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 ► Keli Vasconcelos¹

 

 

 

 

 

peter-pan (1)Ódio, ressentimento, mágoas, dor. Sentimentos que aparentemente só os vivenciamos na carne a partir do momento que atracamos na chamada vida adulta, quando arriscamos compreender seus (dis)sabores, como corroem, destroem por dentro, até matam.

E a gente cresce.

Isso, porém, não é tarefa fácil, caro leitor, sabemos muito bem disso. Tomar ciência que a vida não é tão floral quanto imaginamos, que nas perdas surgem as oportunidades, e outras frases belas que enfeitam os livros de autoajuda, e muitas vezes fingimos que as aplicamos, é para poucos, convenhamos.

Iniciei este pensamento após a leitura do terceiro volume do álbum Peter Pan (na Europa, foram vendidos mais de 1 milhão de exemplares, e aqui publicado pela Editora Nemo), roteirizado e ilustrado de forma belíssima pelo francês Régis Loisel – vencedor do grande prêmio do 30º Festival de Quadrinhos de Angoulème (2003).

Engraçado que o concluí praticamente na passagem de 2013 para 2014, período para pensar sobre o que está por vir, o que passou, o que ganhei e o que perdi. Contabilizar.

Em sua continuação, Peter, com o ‘Pan’ adotado, se vê na posição de líder dos garotos perdidos (e londrinos) e dos seres fantásticos que povoam a Terra do Nunca, a nossa Neverland, e ali equilibrar-se em seu maior desafio. O Capitão Gancho? Não! Encarar, por parte das crianças e dele mesmo, o velho amparo da figura materna. Por ora, todos têm a companhia de Rose, a que lava, passa, cozinha, conta histórias, diz ‘arre’, pega no colo, tenta dar ‘uns pega’ no Peter, e ainda canta a canção de ninar! O que grita, entretanto, é o ‘som baixinho’ da mamãe, aquela que gera amor, algo que todos, em especial o protagonista da série – cuja mãe é alcoólatra, desconhecem bem.

Como preencher esta lacuna? Como encarar a realidade que devemos sonhar, sim, mas não dá para viver de miragens, de passagens que já passaram? Como enfrentar as perdas? Faremos como o Gancho (intitula a parte 5 do volume), que corre do ‘tique-taque’ estridente de nosso amigo crocodilo, o crocô, que nada mais representa a finitude do viver – materializada numa das páginas importantes (minha opinião) da trama? Ou vamos, seguir os Destinos (que intitula a parte 6 do volume) dos habitantes de Neverland: depois de um tempo, tudo cai tranquilamente no esquecimento?

São perguntas que Loisel brilhantemente responde, entremeadas com fatos pujantes da Londres do século XIX. A famosa lenda de Jack, o Estripador, outra pobre alma que usa os meios ‘peculiares’ para ‘exorcizar’ os seus anseios.

Outra personagem que chama a atenção, capa do volume, é Sininho. Demônio em pele de fada que pode atrapalhar os caminhos, levar às tentações mundanas, a desistir dos propósitos ou pura e meramente iludir. Eis que fico aqui, com o pensamento martelando, nas quantas Sininhos, sejam do sexo feminino, sejam do sexo masculino, que nos rondam diariamente…

Ou mesmo nós damos uma de Sininho! Dá-lhe pó mágico para voar e abstrair do sofrimento! Evitai caro leitor!

Perguntas, perguntas… E mais um som estridente: o ‘ding, diling’ da fadinha.

 Poderíamos dar uma de Sr. Kundal, que entrega a seu Peter uma caixinha, que ele pede para ser o tesouro. Em seguida, entrega ao protagonista sua preciosidade: um envelope selado à cera, em que há uma foto daquela que fora – será? – sua amada. Eis no verso da imagem magnetizante a sentença: “Escute, a esperança tem os seus limites, o amor também. Não demore demais… Eu te amo”.

Loisel, que inspirou-se livremente nos personagens de Sir James Matthew Barrie, nos levanta mais uma questão: será que conseguiremos arcar com as consequências das escolhas feitas?

Acho que por ser um ato muito instável – praticamente instintivo, para alguns, em usar uma roupa ou traçar um caminho, e altamente psicológico para casos de aceitar ou não amizade, casamento, emprego, viajar ou dar-se um ano sabático – que a gente não se dá conta das consequências das escolhas.

E do sofrimento que elas podem causar, sim!

Peter fez a escolha dele: crescer pra quê, se tem a sua Terra do Nunca particular, o aconchego dos seios fartos da bela Sininho e seu exército de garotos perdidos?

Já Jack, o Estripador, a dele: a loucura da culpa.

Dos meninos, Picou, que conviveu intimamente com Rose, caiu no limbo da insanidade: o chapeuzinho dela, e outro som – “Mamãe Rooooooooooose”…

Kundal, além de fazer a opção dele, iluminou um fato importantíssimo, que me fez levantar da cama, local onde lia o belo álbum, e dar os primeiros rascunhos do que lê agora (e agradeço): “A covardia é o refúgio do adulto”.

Sininho, fez a escolha dela: ter, custe o que custar, o seu Peter Pan, o conto da fada, o pó do devaneio. Maldita que me fez desenhar o esboço que ilustra esta crônica (ao lado do álbum e fiz o possível. Gosto de desenhar, mas não sou boa na arte).

Ou seja, Peter Pan de Loisel não é só uma leitura singela, aquela que você se encanta e joga na Neverland de seu âmago. É o som que deve ecoar em sua mente. Não que você tenha de matar o Peter Pan que vive em você. O mesmo vale para as fadas: temos as boas, as madrinhas, as que mudam a vida para o bem. Que sejamos estas!

Não, ora! Sei que é complicado aceitar o fim de uma amizade, de uma paixão, de um trabalho, de uma vida. Mas estes fatores não podem nos jogar eternamente na Terra do Nunca das melancolias, das culpas, dos medos. Eram para acontecer, e ponto.

Loisel, em minha humilde perspectiva – e penso que por esta razão o final da trama seja tão nebuloso – nos dá um tapa na nossa ingenuidade. Que é preciso uma dose de fel em nossos dias. Que devemos crescer, mas não abandonar a nossa criança. É saber lidar com o nosso Peter Pan.

Monsieur Loisel, merci.

 

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¹ Keli Vasconcelos é jornalista de São Paulo e freelance para revistas. É colaboradora do Portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br), em que conta histórias sobre São Miguel Paulista, no extremo leste da capital paulista. Saiba mais em http://twitter.com/keliv1

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...