram sucesso e para pegar carona nesse filão a Mattel foi atrás até a Casa das Ideias propor o lançamento da sua própria linha de bonecos de Super-heróis. 'Guerras Secretas' foi uma manobra de marketing, para promover os brinquedos. DeFalco encerra afirmando que os brinquedos não fizeram o sucesso esperado, mas Guerras Secretas foi uma das séries com maior vendagem da história das HQs.

No Brasil, a Gulliver, comprou a licença da Mattel para vender os brinquedos

Mas vamos ao que interessa (Se ainda não leu a HQ fique por aqui porque vem muito spoiler) …. As "Guerras Secretas", foram um evento épico da Marvel. Publicada nos EUA em 1984 (e no Brasil em 1986), essa mega-saga em 12 edições foi escrita por Jim Shooter, na época o homem mais importante da Marvel e desenhada por Mike Zeck. A premissa era bem simples: Beyonder, um membro da raça inumana com poderes cósmicos de alterar a realidade, junta heróis e vilões num planeta inóspito e concede recursos para que eles possam viver lá para simplesmente quebrar o pau. Tudo isso com promessas de realizar quaisquer desejos dos personagens. E essa peleja durou 12 edições…
As primeiras seis edições não revelam muita coisa, mas o desenvolvimento dos personagens chama atenção. Após Beyonder reunir os heróis e vilões e dar uma amostra de seu poder derrotando Galactus com muita facilidade, todos se submetem ao desejo da entidade e iniciam uma série de confrontos. O único que vai contra a maré é o Dr. Destino que dá início ao um plano para subjugar o Beyonder. Shooter parece nutrir uma certa adoração por Destino, já que os outros personagens chegam a ser caracterizados de forma ridícula. Enquanto Shooter transforma o Professor Xavier em babaca arrogante, o restante dos X-Men, foram reduzidos a uns boçais que parecem não conseguir trabalhar em equipe. A prova disso é que são derrotados com facilidade pelo Homem-Aranha e depois pela Vespa. Isso sem contar os personagens que surgem e somem do nada (O Lagarto, Titânia e Vulcana só pra citar).

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Mas o pior são as relações criadas e quebradas sem muitos porquês e o uso constante de sentimentalismo barato. Ok a história é cheia de maneirismos da década de 1980, mas na mesma época tínhamos Demolidor do Frank Miller, os X-Men da dupla Claremont/Byrne, Roger Stern a frente daquela que talvez seja a melhor fase do Homem-aranha e Walt Simonson no título do Thor. Por isso é um tanto ridículo ver o Magneto xavecando a vaidosa Vespa, o Colossos chorão que se apaixona com a mesma facilidade que se troca uma cueca (em menos de dois dias ele esquece completamente que amava a Kitty Pride), e os diálogos constrangedores do casal Homem-Molecular e Vulcana.

Isso resume quase todas as aparições do Colossus

Ok, a saga tem seus problemas, mas na sua metade consegue dar uma guinada positiva. Os momentos piegas ainda estão lá junto de recordatórios nada naturais, mas agora temos bons diálogos, motivações convincentes reviravoltas e empolgantes. Como já disse uns parágrafos atrás o Dr Destino é quem mais se destaque. O vilão manipulou seus “parceiros” vilões e conseguiu concretizar seu ambicioso plano para derrotar Beyonder. Podemos até esquecer que, Destino roubou os poderes do Galactus para poder enfrentar e roubar os poderes do Beyonder (já que o mesmo Beyonder havia derrotado com facilidade o próprio Galactus), pois sem isso não haveria os melhores momentos da saga em que Destino cheio de dúvidas tenta lidar com tanto poder. Aqui ele é finalmente alçado ao cargo de maior vilão da Marvel (desculpa aí Thanos, mas não dá para você). Também vale destacar o dilema do Homem-Molecular, uma peça-chave da narrativa que não quer ser mais o cara mal e está lá no meio de tantos outros vilões, e claro a origem do uniforme do negro do Homem-Aranha. No fim 'Guerras Secretas" tem mais pontos negativos do positivos (normal nessas grandes sagas né?) o que torna um sacrifício chegar ao fim da leitura.

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Um dos bons momentos, mas que logo em seguida é interrompido por um… Raio vindo do céu.

A arte também teve seus problemas, basta observar os trabalhos anteriores do Mike Zeck (ou mesmo a capa da edição 10) para constatar que o artista estava digamos que no piloto automático. A justificativa para isso seria a de que Shooter vivia redesenhado páginas para que Zeck 'corrige-se' as páginas originais por não estarem boas o suficiente. Graças a isso Zaek se enrolou nos prazos e algumas edições foram desenhadas pelo Bob Layton. 
Shooter era uma figura difícil de lidar e colecionou inimizades no meio, mas era um bom editor. Abaixo uma declaração do John Byrne, que dá a entender que Shooter passou a se achar demais graças ao sucesso de vendas que 'Guerras Secretas' havia se tornado. Deve-se levar em conta que é a opinião do artista canadense e que ele e Shooter tinham uma relação tão boa quanto o Peter Parker e Norman Osborne. 

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Trecho do livro Mestres Modernos – Volume 2– John Byrne

Mas afinal, 'Guerras secretas' é ou não é um clássico? Claro que sim. Afinal, estamos falando da primeira grande saga a reunir vários super-heróis e que teve repercussões na cronologia dos personagens. As mais afetadas foram o Quarteto Fantástico que perdeu um integrante e o já citado uniforme negro do Aranha. Claro que outros crossovers antes de 'Guerras', como o 'Torneio dos Campeões', mas até então nenhum foi tão "grandioso" ("O torneio" foi uma mini dividida em 3 edições e não prometia tanto quanto a 'Guerra'). 'Crise nas infinitas Terras', só foi publicada no seguinte, mas é notório que teve um planejamento muito maior que a Saga da Marvel. Ainda assim 'Guerras Secretas', marcou época e foi a porta de entrada para muitos leitores no mundo dos quadrinhos. Merece uma conferida com um olhar nostálgico para poder se divertir. Ainda mais se for para comparar a versão sem cortes com a folclórica colcha de retalhos feita pela editora Abril.

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Zeck conseguia mandar bem nas capas

Zeck conseguia mandar bem nas capas

— Beto Magnun quando criança queria se tornar membro dos Novos Titãs e dos X-men, mas com o passar dos anos, acabou se tornando uma das pessoas invisíveis das histórias do Will Eisner.