A coisa mais normal nesse nosso mundinho de nerds é carinha que diz que odeia samba, folia e carnaval…

Na boa, sempre achei essa posição equivocada.

Tá bom, sempre é exagero.

Até os 25 anos eu não podia ouvir um pandeiro que torcia o nariz.

Mas a gente envelhece e o que antes era certo, hoje parece ingênuo. Acredito que qualquer um que se disponha a contar histórias, tocar as pessoas com sua arte ou simplesmente produzir, mesmo que pouco se lixando para as opiniões dos outros, uma hora ou outra terá que encarar uma dura realidade: antes de odiar qualquer coisa, é razoável conhecê-la.

E se tem uma coisa que já vi de camarote é isso: o cara odeia samba, mas não faz a mínima idéia do é um pagode ou de todas as implicações artísticas e sociais que envolvem o maior espetáculo da terra (sim, façam careta se quiserem, mas o Carnaval é o maior espetáculo popular do planeta).

E sempre tem quem saca isso melhor que os outros e percebe que o caminho não é a repulsa sistemática.

E a esses devemos tirar o chapéu.

Yuri – Quarta Feira de Cinzas (Conrad – 272 páginas – R$ 36,00), de Daniel Og, ou simplesmente Dog, é um enigma.

Estamos no Rio de Janeiro, em pleno Carnaval.

Se você nunca passou pela experiência, vou tentar dar uma referência.

Imagine o metrô paulistano no horário do rush, só que ao invés de pessoas chatas e mal humoradas, tá todo mundo pulando e cantando. O condutor – sempre tão sóbrio – grita pelo microfone “PRÓXIMA ESTAÇÃO: PARADA DA ALEGRIA, PUTADA!!!”

Você desce em plena Estação Sé e vê um monte de gente fantasiada cantando, sambando, bebendo, se pegando…

Mas isso é só uma referência. Tem que ir pra lá pra saber.

E beber na Lapa. E subir o morro. E ir pra Sapucaí.

E dormir bêbado pra acordar com o sol na cara e o corpo todo sujo de areia…

E é neste cenário delicioso que Yuri acorda.

Só que ele odeia o Carnaval e o que isso desperta nas pessoas.

Essa coisa de mulatas sambando, gente bebendo e cantando, aquele batuque dos infernos em todo boteco que você pára pra tomar uma cerveja, não é a vida que ele quer. O Carnaval, para Yuri, é a morte.

O único problema é que ele já está bem morto, desde o domingo de Carnaval.

Cansado da vidinha modorrenta que levava, se jogou do 10º andar. Morreu, mas despertou zumbizaço… em pleno Carnaval.

E aí nos deparamos com a primeira grande piada do gibi: ninguém pode fugir do Carnaval e do que ele representa. E não importa o que você faça (ou não faça), a inevitável quarta feira de cinzas sempre chegará. E com ela a realidade.

Mas ainda assim, ano após ano, nos entregamos à festa. E durante aqueles poucos dias, não há problema capaz de nos impedir. Assim como Yuri, somos incapazes de tomar as rédeas de nosso destino.

E isso não é uma questão regional, é uma característica brasileira.

E assim Dog começa a desfilar todo o cinismo disfarçado de bom humor de Yuri – Quarta Feira de Cinzas.

Mas o classe média Yuri mal sabe o que o espera nesse pós-morte. Ele não perdeu só a chance de descansar em paz, perdeu também o emprego e a mulher. Pra piorar, sua mãe carola acha que ele é um milagre de Deus.

Cansado dessa morte como havia se cansado da vida, Yuri resolve tentar se matar – de novo.

Para isso contará com a ajuda de Andrei, ladrão de carros, obeso e gay.

E é através da insólita dupla de nome estranho – são nomes de origem grega (e não russa, como pode parecer à primeira vista) e seus significados dizem muito sobre as personagens – que pularemos o Carnaval.

E é a partir daí que a coisa fica (ainda mais) pirada.

Toda balada, quando você realmente se entrega a ela, fica estranha depois de um determinado momento (não mostrem essa resenha a minha esposa, por favor). As coisas fogem ao controle e você simplesmente se vê envolvido nas mais estranhas situações.

No Carnaval, qualquer balada só antecipa o momento em que as coisas degringolam e potencializa seus resultados (catastróficos ou não).

Yuri é exatamente assim, começa insólito e só piora – mas do jeito bacana de piorar as coisas.

A maneira como Dog vai apresentando as personagens secundárias não é gratuita e tem seu ponto alto no embate entre Yuri – o Zumbi – e o Rei Momo – inimigo mortal de Andrei. Divertidíssimo, o capítulo é a redenção de nosso anti herói, com direito a uma excelente sequência que tem muito mais de seriados japoneses do que dos clássicos filmes de zumbis de Romero.

E obviamente que é depois dessa briga que Yuri descobre sua verdadeira vocação. Num gibi pródigo em ótimas piadas e cáusticas metáforas, um Messias pútrido atuando como um pop star ganancioso em plena festa do pecado cristão, distribuindo milagres indiscriminadamente, é a mais engraçada e devastadora alegoria da história.

Numa procissão macabra, Dog, de maneira nada sutil, faz a maior crítica e o maior elogio ao Carnaval e a tudo o que ele significa. Ao jogar com a dualidade (morto-vivo, fantasia-realidade, pobre-rico, carnaval-religião), Yuri – Quarta-feira de Cinzas atinge muito mais do que o riso fácil, como num samba onde o ritmo diz uma coisa e a letra outra.

E termina como deveria terminar: na quarta-feira de cinzas, com os protagonistas aprisionados em si mesmos, com seus sonhos, desejos e frustrações.

Não sei se Daniel Og gosta ou não do Carnaval, não tenho a menor idéia de quais sejam suas convicções religiosas, não consigo nem uma pista de suas opções estéticas e, sinceramente, pouco me importa se ele é Vasco ou Flamengo.

Sei que produziu um gibi engraçado, desencanado, cínico e inteligente.

Exatamente como o Carnaval.

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.