4154483_origApós um longo tempo sem postar regularmente, graças a dificuldades com o WordPress (na verdade vocês verão que as dificuldades continuam), graças a migração de nosso servidor e graças a outras interferências. E para falar de outra coisa que a muito tempo eu não fazia: Uma ideia tão potente, tão potente, me fez comprar um gibi e fazer propaganda boca-a-boca do mesmo. Sempre costumo comentar sobre os gibis que gosto de maneira sugestiva: você já leu tal história? Conhece tal artista? Mas quando chego logo contando a ideia da HQ, perguntando se estou dislumbrado ou se é realmente boa, bem, aí estou convidando um amigo a comprar o mesma revista com ainda mais força. E o que te faz comprar uma HQ autoral? 

Capa, arte, sinopse ou histórico dos autores? Em um festival como o FIQ, cheio de trabalhos independentes com edição, acabamento e tratamento cada vez melhores, muita coisa fica pra trás. A cada dia de festival aparecem mais oportunidades e se torna mais difícil decidir o que realmente vale a pena levar, de forma a ocupar mais um pequeno espaço na seu grande "extrapolamento". Por que isso é tão comum que extrapolação de orçamento é muito comprido e necessita de um neologismo, pelo menos durante o mês de novembro.

Passeando pelo FIQ 2013, lá pelo penúltimo dia, resolvi bater um papo com o André Alonso do projeto Egum, bem sucedido no Catarse meses antes. O trabalho já havia me convencido a primeira vista, mas a quantidade de detalhes complexos que o André me mostrou fez com que eu ficasse ainda mais ansioso e entusiasmado com aquilo tudo. Aí ele comentou que alguns apoiadores tinham direito a uma HQ extra, que já estava pronta e que ele (e sua equipe) haviam feito como forma de aprendizado para melhor produzir a Egum. Infelizmente eu não havia comprado a cota que me dava esse direito, e até então não estava propenso a gastar R$15 por causa do maldito extrapolamento, que a essa altura de festival tendia a escalpelamento.

5146957_origEntão André começou a falar sobre a tal HQ, de nome Tirânica. E aí vieram critérios que me faz comprar uma obra autoral acima de tudo: a ideia, o argumento, o plot. Baseada nas revoltas acontecidas em vários lugares do mundo durante 2013, Tirânica conta a história de um lugar fictício onde apenas os governantes tem voz. Literalmente. O povo se comunica apenas pro sinais vitais. Genial. 

Em meados de Julho, se pudesse apostar, diria que no FIQ haveriam ao menos três HQ`s diferentes sobre os protestos que ocorreram no Brasil. Só vi Tirânica, mas para mim, tá mais do que suficiente. O real brilho da história vem com o diálogo entre um dos governantes e alguns membros do povo. Um com balões cheios de promessas, justificativas e ameaças, e outros com sinais vitais, e mesmo assim a conversa acontece. Interessante é notar que cada leitor há de trocar estes sinais vitais por suas próprias indignações, suas percepções e suas opniões advindas das reflexões pós revoltas de Junho. Estamos livres para escrever nossos balões nesta revista! Um conceito extremamente criativo e bem executado. Taí um baita motivo para comprar e contar pros amigos.

Mas tão surpreendente quanto esta proposta é o fato de que, assim como eu, nenhum dos meus amigos havia notado essa revista. Seja por seus próprios critérios ou seja pelo extrapolamento, para eles esta HQ também passaria em branco se não fosse eu ter comentado a ideia, e o André ter me contado. Uma pena, potencial a revista tem para muito mais.

No fim, vale lembrar que Tirânca é ainda um experimento, o que justifica a narrativa um pouco apressada e o tema pouco explorado perante tamanha grandiosidade de argumento. Mas os artistas André Alonso, Matheus Santana, Silvio DB, Anderson Cabral e Giovana Leandro fizeram um grande trabalho, o que nos deixa uma expectativa enorme para Egum, e para o que vier depois. Vamos apoiá-los, Tirânica é só o começo.

 

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.