Semanalmente sou desafiado pela página em branco do editor de texto, que olha pra mim sorrindo sarcasticamente como quem diz “preenche-me ou te devoro”. O sarcasmo parece ainda mais evidente quando pretendo preenchê-la falando sobre uma obra cuja introdução foi feita por ninguém menos que Neil Gaiman.

Eis o desafio que esta esfinge sem corpo me lança esta semana, falar sobre The Umbrella Academy: Dallas mesmo depois de Neil Gaiman ter escrito a introdução da edição encadernada. Então, para tentar não ser devorado, vamos lá.

Primeiro preciso confessar que conheci The Umbrella Academy no rastro do oba-oba que foi ter a arte do brasileiro Gabriel Bá reconhecida e premiada fora do Brasil. Os roteiros eram de Gerard Way, norte-americano vocalista da banda My Chemical Romance – que, entre outras coisas, regravou a música Desolation Row (de Bob Dylan) para a trilha sonora do filme Watchmen.

Era tanto elogio, tanta recomendação, tantas frases de efeito sobre The Umbrella Academy que saí à cata de mais informação e acabei esbarrando com algumas coisas disponíveis na Internet – e gostei muito. Aí, em 2009, a Devir resolveu publicar no Brasil o arco Suíte do Apocalipse da “Academia Guarda-Chuva” e lá fui eu conhecer melhor o material.

Suíte do Apocalipse tinha um posfácio onde Gabriel Bá explicava que super-heróis não eram sua praia e que ele foi aprendendo a desenhar “este tipo de coisa” enquanto produzia a história. O resultado final? Uma história que me remeteu aos melhores momentos da série LOST – seja pelos ganchos deixados no roteiro, seja pela arte dinâmica de Bá ou, ainda, pelo final que deixou aquele gostinho de quero mais, muito mais.

Pronto. A família disfuncional composta pelos 7 filhos adotivos do finado Sir Hargreaves, e mais alguns agregados bem interessantes (como um macaco que pilota foguetes e uma mãe-robô), havia me cativado! Seus poderes estranhos (ou a falta deles), seus conflitos e a sua tentativa insana de salvar o mundo agora era em parte minha vida também.

The Umbrella Academy: Dallas começa exatamente no ponto onde Suíte do Apocalipse termina, com a academia destruída, a família fragmentada e alguns de seus membros tendo que aprender a conviver com as graves seqüelas resultantes de sua bem sucedida tentativa de salvar o mundo. E seu eu simplesmente disser que achei este segundo número ainda melhor que o primeiro não estaria sendo completamente transparente.

A arte do Bá está ainda melhor que a do primeiro volume e acredito que ele realmente está evoluindo junto com a história, mas a questão é que o roteiro mexe com um assunto que me agrada muitíssimo: viagens no tempo e seus paradoxos. Daí, dizer que achei este segundo volume melhor que o primeiro sem citar este pequeno detalhe seria insincero de minha parte – afinal de contas não é muito difícil eu gostar deste tipo de história.

Em Dallas descobrimos o que aconteceu com o número 5 em suas viagens temporais (citadas em Suíte do Apocalipse como preparação para este arco) e descobrimos como um homem de seus trinta e tantos anos ficou aprisionado no corpo de um menino de 12 anos (ele mesmo mais novo). Também tomamos conhecimento do que aconteceria com o mundo se John F. Kennedy não tivesse sido assassinado e de quebra somos apresentados à Temps Aeternalis, uma agência que busca manter a consistência do continuum espaço-tempo.

Boa parte da história gira em torno da busca dos irmãos pelo número 5, pelo menos os que não estão com seqüelas mentais devido à batalha para salvar o mundo. Para encontrar 5, alguns dos irmãos terão que enfrentar dois cruéis agentes da Tempis Aeternalis: Hazel e Cha-Cha. Tá achando os nomes engraçados? Espera até ver o que estas duas aberrações são capazes de fazer quando estão chapados de açúcar.

Enquanto parte da família enfrenta a Tempis, número 5 e sua irmã Rumor (número 3) precisam terminar para a agência um serviço que número 5 deixou pela metade: o assassinato de JFK! E entre a introdução do já citado Neil Gaiman e o posfácio de Gabriel Bá pode esperar seqüências cinematográficas; flashbacks esclarecedores; a crueldade sem limites de Harzel e Cha-Cha; uma passagem pelo Vietnã (temos viagens no tempo, lembra?); a sagacidade e extrema violência de número 5, que pode transformar um ato simples como comer um peixe em algo hediondo; a participação especialíssima de Deus; e ao final aquele gostinho de quero mais, muito mais.

O encadernado da Devir está muito bem acabado e conta com especiais bem interessantes. O primeiro é a história “Qualquer Lugar Longe daqui”, que mostra um acontecimento da adolescência dos irmãos Kraken (número dois) e Vanya (número sete) – fechando um gancho aberto em Suíte do Apocalipse. O outro especial são os estudos para diversos elementos de Dallas, um presentão pra quem é como eu e gosta de conhecer o processo que levou à criação de um bom gibi.

O único ponto fraco que posso destacar em The Umbrella Academy: Dallas é que para acompanhar adequadamente este arco é necessário ter lido Suíte do Apocalipse. Mas diante da qualidade do trabalho de Gabriel Bá e Gerard Way isso chega a ser uma virtude.

— Sergio Barretto teve um passado nebuloso sobre o qual nunca fala. Ninguém sabe ao certo o que ele fazia, mas alguns indícios de ações secretas e aterradoras já desestimularam muita agente a continuar investigando. Hoje é um homem sério, cumpridor de seus deveres e apaixonado por histórias em quadrinhos desde que se entende por gente, e a cada ano faz mais tempo que ele se entende por gente. Faz parte do Quadro a Quadro desde sua criação e costuma ser gente boa, mas as vezes passa a impressão de que seu passado sombrio pode retornar a qualquer momento, pondo a todos em perigo.