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 ► Por Natália Bezerra*

 

 

 

 

Longo Dia das Bruxas 2Admito logo, sem mais enrolações, que minhas experiências com quadrinhos se resumiam a leituras esporádicas de pequenos gibis da Turma da Mônica, em especial aqueles dedicados à dentucinha de vermelho com o coelho mais resistente da história, personagem com a qual sempre me identifiquei. No entanto, nessas voltas que o mundo dá, o meu interesse pelas temáticas heróicas cresceu, mesmo nunca ultrapassando a barreira do “eu não sei o suficiente sobre isso para me embrenhar nesse mundo de quadrados”.

Ainda girando pelo espaço, o mundo me surpreendeu com um presente em forma de volume, chamado O Longo Dia das Bruxas, por Jeph Loeb e Tim Sale, que narram uma história tensa e de traços sombrios, compondo uma das muitas aventuras do morcego mais adorado da atualidade, o Batman. Confesso que sempre curti muito a premissa do Morcegão – afinal de contas, quem não gosta do Batman? -, mas nunca pensei no personagem e no contexto Gotham City como grandes narrativas complexas e elaboradas, mantendo na mente uma imagem bem preconceituosa de superficialidade, pairando sobre todo e qualquer quadrinho do gênero.

Veja, leitora em prosa que sou, entendia – e continuo com esse pensamento, de alguma forma, mas em menor grau – que somente o texto corrido seria capaz de transmitir toda a informação que meu cérebro imaginativo necessitaria para me inserir no mundo aberto em folhas diante de mim, de sorte que sinto o fluxo narrativo sendo muito mais sutil num texto não-aquadrinhado (me deixe com meus neologismos!) do que dentro das caixinhas. Minha impressão é que os quadros ditam um ritmo de leitura pouco natural para mim, de modo que tudo acontece numa piscada de olhos e muitas vezes o retorno ao quadro anterior é exigido por um pensamento de “que diabos aconteceu aqui?”. A narrativa dos comportamentos dos personagens não existe, exatamente porque tudo já está bem mastigado e exposto diante dos olhos, em forma de arte gráfica, seja numa cena na qual o Coringa reencarna o Grinch e rouba o Natal, seja no ataque furioso de ciúmes felinos da Mulher Gato e seu estapeamento com a (gatíssima, diga-se de passagem e com o perdão do trocadilho) Hera Venenosa.

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Mesmo apreciando todo o cenário envolvente das ilustrações bem elaboradas, meu instinto de leitora do mundo além-quadrinhos grita “cadê o espaço para minha imaginação?!”, e muitas vezes me sinto limitada pela concepção do ilustrador acerca de como uma determinada cena deveria se dar. Você perguntaria se não acontece o mesmo com os filmes, e apontaria que, mesmo assim, as salas de cinema continuam lotadas. Não, não é o mesmo. Num longa cinematográfico, você é bombardeado por conteúdo e imagens sem o menor tempo para pensar acerca do que vê, sendo que é muito comum aquela reunião com os amigos, pós-filme, para comentar desse ou daquele outro fator. Já nos quadrinhos, assim como numa leitura em prosa corrida, o leitor tem todo o tempo do mundo para absorver a informação e refletir sobre aquilo, resguardadas as diferenças entre essas duas modalidades de leitura; nos quadrinhos, o movimento imaginativo é limitado pelas imagens que já estão ali, e os personagens já existem como indivíduos completos, independentemente da minha capacidade de dar vida a eles.

Longe de mim julgar negativamente a lógica dos quadrinhos! Mas é preciso compreender que é uma dinâmica de leitura completamente diferente, com a qual o leitor tem que se acostumar e ajustar seu ritmo de evolução na narrativa a depender do que está lendo, especialmente aqueles leitores acomodados, como eu.

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De volta ao Master Wayne, diria que esse foi meu primeiro compromisso sério com quadrinhos, e acompanhar o desenrolar de aproximadamente um ano de assassinatos, lado a lado com os vilões que povoaram muito da infância de praticamente todos os humanos que não viveram debaixo de uma pedra, foi um excelente pontapé inicial. Felizmente, me permiti descobrir que os elementos que prezo dentro de uma boa história policial – porque, venhamos e convenhamos, o Batman é, antes de tudo, detetive – continuam presentes, ainda que em um formato novo para mim.

Assim, a manutenção do suspense, da agonia, da surpresa ao seguir para o próximo quadro, e o próximo, e o próximo, da necessidade de saber o que vem lá, me fazem ter certeza de que vale a pena recomeçar a aprender a ler, dessa vez, quadro a quadro. E que venham os próximos!

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...