A coluna de trabalhos acadêmicos do Quadro a Quadro não para de crescer, mas ainda é uma das mais miúdas do site. Nela apresentamos com muito orgulho os trabalhos de diversos pesquisadores pelo Brasil afora, que além de estudar a nona arte a fundo, ainda nos disponibilizam seus escritos para leitura integral. Para matar a curiosidade, para aprendar ou para consultar, a coluna armazena todas postagens identificando-as por título, resumo e palavras-chave. 

Mas e o processo produtivo? Quais foram as dificuldades encontradas? O que estes autores podem dizer para nos encorajar? Foi pensando nisso que procurei o Thiago, o último colega a publicar sua dissertação de mestrado no nosso blog, para conversar. O trabalho pode ser visualizado aqui:

Educação para abolição: Charges e Histórias em Quadrinhos no Segundo Reinado

 

 

Vamos as perguntas:

1)      Primeiramente, gostaria que falasse um pouco do seu contato com os quadrinhos. Sempre gostou? Que tipos de quadrinhos você lê hoje em dia?

Iniciei meu contato com os quadrinhos em 1984 quando morei pela primeira vez em Pernambuco comprando revistas em formatinho da Marvel e da DC,então publicadas pela Editora Abril.Sigo comprando gibis até hoje tendo inclusive uma coleção pessoal com cerca de 20 mil títulos, o que mais gosto de ler são os álbuns europeus de Bilal,Moebius e Manara, os nacionais do Laerte e Angeli e a revista argentina Fierro.

2)      Sobre a dissertação de mestrado, você já tinha feito algum trabalho que envolvesse quadrinhos anteriormente? Como se inspirou para escolher algo deste tipo?

Antes dessa dissertação meu trabalho de conclusão de curso de Especialização foi sobre a influência do Plano Cruzado sobre a Revista Circo.Já o meu trabalho atual sobre o Angelo Agostini veio da sensação que seria bacana ir às origens dos quadrinhos no Brasil,tentar entender como era aquela época e a influência que esse tipo de arte poderia ter naquela sociedade, aqui em particular na construção da corrente abolicionista.

3)      Quanto a escolha do tema, como chegou a escolha final?

O processo para chegar a escolha final foi longo…..Quando fui selecionado no Mestrado entrei com a certeza que queria trabalhar um tema ligado as histórias em quadrinhos,em várias conversas com meu orientador fui dando forma e substancia ao assunto até chegar a versão final,isso levou mais de um ano.

4)       Como foi propor a pesquisa a um orientador? Quais dificuldades encontrou no começo?

Foi tranquilo,meu orientador foi muito receptivo a idéia e acabou tendo grande participação nos rumos e vários detalhes da dissertação,não tivemos dificuldades.Lembro como ele ficou encantado com as belas ilustrações de Agostini e conversava comigo em como isso podia ter repercutido naquela época.

5)      Durante a pesquisa, quais foram as dificuldades para levantar dados, consultar arquivos e fazer contatos pessoais? No que você acha que o seu trabalho poderia diferir de uma pesquisa histórica ou sociológica que não fosse baseada em quadrinhos (houve maior dificuldade)?

Tive ajuda de um arquivo digital da Unicamp e do que está arquivado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, trabalhar com material do Império sempre gera dificuldade com as fontes que são na maioria das vezes pouco documentadas.Não considero que foi mais ou menos difícil, mas que deu um trabalhão deu.No fim dá uma sensação  gostosa quando tudo está pronto e organizado, como um pai orgulhoso.

6)      Tendo em vista a diferença de época que o seu trabalho aborda, mas levando em conta a “educação fora da escola”, o quanto você acredita que é importante para os jovens diversificar suas leituras, e além de livros tradicionais lerem jornais, quadrinhos, blogs de internet e ter acesso as diversas mídias disponíveis hoje em dia?

Acho que é fundamental,acredito cada vez mais nessa geração de jovens e sou animado com um fluxo quase revolucionário de informações que vem surgindo ultimamente, principalmente da internet.Junto a isso tenho a mais absoluta convicção que ler quadrinhos abre horizontes,é prazeiroso e ajuda muito nos estudos.

7)      Sinta-se a vontade para falar sobre qualquer aspecto do seu trabalho ou para deixar uma mensagem encorajadora para futuros pesquisadores!

Os quadrinhos mais e mais se credenciam e se consagram como arte e,consequentemente,cultura.Estudá-los é uma maneira de fortalecer essa modalidade artística e enxergar para além das tradicionais pesquisas acadêmicas que,na maioria das vezes,trata de mais do mesmo.Além disso escrever sobre o que curtimos e gostamos é muito bacana,bem como buscar usar como ferramenta acadêmica um hobbie que carrego desde a pré-adolescência.Os quadrinhos são as únicas coisas que estiveram comigo nos últimos 28 anos ininterruptamente, acho uma maneira bacana de prestar uma homenagem a eles também tê-los presentes na minha vida acadêmica. 

 

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.