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Antes de falar sobre o filme que dá titulo a está matéria, vamos a um pequeno resumo da trajetória da EC Comics. A Entertaining Comics era de propriedade de Maxwell Gaines e especializada em histórias educacionais voltadas para eccomicscovercrianças. Mais tarde, durante o período de notoriedade, pertenceu ao seu filho William Gaines. Entre 1949 e 1950, a EC começou uma linha de novos títulos que caracterizam horror, suspense, ficção cientifica, ficção militar e policial. Os TalesFromTheCrypt-Francavillaprincipais titulos eram Tales from the Crypt, The Vault of Horror, The Haunt of Fear.

Seus editores, Al Feldstein e Harvey Kurtzman, que também desenhou capas e histórias, convidaram quadrinistas freelancers altamente talentosos como Johnny Craig, Reed Crandall, Jack Davis, Will Elder, George Evans,Frank Frazetta, Graham Ingels, Jack Kamen,Bernard Krigstein, Joe Orlando, John Severin, Al Williamson, Basil Wolverton, e Wally
Wood. A maioria dos titulos foram roteirizados por Kurtzman, Feldstein e Craig. Posteriormente outros escritores, como Carl Wessler, Jack Oleck e Otto Binder também colaboraram. A EC teve sucesso com sua nova abordagem e foi pioneira na formação de relacionamentos com seus leitores através de suas cartas ao editor e seu fã-clube. A Editora ainda promoveu a estabilidade de ilustradores, permitindo que assinassem sua arte e incentivando-os a desenvolver os próprios estilos; adicionalmente, a empresa publicou biografias de uma página sobre eles nas revistas.

O problema é que ainda no final dos anos 1940, a indústria de quadrinhos se tornou alvo de críticas da opinião pública pelocomics code authority conteúdo de histórias em quadrinhos e os efeitos potencialmente nocivos que poderiam ter sobre as crianças. O psiquiatra Fredric Wertham iniciou uma verdadeira guerra ideológica contra os quadrinhos, principalmente após a publicação do seu livro “A Sedução do Inocente”, que trazia um estudo detalhado do mal que as HQs representavam aos jovens (que
inclusive começou a levantar a polêmica do suposto relacionamento homossexual entre Batman e Robin e como isso era prejudicial aos adolescentes). Graças a isso uma espécie de censura foi aplicada, resultando na criação de um código chamado Comics Code Authority, onde todas as HQs deveriam passar por um rígido controle e conter esse selo de aprovação nas suas capas. Com a adoção do código, a EC precisou cancelar seus títulos e lançar outros submetidos ao código, até a Mad se ajustou aos novos tempos e também foi submetida ao código a reputação da EC continuava ruim e em 1955, todos os novos títulos foram cancelados, sobrando apenas Mad. Gaines vendeu a empresa em 1960, que foi absorvida pela Kinney National Company, a mesma empresa que adquiriu depois a DC Comics e a Warner Bros.

O sucesso durou pouco, mas os titulos de terror da EC já haviam influenciado uma geração. Na década de 1970, “Tales From the Crypt” e "The Vault of Horror" ganharam duas adaptções para o cinema, a famosa "Contos do Além" (Tales From the Crypt, no original) de 1972, e o menos famoso "A Cripta dos sonhos" ("The Vault of horror", no original) de 1973. "Tales From The Crypt", ainda inspirou a famosíssima série Contos da Cripta da HBO, produzida por Richard Donner, mas o foco aqui é o filme Creepshow, de 1982.

Arnold Schwarzenegger dirigiu um dos episodios de Contos da Cripta da HBO

Creepshow – Show de Horrores (ou Arrepio do Medo, como também ficou conhecido nas reprises do SBT) traz a de dois mestres do horror, Stephen King, que escreve as cinco histórias do longa, e George Romero, responsável pela direção dos mesmos. O filme começa com o garotinho Billy levando um esporro do pai por ler a revista em quadrinhos que dá titulo ao filme (Algo que deve ter acontecido com muitos dos garotos que liam os títulos da EC). O pai de Billy joga as revistas no lixo e das páginas delas são retirados os cinco contos do filme, mesclando cenas bem bacanas de atores reais com desenhos, como se fossem dos quadrinhos.
*Obs.: Billy é interpretado por Joe Hill, filho de King e hoje também é escritor (felizmente, pois era péssimo atuando).

A primeira história, “Dia dos Pais”, conta a história de Nathan Grantham (Jon Lorner), um velho autoritário e demente que foi morto por uma de suas filhas, Bedelia (Viveca Lindfors), após aporrinhá-la por conta de um bolo de dia dos pais, e também após ele ter mandado matar o amor de Bedelia durante uma caçada. Todos os anos, Bedelia retorna ao antigo casarão do pai, pontualmente às 18h, para ficar por uma hora rezando em seu túmulo e expiar seus pecados. Sete anos depois, em visita ao túmulo do velho, algo aterrador vai acontecer, para que o defunto finalmente ganhe o seu bolo.

A segunda é protagonizada pelo próprio Stephen King. “A Morte Solitária de Jordy Verrill” traz o mestre do terror no papel de um caipira ignorante que vive em sua fazenda tranquilamente quando um meteorito com uma substância vegetal alienígena cai em seu território. Verrill pensa ter tirado a sorte grande e quer vender o meteorito para o Departamento de Meteoros da universidade por 200 dólares. Mas ao jogar água no fragmento para tentar esfriá-lo, o meteorito se parte, liberando um estranho líquido. Ao tocar em seu interior, Verrill começa a sofrer uma mutação que aos poucos vai transformando-o em uma planta mutante. Como se não bastasse, o meteorito começa a espalhar uma estranha vegetação que vai crescendo por toda a fazenda do azarado Verrill e partindo em direção à cidade. O personagem de King é carismático e inocente o que faz o expectador temer pelo o que o aguarda no fim.

King Vegetando

King Vegetando

“Indo com a Maré” é o terceiro conto, e mais um de zumbi. Richard Vickers (interpretado pelo saudoso Leslie Nielsen, o eterno sargento Frank Drebin de Corra que a Polícia Vem Aí) é um vingativo marido traído por sua esposa. Vickers resolve se vingar da esposa e do amante desta e para isso arma plano sádico para acabar com os dois. Após enganar os amantes, Vickers os enterra nas areias da praia somente com a cabeça para fora em plena beira mar. Porém após morrerem afogados, ambos voltam à vida em estado putrefato como zumbis cobertos por algas marinhas, em busca de vingança. Este pra mim é melhor dos 5 contos. Os verdadeiros motivos e a forma como Vickers realiza são vingança são bem incômodos para alguém que como eu tem pavor do oceano (ou qualquer lugar com muita água… É tenho 24 anos e não sei nadar, me julguem).

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No 4º conto, "A Caixa", Mike, é o zelador de uma faculdade, que liga para o professor Dexter Stanley, dizendo que achou debaixo da escada uma caixa de 1834. Dexter vai ao seu encontro e, ao abrirem a caixa, surge uma estranha criatura que mata Mike. Apavorado com o acontecido, Dexter, busca auxílio e encontra Charlie Gereson, que não acredita no que ele está dizendo e ao ir examinar o local é também morto. Temendo ser acusado por estes crimes, Dexter, narra o ocorrido para Henry Northrup, outro professor, que tem a ideia de utilizar a criatura para fazer algo que sempre teve vontade, mas lhe faltou coragem: matar Wilma, sua esposa, que sempre o humilhou. O divertido desse conto é o mistério em torno da origem e destino final da criatura, e Dexter e Henry tentando de tudo para ocultar o rastro de sangue.

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E por fim "Vingança barata" fecha com estilo a antologia. Altamente desaconselhável para quem tem medo de baratas. Upson Pratt (E.G. Marshall), é um empresário inescrupuloso, trata os seus funcionários como lixo, demite quem for sem piedade, e destrói a vida de qualquer um de seus concorrentes para progredir financeiramente. Ele também tem mania de limpeza, um TOC violento e pavor de insetos. E vai ser durante um blecaute que ele vai enfrentar o seu pior pesadelo quando bilhões de baratas invadem seu apartamento. A cena final é de uma nojeira ímpar. 

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O epílogo traz um desfecho terrível para o pai de Billy que o reprimiu na noite anterior por ler as tais revista, já que o guri comprou, através da própria revista, um verdadeiro boneco vodu e pretende usá-lo contra o pai. Ainda dá tempo de uma ponta do famoso maquiador Tom Savini, mestre dos efeitos de maquiagem, responsável por filmes como "Despertar dos mortos" e "Dia dos Mortos" também dirigidos por Romero, "Sexta Feira 13 – O capitulo final", e próprio “Creepshow” e sua sequência, aqui interpreta lixeiro no epílogo encontrando a revista em quadrinhos jogada no lixo no prólogo.
No fim "Creepshow" é um bom filme. Uma homenagem digna aos quadrinhos que tanto influenciaram Romero e King. É cheio de cenas marcantes e bons efeitos especiais (pra epoca é claro). Obviamente não vai assustar quem tem mais de 12 anos (ou nem isso), pois o filme não é um clássico supremo do gênero, mas sim contos de situações bizarras, que dentro desta proposta, funcionavam. Em 1987, o filme ganhou uma sequência dirigida por Michael Gornick e agora com George A. Romero no roteiro. É tão bom quanto o primeiro tirando o prólogo que serve como elo de ligação entre as histórias. Enfim… Creepshow é uma boa pedida para poder apreciar dois mestres do terror trabalhando juntos.

Da esquerda para direita: King, Savini e Romero

Da esquerda para direita: King, Savini e Romero

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— Beto Magnun quando criança queria se tornar membro dos Novos Titãs e dos X-men, mas com o passar dos anos, acabou se tornando uma das pessoas invisíveis das histórias do Will Eisner.