Reunidas pela primeira vez num álbum de luxo, e restauradas digitalmente a partir dos originais do autor, todas as tiras, desenhos e histórias da mais desbocada — e amada — personagem dos quadrinhos brasileiros

 

É comum a criatura se voltar contra o criador. Aconteceu com Frankenstein e seu monstro, com Sid Vicious e os Sex Pistols. Quando a situação sai de controle, o embate é sempre épico.

Mas e quando a criatura é a própria definição do descontrole? Do desgoverno emocional, etílico e sexual? Um ser com nenhum respeito pelas noções mais básicas de civilidade, que só quer passar o dia inteiro na banheira, com um copo de vodca e alguns cinzeiros transbordantes?

Nesse caso, só restou ao criador matar a criatura. Todavia, não foi um crime fácil. Mais de dez anos após o tenebroso assassinato, Angeli, um dos principais nomes do quadrinho brasileiro, ainda é cobrado por fãs por ter, literalmente, apagado Rê Bordosa.

Para sorte dos leitores, a vida desta desbocada e exuberante criatura foi longa (mas nunca diga isso a ela). Surgida nas páginas da Folha de S.Paulo em 1984, Rê Bordosa extrapolou sua própria tira e tornou-se uma das mais conhecidas personagens da HQ nacional.

Dotada de um humor ácido e de um cinismo incontornável, Rê Bordosa viveu porres homéricos, ressacas épicas e amores tão duradouros quanto uma tira de jornal. Outros personagens de Angeli, como Bibelô, Meia Oito, Wood & Stock, passaram por sua vida (e sua cama). E ela acompanhou, alheia, as mudanças sociais e políticas dos anos 80 e 90.

Reunidas pela primeira vez num álbum de luxo, e restauradas digitalmente a partir dos originais do autor, as tiras desse Toda Rê Bordosa (formato 19,50 x 26,50 cm, 216 páginas, R$ 64,00) trazem de volta à vida a musa do quadrinho brasileiro. Quem conhece apenas o mito terá acesso a todas as tiras, histórias longas, rabiscos e ameaças tramadas por Angeli contra sua criatura. E quem nunca se esqueceu dela pode ir encostando no balcão. A casa é sua, como ela disse tantas vezes.

 

Angeli nasceu em 1956, em São Paulo, cidade onde vive. Publicou seu primeiro desenho aos quinze anos, na revista Senhor, e é chargista de política da Folha de S.Paulo desde a década de 70. Em sua tira diária, publicada no mesmo jornal, e na lendária revista Chiclete com banana, criou personagens célebres como Rê Bordosa, Bob Cuspe, Wood & Stock, os Skrotinhos e Benevides Paixão. Ao lado dos cartunistas Laerte e Glauco, participou da série Los três amigos. Seus trabalhos foram publicados na Alemanha, Itália, França, Espanha, Argentina e Portugal.

Twitter oficial: @angeli_

Site oficial do autor: http://www2.uol.com.br/angeli/

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Trechos da única entrevista feita com Rê Bordosa, em 1985.  por Benevides Paixão
 

Benevides Paixão: Como foi que começou a sua vida de delírios, porres homéricos e carreiras quilométricas?

Rê Bordosa: Eu fui muito presa, sabe?!… Meus pais eram fodinhas, mas um dia esqueceram a porta de casa aberta… saí de lá direto para um bar. No caminho, fui perdendo minha virgindade, minha vergonha, calcinha, sutiã…
 

BP: Como foi perder sua virgindade? Doeu?

RB: Só na hora que entrou. Na hora que saiu foi gostoso.
 

BP: E as mulheres de hoje, como você está vendo?

RB: Meu negócio é homem. As mulheres que passaram por esta banheira foram por
puro erro de cálculo.

 

BP: Erro de cálculo? Como é isso?

RB: É quando saio à procura de um pênis e acabo encontrando um tênis. Nunca fui chegada em roçar no couro de jararaca e toda vez que aconteceu foi desvio de verbas. Na falta de um coturno do exército a gente usa havaiana. Não tem cheiro e nem solta as tiras.
 

BP: Quantos erros de cálculo você comete por noite?

RB: Só sei contar até a quinta dose. Depois, só Deus sabe!
 

BP: Ué? Você acredita em Deus?

RB: Até a décima dose.
 

BP: Sua vida é um mar de prazeres, sexo, drogas, festas, aventuras… Isso é o paraíso?

RB: Paraíso? Meu chapa… isso é o inferno. Já disse mil vezes que não nasci para ser a cura e sim a doença.
 

BP: Como você se define? Uma mulher liberada, moderna…

RB: Sou uma barata que resiste a todos os inseticidas.

 

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...