Anúncio da Radionovela O Besouro VerdeA memória, esta incrível capacidade de adquirir, reter e recuperar informações, é uma traidora. Além de se focar em coisas específicas (nem sempre as que gostaríamos, ou precisaríamos), essa enganadora deteriora-se com a idade! Pior, ela costuma interagir com outros processos mentais, como a imaginação, e misturar o que foi com o que gostaríamos que tivesse sido – essa traiçoeira.

Talvez por isso o passado que lembramos seja mais brilhante e interessante do que realmente foi – em alguns casos, mais sombrio e amedrontador. Por exemplo, certa vez, já homem feito, resolvi dar uma passada na rua onde vivi um bom pedaço de minha infância e achei tudo muito estranho. A sensação de estranheza não veio pelas mudanças, pois tinham sido poucas, mas pelo tamanho das casas, edifícios e ruas nas quais eu vivia correndo. Na minha recordação era tudo mais largo, alto e maior do que eu estava vendo.

Essas distorções também são vivenciadas pelos que, adultos feitos, assistem a filmes ou séries de sua infância. E as reações são diversas: tem uns que preferem não mais ter contato com esses artefatos da juventude para não conspurcar suas recordações; outros acabam curtindo um monte ver a “velharia” de antigamente – eu sou um deles. Agora posso falar sobre o Besouro verde.

Entre meados da década de 70 e 80 do século XX eu conheci um herói que se passava por bandido, andava em um carrão com nome estiloso (Beleza Negra), utilizava umas armas diferentonas (pistola de gás ou “raio besouro”) e tinha um assistente invocado que lutava kung fu. Pelo que me lembro, mas não confie muito, a primeira aparição do Besouro Verde na minha vida aconteceu em um episódio do Batman. Depois disso ele ganhou série própria com episódios repetidos à exaustão – pelo menos é como eu me lembro.

Em 2011 a Sony Pictures resolveu trazer o Besouro para os tempos modernos fazendo um filme com o personagem, e mais uma vez vivi o conflito entre o que eu lembrava e o que eu estava vendo. Já sou bem velhinho (e rodado em filmes/séries) pra esperar que refilmagens e adaptações sejam caninamente fiéis aos originais, mas espero que elas pelo menos preservem o “espírito da coisa” – e o novo Besouro Verde definitivamente não preservou.

Pra começo de conversa, a identidade civil do Besouro Verde da década de 60 (ele foi lançado nos Estados Unidos em 1966) era o jovem Britt Reid, dono do jornal O Sentinela Diário, e no filme de 2011 o dono deste jornal é um pai insensível que trata o filho pior do que trata seus funcionários. E eu, claro, fiquei chateado em ver o herói de minha infância ser retratado daquela forma.

O filho maltratado cresce e vira um rico mimadinho e irresponsável que vive envergonhando o pai (por que será né?). Aí o pai morre de modo misterioso e o filho, em um ato público de vingança contra a memória do pai, acaba ajudando uma donzela em apuros – sempre auxiliado pelo seu motorista, Kato, que é um gênio mecânico, exímio artista marcial e barista da melhor qualidade.

Essa é a gênese do novo Besouro Verde, um herói que se passa por bandido para poder ajudar as pessoas. E ainda bem, pois caso aquele homem amargo que maltratava o filho tivesse sido o Besouro Verde, minhas recordações estariam maculadas para todo sempre. De resto temos um filme com roteiro previsível, um montão de efeitos especiais, perda de ritmo do meio pro fim, ação, várias piadas (algumas bem engraçadas), mais ação e diversas referências à série original.

Infelizmente, nem a presença de Cameron Diaz e de Christoph Waltz (o caçador de judeus em "Bastardos Inglórios") no elenco conseguiram compensar o excesso de piadinhas e a falta de uma história mais consistente. Sem contar que o Besouro interpretado por Seth Rogen é praticamente um humorista, o que comprometeu a imagem do herói sério que era o Besouro da minha lembrança.

O papel de Kato na série original foi o primeiro trabalho de expressão de Bruce Lee nos Estados Unidos, mas acho que a gente (gurizada das décadas seguintes) só descobriu isso um tempo depois do início da exibição aqui no Brasil – aí passou a valer à pena assistir até episódio repetido. No filme de 2011 o ator Jay Chou honra o papel que já foi de Bruce Lee e o Kato dele dá um show à parte, meio que ofuscando o personagem principal e repetindo o que aconteceu na década de 60.

Pra mim valeu mesmo foi ouvir a música tema da série do Besouro Verde, ver novamente o Beleza Negra (ainda que em uma versão mais moderna), rever a sequência “comuta carro” & sai do esconderijo, e curtir as diversas referências inseridas no filme – que parecem ter sido feitas sob medida para os fãs da antiga série. Tudo isso trouxe a tona diversos fragmentos de minha memória, alguns que eu nem sabia estarem guardados.

O Besouro Verde nasceu como série radiofônica na década de 30 (1936), virou filme em 1940, 1941 e 1974 (com Bruce Lee), além de ter virado série televisiva entre 1966 e 1967 (apenas uma temporada). Desde 1940 diversas editoras publicaram histórias em quadrinhos do Besouro Verde, com o personagem já tendo passado pelas mãos de nomes como Frank Thorne, Joe Simon e Jack Kirby.

A Dynamite Entertainment está lançando uma série de revistas com histórias em quadrinhos do Besouro Verde – algumas girando em torno do novo filme e outras mais alternativas, explorando as possibilidades do personagem. Agora é esperar que algumas destas revistas aportem por aqui pra conferir o resultado.

Para ver a abertura de um dos episódios da série que fazia a alegria da petizada que curtia a série do Besouro Verde, clique aqui. Se quiser ver uma seqüência com o Kato (Bruce Lee) baixando o sarrafo em bandido, clique aqui.

— Sergio Barretto teve um passado nebuloso sobre o qual nunca fala. Ninguém sabe ao certo o que ele fazia, mas alguns indícios de ações secretas e aterradoras já desestimularam muita agente a continuar investigando. Hoje é um homem sério, cumpridor de seus deveres e apaixonado por histórias em quadrinhos desde que se entende por gente, e a cada ano faz mais tempo que ele se entende por gente. Faz parte do Quadro a Quadro desde sua criação e costuma ser gente boa, mas as vezes passa a impressão de que seu passado sombrio pode retornar a qualquer momento, pondo a todos em perigo.