Desfile Nazista

Imbecilidade, intolerância, crueldade e morte.

Fome, doença, ódio e arrogância.

Poder, sobretudo ele, ditando o rumo de milhões de vidas num tempo em que o mundo perdeu qualquer traço de humanidade.

A 2ª Guerra Mundial não foi apenas uma guerra, foi a mutilação de tudo aquilo que nos torna humanos.

Graças ao cinema e a filmes como A Ponte do Rio Kwai ou O Mais Longo dos Dias, crescemos com aquela soberba visão dos heroicos aliados lutando contra o mal nazista. E por aliados entendam-se os norte americanos.

Ainda nos remetendo às películas, os recentes O Resgate do Soldado Ryan, A Lista de Schindler, Além da Linha Vermelha e o excelente O Pianista nos ajudam a entender que nem todo comandante em guerra é John Wayne e que nem todo alemão é um nazista cruel e desumano.

Mas o cinema precisou de mais de meio século para alcançar maturidade suficiente para apresentar tais roteiros, histórias despidas da hipocrisia que nos fazia enxergar o holocausto, mas não a covardia de uma arma nunca antes vista na história da humanidade, lançada contra milhares de civis indefesos em Hiroshima e Nagasaki. A mesma hipocrisia que nos enoja com os experimentos conduzidos por médicos alemães, mas nos fecha os olhos para o questionável e omisso comportamento de Eugênio Pacelli – o Papa Pio XII.

Nos quadrinhos não foi diferente.

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Do Capitão América e seus similares aos gibis nacionais que povoavam as bancas das décadas de 50 e 60, o comportamento heroico das forças aliadas era sempre enaltecido e a vilania dos nazistas execrada. De um maniqueísmo quase infantil, os nazistas sempre perdiam. Se a Guerra de verdade tivesse acontecido como nas páginas daqueles gibis, teria durado 20 dias. Mas não durou.

Os alemães desenvolveram uma força bélica surpreendente e mortal e dobrou os joelhos do mundo. Foram necessários anos até que a balança das forças começasse a se equilibrar. Governantes caíram e o mapa mundial foi redefinido à custa de milhões de vidas inocentes.

Nenhum escudo de aço indestrutível, com a bandeira norte americana pintada, protegeu a cabeça da jovem judia. Nenhuma amazona resgatou qualquer um dos homossexuais ou deficientes físicos condenados sumariamente à morte. Décadas se passaram até que gibis como Maus ou A Guerra de Alan fossem produzidos.

No Brasil, ainda que o gênero tenha comportado gênios como Rodolfo Zalla, a situação não era muito diferente.

Os motivos políticos foram deixados de lado nos quadrinhos, algo bastante apropriado para um governo que lançou ao esquecimento as tropas brasileiras que atuaram no conflito. É verdade que o público alvo era outro, naquela época composto em sua maioria por jovens guris. O mercado também não estava interessado em quadrinhos adultos, sobretudo os políticos.

Mas assim como no mundo, no Brasil (embora em menor escala), com uma pitada mais séria aqui, um pouco de humor ali, o tema voltou a ser abordado após décadas de esquecimento.

O recente aquecimento de um mercado adulto de quadrinhos nacionais permitiu que chegasse a público no ano passado o excelente Jambocks, de Celso Menezes e Felipe Massafera, que conta justamente a Campanha da Força Expedicionária Brasileira no palco de operações italiano.

E agora a Conrad acerta em cheio com Guerra: 1939 – 1945 de Julius Ckvalheiyro (Conrad Editora – R$ 30,00).

 

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Guerra é, em todos os sentidos, um gibi excepcional.

A opção estética do autor surpreende pela maturidade e correção histórica. Ao invés de produzir histórias de guerra como antigamente, contando a óbvia visão dos vencedores, Ckvalheiyro optou por contar a guerra dos vencidos e dos vencedores, do herói e do canalha, do crente e do cético. O resultado emociona pela sinceridade e por mostrar a exata medida de toda aquela imbecilidade.

Os capítulos foram divididos de acordo com os anos em que ocorreram. Pesquisador aplicado, cada capítulo é habilmente contextualizado pelo autor, nos situando no momento histórico e político dentro da guerra, tornando a leitura dos quadrinhos que se seguirão muito mais proveitosa e prazerosa. E isso num texto ágil e incisivo, sem firulas, sem valores de juízo, mas também sem o ranço didático tão comum nesse tipo de expediente.

A leitura dos textos introdutórios consegue a proeza de nos fazer passear pela guerra e entender suas motivações políticas, nos mostrando uma face do conflito que comumente não é abordado no ensino fundamental. Os textos, quando aliados às histórias que os ilustram, fazem o gibi ir além: trazem o leitor para dentro da guerra. Algo nada desprezível nesses tempos em que o Ministério da Educação finalmente começa a perceber o poder de infiltração e absorção dos quadrinhos em salas de aula.

Mas é na narrativa gráfica que Ckvalheiyro mostra a que veio. As histórias – curtas, não mais de que um punhado de páginas cada – surpreendem pela beleza e emoção. Num traço realista, obtido através do estudo e utilização de fotos do conflito, em preto e branco, produz um resultado plasticamente desnorteante e é responsável por páginas belíssimas. Entretanto, a utilização de alguns efeitos às vezes confunde um leitor menos treinado, dificultando a localização dos elementos gráficos na página. Felizmente, essa falha é observada em apenas meia dúzia de quadros e não prejudica em nada o entendimento geral das histórias.

O passeio pela guerra continua também na estrutura narrativa: as 03 primeiras histórias apresentam os grandes vilões do conflito. Um nazista cruel mas não caricato, como estamos acostumados, já nos dá o tom, logo nas primeiras páginas, do que veremos em todo o restante do álbum. Um piloto nazista extremamente lúcido de seu dever nos mostra um outro tipo de guerra, um outro tipo de soldado, em contraponto ao combatente da primeira história. Um recurso genial para dimensionar exatamente o que era crueldade e o que era dever. E por fim um piloto de um caça japonês, que em apenas 08 páginas nos mostra um resumo de milênios de anos de cultura oriental, personificados num único homem.

Em seguida somos apresentados a um dos grandes heróis da guerra, que a história ocidental fez questão de colocar em segundo plano por conta da “ameaça” que representou ao mundo nos anos posteriores ao conflito: a União Soviética.

E o autor faz questão de mostrar que o papel dela não só não foi pequeno como também fundamental para a vitória das forças aliadas.

E então os judeus.

E aí não há palavras suficientes para justificar o tamanho da crueldade cometida naqueles anos. Algo que o mundo não pode esquecer.

Apresentar o holocausto é a obrigação mínima de cada um dos artistas que se aventurem por essa seara. O alerta continua válido, principalmente com a recente escalada de forças nacionalistas na Europa, onde alguns grupos, inclusive, tentam disseminar a ideia de que o massacre sistemático de judeus durante o confronto não passa de uma “invenção” histórica.

O alerta também continua válido para o povo judeu, que esquecendo o mal que sofreu, se comporta de forma perigosamente semelhante – com a inexplicável conivência das grandes nações – em relação ao povo palestino, isolando-os (geograficamente e socialmente) e os condenando à fome, miséria e morte.

E por fim os americanos, numa macabra simetria com as duas primeiras histórias do álbum. Um toque de sutileza do autor para mostrar que a grande vitória americana também foi uma grande derrota – em todos os sentidos.

Uma única falta é sentida: não há qualquer menção a Campanha da FEB na Itália. Uma história sobre a participação brasileira no conflito – que também não foi desprezível, sobretudo para o avanço das forças aliadas por aquela porta de entrada no velho continente – teria tornado o gibi perfeito (sobretudo para fins didáticos). Fica a sugestão para um provável segundo volume.

Não há uma única história ruim, mas três merecem destaque e habilitam o álbum a ser uma das melhores publicações do ano: o piloto japonês, o soldado russo e a nova arma americana.

Não são histórias de guerra, são poesias gráficas sobre o ser humano, seus valores, sua beleza e o tamanho de sua crueldade.

Ckvalheiyro conseguiu com isso produzir um gibi belíssimo sobre a maior tragédia da história da humanidade, de forma séria, didática e – principalmente – estética e artisticamente impecável.

Não é pouca coisa.

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.