Já reparam que os personagens de animações têm quatro dedos e não cinco? Esse é o gancho da HQ, "Três Dedos, um Escândalo Animado"  lançada pela Editora Gal em maio de 2009. Mas então por quê o título é 3 dedos e não 4 dedos? Por que, segundo as informações do editor, nos Estados Unidos o polegar não é considerado um dedo. Então quer dizer que a mão de um ser humano normal teria 4 dedos por lá e das animações 3 dedos. Entendeu? Eu não. Afinal, se o polegar não é um dedo, é o quê, então?

Não importa. Importa que antes de começar a falar sobre a HQ, eu quero admitir que a Gal é a minha editora favorita. O trabalho que os caras fazem parece ser o seguinte: garimpar bons e obscuros materiais em quadrinhos. Ah, e em preto e branco.

Quer dizer: se o material é obscuro, então os direitos de publicação não são caros, se a obra é em preto e branco, a impressão fica mais barata. Algum problema nisso? Até aqui nenhum, por quê o material é, no mínimo, bom. Problema teria se eles enchessem de "frufrus" (capa dura e outros mais) como desculpa para aumentar o preço. E parece que o leitor brasileiro de quadrinhos tem verdadeiro fetiche por todos os acessórios inúteis que são usados para justificar os preços extorsivos de algumas HQ's. Tenho um grande amigo (não vou dizer o nome aqui) que tem tanto fetiche nessas coisas que começou a se interessar por livros em pop up. Sim, pop up. Aqueles livrinhos em que as figuras se levantam quando o guri (ou não) abre a página. É como se fosse a tecnologia 3D do século XIX.

Voltando ao assunto, a Gal não faz nenhum "frufru" e vende as suas HQ's a um preço bem honesto. É por isso que eu gosto dessa editora: por valorizar mais o conteúdo do que a apresentação e mesmo a fama dos autores.

Mas o assunto mesmo é sobre a HQ, publicada originalmente nos Estados Unidos pela Top Shelf, "Três Dedos", de Rich Koslowski. Rich Kos … quem? Também nunca tinha ouvido falar, mas segundo informações no próprio livro ele é autor também de The 3 Geeks, além de ser casado com uma mulher que planta abóboras no quintal de casa (coitado!).

Os personagens do livro são paródias de personagens de desenhos animados, como Mickey Mouse, Pluto, Patolino, Frajola, Pernalonga e outros. Mas não é isso o que chama a atenção, mas a forma como a história é contada. Se trata de um documentário ficcional em quadrinhos. A coisa parece tão séria que em alguns momentos da trama você se esquece que vive num mundo em que ratos, patos e frangos não falam e que criaturas animadas não têm vida própria.

Na trama, o mistério de por quê apenas Rickey Rat (a paródia de Mickey Mouse), conseguiu fazer tanto sucesso? Que segredos o cineasta Dizzy Walters (o Walt Disney da trama) teria guardado?

A narrativa do Koslowski é tão boa que chega em certo ponto do livro que é impossível parar de ler. Ok, impossível é muito forte, mas que dá uma vontade louca de continuar lendo, isso dá.

Outro ponto forte é o fato do autor conseguir pegar um detalhe besta (o lance dos quatro dedos) dos desenhos animados e construir uma trama extremamente convincente e dramática em cima disso.

Só que nem tudo é perfeito. O principal problema da HQ é que o mistério sobre os quatro dedos é realmente muito besta e não consegue manter com o mesmo nível de interesse do leitor durante suas 140 páginas. A narrativa tem um ápice lá pela página 50 e depois vai caindo. Poderia terminar lá pelas 80 e poucas.

Uma pequena ressalva é que o autor ousa pouco no formato "documentário ficcional em quadrinhos". Ele o faz no padrão "60 minutes" e é bem provável que alguém pegue a sua ideia e aprimore.

Para terminar, o Koslowski é um desenhista preguiçoso pra burro. Repete quadros à exaustão.

Mas entre os prós e os contras, Três Dedos é uma leitura mais do que recomendada. Os primeiros capítulos já valem com sobra a leitura … e na capa tem a mão do Mickey ao lado de uma garrafa de José Cuervo! Sensacional!

 Ah, alguém pode me dizer o que é isso saindo do bico do Frangolino? Eu, hein!?

— Não gosta de falar sobre si mesmo, mas a sua orelha queima quando estão falando dele.