COMER TATU É BOM, QUE PENA QUE DÁ DOR NAS COSTAS

Por força do meu trabalho preciso ministrar palestras sobre os riscos da Internet e dia desses uma das participantes citou, indignada, a situação que passou ao tentar ajudar um sobrinho com uma pesquisa do colégio. Estava pesquisando no Google alguma coisa sobre “o sexo dos animais” (palavras dela) e deparou-se com diversos sites de bestialismo.

Perguntei a ela quais foram as palavras utilizadas na pesquisa e ela respondeu “sexo” e “animais”. Repeti a pesquisa com as mesmas palavras e o resultado (confira aqui) foi realmente espantoso. Ao mudar as palavras chaves para “reprodução” e “animais” os resultados foram bem diferentes – e bem mais próximos do que o sobrinho estava procurando (confira aqui).

O ponto aqui não é emitir juízo de valor sobre as fantasias alheias, sobre a quantidade de material obsceno na Internet ou sobre as melhores palavras chave para buscas no Google, a idéia é destacar a necessidade de um adulto intermediar ativamente o contato de uma criança com as fontes de informação disponíveis. Essa tia estava acompanhando a pesquisa do sobrinho, avaliando criticamente os resultados e julgando a adequação dos mesmos às suas necessidades – como tem que ser.

É POR ISSO QUE EU PREFIRO AS CABRITAS

Já citei em outro post que as duas únicas revistas de super-herói que eu acompanho regularmente são os títulos do homem-morcego. Em um deles, A Sombra do Batman número 4, foi publicada a segunda parte do arco A Gata e a Morcega, que narra a disputa entre a Batgirl e Mulher-Gato por um bloquinho com notas secretas do comissário Gordon.

Em determinado momento a Mullher-Gato tenta escapar da perseguição da Batgirl refugiando-se no Clube Hedonista de Gotham City, onde para entrar a única obrigação é não estar trajando roupa alguma (máscaras são liberadas). Isso mesmo, para entrar é preciso ficar completamente nu, peladão, descascado!

Se isso não representa qualquer tipo de problema para a Mulher-Gato, para a Batgirl significa abrir mão de pudores fortemente arraigados em sua personalidade – uma enorme barreira a ser superada se ela deseja realmente recuperar o bloquinho roubado. É uma daquelas situações que ajudam a definir um personagem.

A sequência no Clube Hedonista, desde a constatação da Batgirl de que vai ter que tirar a roupa para continuar a perseguição até sua fuga do clube com o bloquinho nas mãos, é muito engraçada e habilmente desenhada por Kevin Maguire. Em momento algum é exibido mais do que seria possível ver em qualquer praia ou piscina, pois tem sempre algo ou alguém cobrindo as partes pudendas dos personagens (inclusive nas cenas de luta!). Algumas poses e expressões denotam languidez, todos estão nus e agem de forma, digamos, “não ortodoxa”.

No número seguinte de A Sombra do Batman, o arco A Gata e a Morcega foi concluído e a editora Panini emitiu uma nota sobre a polêmica que esta história causou quando foi publicada nos Estados Unidos. Como fiquei curioso pra conhecer os detalhes do imbróglio, mergulhei na Internet.

O que aconteceu na terra do Tio Sam foi o seguinte: em visita à biblioteca de sua cidade, uma mãe estadunidense adquiriu para seu filho de doze anos o número 18 da revista Batman Confidential, justamente a edição que traz a história no Clube Hedonista. Ao notar que o filho estava rindo demais de uma das páginas do gibi, foi verificar do que se tratava e constatou que era uma história pornográfica!

Apesar de se considerarem liberais, os pais da criança concordaram que aquele tipo de história era inadequada para seu filho e acharam absurdo que uma coisa daquelas fosse publicada em uma revista do Batman (afinal, quadrinho é coisa de criança).

IMAGINEM SÓ COMO É O SEXO DOS ELEFANTES

Os pais formalizaram uma queixa na biblioteca, que se desculpou, garantiu que seria mais rigorosa na classificação do material posto a venda e se ofereceu para ressarcir o valor pago pela revista. A DC Comics foi interpelada e respondeu o seguinte: “Batman Confidential é uma publicação para leitores com 16 anos ou mais, revistas infantis vêm com identificação apropriada em sua capa”. Já os pais do jovem que leu a história declararam que se a revista continha material “potencialmente ofensivo” isto deveria ser claramente informado na capa.

Em situações como estas eu costumava aceitar o argumento da desatenção dos pais em relação ao conteúdo a que seus filhos têm acesso – especialmente em um tempo onde os pais trabalham cada vez mais e participam da vida de seus filhos cada vez menos. Mas a gente vira pai e começa a enxergar as coisas sob outra ótica, mesmo que para isso tenha que passar por algumas saias justas.

Por exemplo, quando minha enteada estava com uns 11 anos assistíamos TV em uma bela tarde de sábado e no intervalo comercial foi exibida uma chamada para o filme da noite. Nesta chamada um personagem dizia “… por favor, não me mate!”, e o outro “me dê um motivo pra não te matar”, e o primeiro “eu tenho ejaculação precoce”. Claro que ela perguntou o que era ejaculação precoce.

Tive que explicar o que era ejaculação precoce da forma mais natural possível e em linguagem que ela entendesse, construindo em alguns segundos a explicação sobre um tema “potencialmente ofensivo”. Depois disso comecei a prestar mais atenção nas chamadas dos intervalos da programação da tarde e percebi o seguinte: violência, diálogos de natureza sexual, terror e toda sorte de situações “potencialmente ofensivas” (e por isso mesmo exibida à noite) eram utilizadas nas chamadas destes filmes. Isso no horário em que os petizes se divertiam assistindo Meu Querido Pônei, Barbie no Lago dos Cisnes ou a refilmagem de Se Meu Fusca Falase.

Por tudo isso, fiquei mais curioso com a questão da revista do Batman e saí à cata de maiores detalhes sobre o assunto. Alguns sites (confira aqui) dão conta que a DC não identifica de forma tão clara o conteúdo de suas revistas. Foi constatado que ela coloca um pequeno selo do Comics Code Authority na capa das revistas voltadas ao público infantil, enquanto que na capa da Batman Confidential não foi encontrada nenhuma indicação visível. Infelizmente o tal selinho (um dia falamos sobre ele) deve significar pouco, ou nada, para os pais nascidos a partir da década de 70.

O HOMEM É CORNO E CRUEL

A maior concorrente da DC, a Marvel Comics, utiliza seu próprio sistema de classificação nas capas de suas revistas: conteúdo para todas as idades (ALL AGES), 9 anos ou mais (A), adolescentes (T+), adolescentes mais velhos (PARENTAL ADVISORY) e conteúdo adulto (MAX). Se a DC não quisesse copiar o sistema de classificação de sua principal rival também poderia utilizar o MPAA Film Rating (utilizado para classificar os filmes produzidos nos Estados Unidos).

Não lembro ter visto qualquer tipo de classificação etária nas revistas da DC publicadas no Brasil. Nas da Marvel a (infelizmente) extinta Marvel Max trazia um aviso “somente para leitores adultos”, mas não posso afirmar se atualmente os demais títulos possuem alguma indicação. Ou seja, a maioria dos pais brasileiros ainda acredita que gibi é coisa de criança e não tem qualquer referência para orientar as compras de seus pimpolhos.

Acredito que, já que chegamos ao ponto em que gibi não é mais coisa (só) de criança, será necessário criar um sistema que auxilie pais e responsáveis a identificar facilmente o conteúdo das revistas. Mas atenção! Sou veementemente contra qualquer tipo de censura e estou falando de classificação etária, coisa que já se faz no cinema. Coisa que meus amigos fazem quando me consultam sobre que gibis seriam mais adequados pra seus filhos.

Mesmo sabendo que qualquer classificação pode falhar, como costuma acontecer no cinema, acho que é melhor ter algum sistema do que nenhum. Ou do que ter que utilizar o (graças a Deus) defunto selo do Comics Code Authority como referência.

Qualquer sistema de classificação de conteúdo que venha a ser criado no Brasil deve ser precedido de um amplo debate com a sociedade e com os produtores da nona arte nacionais, especialmente no que diz respeito aos critérios de classificação e à forma de utilização desta classificação. É sempre bom lembrar que nossa cultura é bem diferente da estadunidense e que o que eles consideram inadequado por lá pode ser bem diferente do que é considerado impróprio por aqui.

As diferenças culturais são tantas que duvido muito que uma banda como Mamonas Assassinas, cujos versos ilustram ricamente os subtítulos deste post, fizesse sucesso entre as crianças estadunidenses como fez entre as nossas. Talvez letras "inocentes" como as de Mundo AnimalRobocop GayVira-Vira e Bois Don’t Cry fossem consideradas “potencialmente ofensivas” em terras norte-americanas.

— Sergio Barretto teve um passado nebuloso sobre o qual nunca fala. Ninguém sabe ao certo o que ele fazia, mas alguns indícios de ações secretas e aterradoras já desestimularam muita agente a continuar investigando. Hoje é um homem sério, cumpridor de seus deveres e apaixonado por histórias em quadrinhos desde que se entende por gente, e a cada ano faz mais tempo que ele se entende por gente. Faz parte do Quadro a Quadro desde sua criação e costuma ser gente boa, mas as vezes passa a impressão de que seu passado sombrio pode retornar a qualquer momento, pondo a todos em perigo.