Nos últimos dois anos deparei-me com uma série de teorias que compoem o básico dos estudos em tradução intersemiótica; de lá pra cá, revisitei uma série de conceitos e opiniões sobre as chamadas adaptações de uma mídia para outra: entendi porque o Romeo + Juliet do Baz Luhrmann é tão funcional, porque a transposição de O Corvo consegue trazer muito dos quadrinhos e em como uma ressignificação consegue trazer muito mais do texto anterior sem deixá-lo no plano de fundo da história.

E na medida em que ia pesquisando, percebi que conceitos como originalidade, essência e fidelidade não se sustentam em um mundo que mudou – e muito – desde o maio de 68, fazendo com que as falas perifericas se fizessem presente, desconstruindo assim qualquer centro de discurso, dentre eles, o do cânone.

Por isso instaurou-se em mim um certo receio, quando, ainda na fase de elaboração do roteiro e questionado sobre a liberdade criativa que teria, Lillo comentou que a fidelidade ao texto shakespereano tinha sido decisão editorial da Nemo­­ e, no entanto, teria carta branca para a escolha de diversas caractéristicas textuais. Shakespeare já disse muito enquanto vivo, então, por que ser "fiel"? O  interessante mesmo é em como as pessoas se apoderam do texto do bardo inglês, como eles se relacionam, como eles os traduzem.

Mas a vida, esta sim é uma caixinha de surpresas; e, como temos que desconstruir uma série de conceitos todos os dias, principalmente quando se estuda tradução, deparei-me com um Sonho de uma noite de verão não só belíssimo artisticamente, mas uma obra onde a “fidelidade” é apenas uma fissure com o texto Shakespereano.

A princípio, o que me surpreendeu, foi o tratamento dado à edição: 64 páginas em uma brochura muito bem acabada, uma capa bem funcional destacando o chamariz da coleção: o Shakespeare canônico; Puck, com os braços abertos como que saudando o leitor como se fosse um mestre de cerimônia: "Venha, caro leitor… Guiarei a sua visita a este mundo tão mágico, onde criaturas mágicas são tão humanas quanto os próprios humanos, que por sua vez são tão mágicos…"

Os desenhos do Wanderson de Souza é outra coisa que agrada e muito: um traço suave e limpo, sem muitas sombras, como que pra ancorar o leitor no mundo "real", pois há um perigo quando se imerge no mundo das fadas: lá o tempo age de forma diferente e você pode nunca mais voltar. Escolha mais do que adequada quando se tem Lorde Oberon e Rainha Titânia como personagens.

Outro ponto muito interessante em Sonho foi um estranhamento que só foi esclarecido na segunda leitura: a quase ausência do "narrador"; digo quase, pois a única coisa que lembra este elemento tão comum nas narrativas é uma caixa de texto logo no primeiro quadro, as primeiras palavras do quadrinho, apenas para localizar o leitor sobre o local e onde se passa a história: "Atenas, num tempo em que os deuses ainda caminhavam sobre a Terra." Fora isso, as falas e pensamentos dominam todo o texto. Aqui pode-se ver boa parte da bagagem teatral que o Lillo Parra possui e como isso influencia na sua escrita, pois toda tradução, mesmo ela sendo a mais "técnica" possível, traz muito da bagagem cultural do tradutor. Fico aqui imaginando se, com o primeiro gibi, Lillo Parra não teve medo de se apoderar das palavras registradas por um fantasma secular, o que será então quando ele for experiente no mundo dos roteiros?

Um dos poucos detalhes que senti falta e que já havia conversado com o Lillo ainda lá no FIQ foi a falta de um prefácio ou uma breve introdução, pois o acabamento gráfico dado pela Nemo é bom demais para ter apenas a tradução de Sonhos de uma noite de verão.

Ou seja: Lillo Parra e Wanderson de Souza calcaram suas marcas no rastro de significações deixada por William Shakespeare.

— Adalton nasceu no último dia de uma lua cheia, mas acha que isso não tem nenhuma relação com a sua vida; começou comprando quadrinhos por puro modismo - uma edição da Turma da Mônica parodiando Jurassic Park; sua primeira compra consciente foi a edição nº 01 de Batman: A queda do Morcego, ainda formatinho. Acredita que irá terminar a graduação em Letras antes da catástrofe de 2012 e daqui até lá está estudando parte das traduções intersemióticas das peças de Shakespeare já produzidas. E nos interlúdios, tenta produzir roteiros a partir idéias rabiscadas em antigos pedaços de papel.