Você já parou pra pensar na responsabilidade que é traduzir uma HQ e tentar transmitir ao leitor as mesmas ideias que o autor quis passar sem perder conteúdo ou significados? Já pensou em traduzir quadrinhos? Pois eu já!

Na verdade, o que me levou a entrevistar o Érico foi a curiosidade em saber como é esse processo, pois percebi algumas vezes que nem sempre a tradução para o português consegue transmitir exatamente a mesma ideia da versão original. Por que será? Isso acontece com qualquer tipo de mídia e vários fatores levam um tradutor a fazer suas escolhas na hora de adaptar uma obra, por isso, o Érico me ajudou a entender um pouco como funciona esse processo.

Já conhecia o trabalho dele como jornalista de quadrinhos, mas de uns anos pra cá ele tem se destacado como um dos principais FB_IMG_1448886521972tradutores de HQs do país tendo traduzido títulos como Sandman e Daytripper e sendo convidado inclusive para traduzir simultaneamente grandes nomes do universo das HQs nas últimas jornadas internacionais de Quadrinhos da ECA-USP.

Espero que curtam a entrevista e aproveitem as dicas caso pensem em se aventurar por estes caminhos.

 

Qual foi o primeiro quadrinho que traduziu e quando foi? O que achou? Qual foi a maior dificuldade no início?

O primeiro foi Retalhos, de Craig Thompson, pela Quadrinhos na Cia. Fui convidado a traduzir no final de 2008, saiu em 2009. Achei a experiência ótima e a maior dificuldade foi exatamente começar, sem saber qual era a expectativa dos editores, sem ter feito algo parecido antes, meio que descobrindo o que seria traduzir um livro. Agradeço ao André Conti pelo convite e pela orientação – acho que funcionou.

Como começou a traduzir HQs?

Trabalho como jornalista especializado em quadrinhos desde 2000, e esse trabalho sempre envolveu muita tradução (de entrevistas, notícias etc.). Também criei contato com editoras, uma delas pediu uma espécie de consultoria quanto a uma linha de quadrinhos, eu mencionei que gostaria de um teste de tradução. Foi aí que comecei.

Quais as principais diferenças na tradução de obras literárias e HQs?

Dava para escrever um livro sobre isso. E pretendo escrever. Mas a principal diferença é que o tradutor precisa atentar para a relação da linguagem (escrita) – que, na tradução, necessariamente muda – com a imagem (pictórica) – que 99% das vezes não muda.

Também traduz HQs nacionais para outras línguas? Quais já traduziu?

Fiz isso algumas vezes, mas não é o meu forte. Já traduzi para o inglês quatro HQs de autores independentes, que vão publicá-las principalmente via internet. Como ainda não foram lançadas, prefiro deixar que os autores divulguem quando acharem conveniente.

Já precisou recorrer ao autor de alguma obra para entender melhor alguma frase ou texto?

Já. Muita gente acha que isso é bastante comum, mas na verdade é raro. Por mais que eu goste de conversar com os autores, prefiro deixá-los lá tranquilos, fazendo as obras que eu gosto. As editoras também preferem resolver dúvidas de tradução internamente, em conversa do tradutor com o editor, por exemplo. Mas já tirei dúvidas com o Craig Thompson (em Retalhos), com Alison Bechdel (Você é Minha Mãe?) e o Matt Fraction (Casanova), por exemplo.

Qual mais gostou de traduzir? Pq?

Tenho uma paixão especial por Contos de lugares distantes, de Shaun Tan. É um livro de contos e não exatamente uma HQ – embora contenha umas semi-HQs e Tan seja também quadrinista. O livro é magnífico e o processo com a editora, a Cosac Naify, foi excelente.

Qual foi a mais difícil?

Todas têm suas dificuldades. Foi complicado, por exemplo, traduzir os sete volumes de Os Invisíveis porque tem muita coisa difícil de compreender na série e tive que optar por uma interpretação possível entre várias, de vários leitores/críticos. Mas, em outro sentido, Daytripper foi difícil porque eu traduzi a obra de autores brasileiros, Fábio Moon e Gabriel Bá, que poderiam avaliar perfeitamente se eu representei ou não as intenções deles. Foi uma dificuldade pela responsabilidade. Mas acabou sendo um processo tranquilo, felizmente.

Me fale um pouco sobre o evento que organizou. Pq estes eventos são importantes?

A I Jornada Traduzindo Quadrinhos foi uma aula de dois tradutores de quadrinhos que moram em Florianópolis: Mario Luiz C. Barroso e Fernando Scheibe. Eles comentaram o cotidiano de trabalho, deram exemplos de traduções complexas e buscaram explicar, principalmente para público leigo, o que há de específico na tradução de quadrinhos. Acho que um evento é interessante quando atinge algum público interessado naquele tema. Neste caso, creio que conseguimos atingir três grupos: pesquisadores de tradução, no contexto da pós-graduação onde sou aluno (PGET/UFSC) e que foi a organizadora do evento; leitores de quadrinhos, que se interessam tangencialmente ou profundamente pela tradução do que leem; e tradutores, como eu, ouvindo outros tradutores comentando sua lida diária.

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Que dicas daria pra quem gostaria de ingressar nesse universo?

Ler bastante quadrinho no idioma do qual você quer traduzir, ler bastante quadrinho no idioma para o qual quer traduzir, ler bastante coisas que não são quadrinhos no idioma do qual você quer traduzir, ler bastante coisas que não são quadrinhos no idioma para o qual quer traduzir, escrever diariamente e arrumar contatos no mercado editorial.

Você tem todas as Hqs que traduziu? 

Se não todas, quase todas.

Quais são suas HQs favoritas como leitor?

Isso muda todo dia. Pode ser uma das últimas HQs que me deixou fascinado? "Hawaii, 1997", do Sam Alden: http://gingerlandcomics.com/post/47971827740

Vc tem perspectivas diferentes ao ler uma HQ como tradutor e como leitor?

Eu costumo dizer que traduzir é fazer uma leitura privilegiada. Por estar ali como um profissional que precisa entender aquele texto para comunicar quase a mesma coisa em outro idioma, você percebe coisas que não percebe somente como um leitor casual. Isso funciona para o bem ou para o mal: você nota brilhantismos do autor, e/ou falhas. Então sim, são perspectivas diferentes, mas o tradutor é um leitor qualificado por força da profissão.

Quanto a autocrítica? Há algum trabalho que não tenha ficado satisfeito com o resultado?

Se eu for ler uma tradução, tenha entregue há uma semana ou há cinco anos, sempre vou achar problemas. Por isso não leio 🙂

Porque existem traduções diferentes da mesma HQ? É um hábito de cada editora que cada tradução não seja como outra já publicada? Já sentiu dificuldade por isso (ter a obrigação de fazer uma tradução diferente de alguma já publicada mas achar que a anterior estava mais de acordo com a versão original)?

Existem vários motivos, desde o interesse da editora em ter uma tradução diferente até a falta de arquivos da tradução anterior. A Denise Bottman, tradutora literária, defende que, se você vai traduzir uma obra que já foi traduzida, é sua obrigação ler a(s) tradução(ões) anterior(es) e fazer melhor. Não posso responder quanto ao fazer melhor, mas nos poucos casos em que tive que traduzir obras que já haviam sido traduzidas, a maioria foi de HQs que tinham sido publicadas nos anos 80 e 90, antes da internet – ou seja, o tradutor tinha poucos recursos de pesquisa – e em formatinho – ou seja, o texto era reduzido para caber na página menor. Portanto, era inevitável a tradução ser diferente. Lendo essas traduções, achei tanto soluções ótimas quanto duvidosas – e é possível que o primeiro tradutor diga isso da minha tradução. Então não vejo tanto essa possibilidade de melhorar, nem de a primeira estar mais de acordo. Mas sempre é possível fazer diferente. 

 

Recentemente você foi intérprete de grandes nomes do mundo das HQs nas jornadas internacionais de Histórias em Quadrinhos. Gostaria que contasse um pouco sobre a experiência e as principais diferenças entre a tradução simultanea que teve que fazer e a tradução das HQs. Sentiu dificuldade em algum momento?

Em todos os momentos. A interpretação, feita no calor do momento, é tensa por natureza, depende da colaboração do palestrante, da plateia, do equipamento… E não é algo que eu faço com frequência. Aliás, só fiz isso em eventos dos quais entendo do assunto. Acho bastante difícil.

Conhece muitos tradutores de HQs? Como é o mercado? É aberto e receptivo a novos tradutores ou sempre os mesmos acabam traduzindo a maior parte?

Conheço alguns, estou tentando conhecer toda a "classe". Eu não saberia dizer se é difícil de entrar, mas encontrar portas de entrada exige queimar algum fosfato. Como acontece em muitos mercados em que a correria é regra, o editorial tende a preferir um tradutor que já conhece, que sabe que entrega no prazo, a um desconhecido. Então, o tradutor/a tradutora novo/a tem que provar por que vale a pena investir nele/nela.

Na sua opinião, quais são as principais características que um tradutor de HQs precisa ter?

Diversas, mas acho que uma essencial é bom ouvido para diálogos. E ver a resposta sobre "dicas" acima.

Ainda sobre o mercado, apesar do número crescente de HQs nacionais, ainda importamos muita coisa. Vc sente um aumento na demanda de HQs estrangeiras ou o crescimento do mercado interno diminui a demanda por  obras estrangeiras?

Com certeza não vi diminuição da demanda por HQ estrangeira. Eu acho que as coisas se somam: as HQs nacionais surgem para aumentar o montante de HQ no país, não para substituir.

E a última pergunta, pode contar em que projetos está trabalhando?

Terminei recentemente o último volume de Os Invisíveis, que deve sair no primeiro semestre de 2016 pela Panini. Também estou traduzindo Patrulha do Destino, do mesmo Grant Morrison, para a mesma editora. Entreguei há pouco Lena Finkle's Magic Barrel, de Anya Ulinich, para a WMF Martins Fontes. Vou começar o novo Craig Thompson para a Quadrinhos na Cia.

Esta semana deve sair O Escultor, do Scott McCloud (que estará na CCXP), pela Marsupial. E ano que vem devem sair várias traduções que me empolgam muito: Seconds, do Bryan Lee O'Malley; Here, do Richard McGuire; Lumberjanes, de Noelle Stevenson e Grace Ellis; This One Summer, de Jillian e Mariko Tamaki; The Secret History of Wonder Woman, de Jill Lepore; Magic Words, do Lance Parkin; e uma sequência de três álbuns franco-belgas que talvez deixe uma pessoas de cabelo em pé (mas a editora ainda não deixa eu falar).

 

Érico, muito obrigada pela entrevista. Muito sucesso pra você.

Quem quiser acompanhar o trabalho dele, estes são alguns dos sites em que ele colabora.

http://www.blogdacompanhia.com.br/category/colunistas/erico-assis/

http://apilha.com.br/

http://www.ericoassis.com.br/

— Dani Marino é formada em Letras e ainda não decidiu se prefere viver no Sonhar, em Nárnia ou em Hogwarts.