Há um certo tempo, motivado para conhecer os bastidores da produção acadêmica voltada para quadrinhos, tivemos a oportunidade de entrevistar o Thiago Modenesi. Desta vez tempos a possibilidade de apresentar uma outra opinião, a de Fábio Paiva, que também já publicou sua dissertação na nossa coluna do Quadro a Quadro. 

A entrevista fora idealizada para acontecer em conjunto, mas por algumas impossibilidades ocorreram com uma defasagem de tempo. As perguntas são as mesmas e o objetivo é comparar o processo e as dificuldades de cada um, dentro das particularidades de seus trabalhos.

Para visualizar o trabalho do Fábio:

EDUCAÇÃO E VIOLÊNCIA NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS DE SUPER-HERÓIS – a percepção dos leitores de Batman

 

Vamos as perguntas:

1) Primeiramente pessoal, gostaria que falassem um pouco do contato com vocês com os quadrinhos. Sempre gostaram? Que tipos de quadrinhos vocês lêem hoje em dia?

Meu contato com os quadrinhos começou antes da minha alfabetização, quando lia Turma da Mônica mesmo sem saber ler. Só na adolescência que eu me interessei pelos quadrinhos juvenis e comecei a ler super-heróis. Meu irmão lia quadrinhos da Marvel (Quarteto Fantástico e X-Men) e eu peguei uns do Hulk emprestado dele. Quando comecei a trabalhar e podia pagar por uma revista mensal (com 13 anos) decidi começar a colecionar Batman (só pra mostrar que eu já era mais adulto). Coleciono Batman desde então, apesar de ter pouco tempo para dar conta das leituras. Também gosto de comprar alguns especiais e importados.

2) Sobre a dissertação de mestrado, vocês já tinham feito algum trabalho que envolvesse quadrinhos anteriormente? Como se inspiraram para escolher algo deste tipo?

Além de ser leitor eu tinha interesse em saber como as coisas poderiam ser feitas utilizando HQs. Nas conversas nerds sempre aparece algum argumento de quadrinhos, não é? Uma vez, pensando sobre o mestrado, um amigo me disse que seria legal se eu estudasse HQs, para poder usar algo peculiar em mim, que seria o interesse pelos gibis.

Já trabalhei também roteirizando material para crianças e dando oficinas de HQs.

 

3) Quanto a escolha do tema, como chegaram a escolha final?

Quis relacionar Super-Heróis e educação, mas não sabia como. Foquei nos personagens que mais gosto (Batman e Super-Homem) e fiz o projeto. A ideia era relacionar as figuras desses heróis com a figura do educador. Uma discussão teórica. Com o passar do tempo, fui convencido por meu orientador de que um trabalho de mestrado não daria conta de tal discussão. Dois anos de pesquisa não seriam suficientes para chegar a conclusões sobre o tema, especialmente fazendo isso apenas teoricamente.

Foi quando fizemos o recorte. Apenas Batman e ao invés de apenas discussões teóricas, fizemos entrevistas com leitores.

 

4) Como foi propor a pesquisa a um orientador? Quais dificuldades encontraram no começo?

Quando cheguei a UFPE o meu projeto foi bem aceito, pois envolvia Educação e uma forma de comunicação pouco trabalhada aqui no nosso Programa de Pós-Graduação em Educação. Há algum tempo que o Programa está investindo em outros olhares para a Educação, então não tive problemas, ao contrário, tive apoio do meu orientador, que apesar de ter pouco contato com HQs, ajudou muito nas questões teóricas.

 

5) Durante a pesquisa, quais foram as dificuldades para levantar dados, consultar arquivos e fazer contatos pessoais? No que vocês acham que o trabalho de vocês poderia diferir de uma pesquisa histórica ou sociológica que não fosse baseada em quadrinhos (houve maior dificuldade)?

Tive dificuldades em levantar dados e contatos, pois há poucos trabalhos educacionais que vinculam Super-Heróis e educação (um vínculo direto como o que eu fiz não existia). Parti para fontes de psicologia e história, além da comunicação. Os contatos são difíceis por que HQs no Brasil são só uma forma de se ganhar dinheiro, ainda mais quando se trata dos personagens de grandes editoras como Marvel e DC. Para ter uma ideia, passei um bom tempo tentando conseguir a tiragem e números de vendas de Batman no Brasil, uma tentativa de publicar os números mostrando que o personagem tem uma inserção grande entre os jovens, mas nunca consegui essa informação.

Acredito que meu trabalho se diferencia em sua própria essência educacional. A discussão do que é Educação e de como ela pode ser feita (também) através dos quadrinhos. Existem trabalhos sociológicos e históricos que dão conta de outras questões igualmente importantes e que, acredito tem similares dificuldades para serem realizados.

 

6) Tendo em vista as diferenças das épocas que os trabalhos de vocês abordam, mas levando em conta a “educação fora da escola”, o quanto vocês acreditam que é importante para os jovens diversificar suas leituras, e além de livros tradicionais lerem jornais, quadrinhos, blogs de internet e ter acesso as diversas mídias disponíveis hoje em dia?

Acredito e defendo no meu trabalho, que a leitura sempre contribui para outras leituras. Então não podemos fechar em um tipo e dizer que o correto é esse ou aquele. Ler livros facilita a leitura de quadrinhos e o contrário é verdadeiro também. Ler quadrinhos estimula outras leituras, de livros, de blog, e assim por diante.

A Educação é um processo grandioso e longo. Ela é feia em parte nas escolas, mas na maioria acontece pela junção de muitas coisas. Ler, brincar, jogar, conviver, fantasiar, entre tantas coisas saudáveis, fazem parte da Educação de crianças e adultos.

As HQs divertem de maneira barata e simples a mais de 100 anos. A Educação contida nesse material é comprovada e faz parte do amplo leque de possibilidades de leitura e aprendizado que estão disponíveis a maioria das pessoas hoje.

 

7) Sintam-se a vontade para falar sobre qualquer aspecto do trabalho de vocês ou para deixar uma mensagem encorajadora para futuros pesquisadores!

Batman, Asilo ArkhamUma das questões trabalhadas na pesquisa é a relação entre a Educação e a Violência, pois uma das principais perguntas feitas quando se defende a educação nas HQs de super-heróis, é a presença de violência e como ela pode interferir na formação das pessoas.

A pesquisa apontou que os leitores entendem os limites da violência, sabem da existência dela e aceitam que ficcionalmente ela é apenas um elemento de entretenimento. Ao levarem para suas vidas pessoais, as pessoas que leem quadrinhos não são violentas por terem lido quadrinhos que contém violência.

Além disso, a postura maniqueísta das HQs, que demonstra claramente o lado do bem e do mal, com o bem sempre vencendo, são confortáveis e inspiradoras para os leitores.

Essa questão é importante para demonstrar a existência de valores nas HQs e sua função de diversão que pode extrapolar sua própria natureza, assim, educando.

Gostaria de finalizar dizendo que fazer pesquisa no Brasil é muito difícil, em qualquer área, especialmente na educação. Ainda não temos tradição, nem somos um país produtor de conhecimento. Durante o desenvolvimento da minha pesquisa tive obstáculos dentro da própria instituição, desde doutrinamento ideológico (como, por exemplo, daqueles que querem que todas as pesquisas sejam marxistas) até dificuldades de financiamento.

Tratar de Educação e de HQs, para muitos, parece perda de tempo e desperdício e com isso as críticas costumam a ser pesadas.

Apesar disso tudo, estou aqui, com o mestrado concluído e pesquisando no doutorado. Tenho vários trabalhos publicados e a pesquisa ajudou a mudar algumas visões sobre questões complexas (como essa da violência que citei).

Mesmo com dificuldades, recomendo a todos que tenham vontade de estudar suas paixões e interesses, que façam sem dar bola para a torcida contra. Precisamos muito de trabalhos ousados e de novas visões científicas.

 

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.