fotomiag

 

 ► Por Carol Custódio¹

 

 

Muita gente já sabe: Shakespeare não criou Hamlet. Grossíssimo modo, ele TRANScriou (transformou e recriou) uma história de aproximadamente um século antes para os palcos da rainha Elisabete. Aliás, muitas histórias do bardo são recriações; como um crocodilo no rio farto, ele deitou e rolou em clássicos bem conhecidos em seu tempo, para diversão de todos. O teatro era a TV desse pessoal. Shakespeare era o Manoel Carlos, tanto da plebe rude quanto da corte empavonada. No nosso mundo, aka século XXI, autores de diversas searas sígnicas se refestelam no legado de Shakespeare como se não houvesse amanhã.  São essas traduções/releituras/canibalizações/modernizações [enfim, como você quiser, alteza], que manterão o cânone elisabetano entre nós ainda por muito tempo. Ou você prefere ler uma peça em inglês [moderno, acredite] do século XVI? Não né? Adoro essa [nossa] sinceridade.

Fiquei feliz ao saber, há alguns meses, que a tragédia shakespeariana mais conhecida do mundo foi recontada na linguagem dos quadrinhos por Wellington Srbek (tradução e roteiro) e Alex Shibao (ilustrações) como parte do projeto Coleção Shakespeare (Editora Nemo). Eu me sinto com sorte por conhecer o Shibao, professor de desenho da Quanta Academia de Artes, onde estudo e me divirto. Um cara muito “na dele”, com um coração imenso. Assinou minha edição cuidadosamente, desenhando na hora, em nanquim, a caveira Yorick – um dos ícones da tragédia de Hamlet [as dedicatórias de quadrinistas são as melhores]. Congelada pela ansiedade, coloquei o quadrinho de lado; precisava de tranquilidade para ler, para refletir sobre tudo e poder compartilhar indo um pouco além do “ficou ótimo”.  Precisava conversar com o intérprete visual dessa narrativa, e tinha que estar preparada para saber o que perguntar.

Hamlet

Um mês depois, enviei um email para ele sobre a minha experiência; compartilho com vocês o email, com algumas edições e acréscimos.

“Roteiro enxuto. Hamlet é uma peça que tem todos os elementos para se tornar cansativa e pedante: em mãos erradas, são quase 4 horas de ‘massacre’. No caso da tradução intersemiótica* de vocês, ficou super equilibrado. [A linguagem dos] quadrinhos, […], opera em uma dupla articulação: visual e verbal. quadro a quadro, há fluidez e beleza nos dois tipos de texto, há aquela centelha que engendra emoção. Nada ficou demais nem de menos. […].

Gostaria de saber sobre o figurino, que parece que foi atualizado para o período vitoriano.  [Em resposta, Shibao me explica que houve muito estudo para o figurino até se chegar a algo bem diferente do período histórico em que a peça se insere, mais próximo do século XIX, numa Europa industrial – apesar da armadura de batalha do rei ser quinhentista. Ele me enviou algumas das tentativas do visual dos personagens, todas incríveis. Tem que ter perseverança para trabalhar como ilustrador, estudar, esgotar as possibilidades, até encontrar uma tradução em imagens que agrade ao editor e ao roteirista. Super trabalhoso. Ao ler os quadrinhos, senti que passei por uma leitura de um jogo estético laborioso, que me intrigou e me fez “viajar”. Onde esperaríamos tudo muito rebuscado e complexíssimo, ou seja, quinhentista, temos um visual bem enxuto, que se equilibra com o texto. Leitores que gostam de tudo afinado com o tal do “original” podem se frustrar um pouco. Leitores que curtem alto contraste claro-escuro, vão se encantar, inclusive, com o refinado equilíbrio de cores da paleta do Shibao. Outro aspecto muito bem trabalhado pelo artista foi a perspectiva, os ângulos, o movimento de câmera e a interação entre os personagens em cena].

[continuando o email]

“Essa leitura foi uma experiência quase inédita para mim: a única peça [de Shakespeare] que li em quadrinhos foi Sonho de uma noite de verão, desenhada por Charles Vess para um dos tomos de Sandman [no Brasil, Terra dos Sonhos], do Neil Gaiman – […]. A última apresentação de Hamlet que assisti foi a do Aderbal Freire-Filho, com o Wagner Moura, forte e econômica no cenário mas, veja lá: não chorei. Nos quadrinhos de vocês, as expressões [das personagens de algumas páginas] mais a carga emocional do texto traduzido me comoveram muito mais, me aproximaram muito mais de um Hamlet que me fez ver mais algumas possibilidades de interpretação; voltei aos temas da efemeridade, da condição quinhentista de absoluta confusão entre religião, crenças populares e ciência (que estava em propulsão e fomentando o Malleus Maleficarum que lançou a Inquisição), pulsão de morte e pulsão de vida. ser ou não ser: matar ou não matar, antes de tudo. Viver ou não viver. Dormir e sonhar, dormir para sempre ou dormir e viver em outros planos – o sonho como uma outra condição de vida, o sonho que pode se materializar. E ainda, a doce Ofélia nos consola: não sabemos o que vamos nos tornar. Se corujas, se águias, se monstros – o que vamos nos tornar? Quem souber, morre? Sempre que leio essa passagem penso em tudo isso, nessa coisa de nunca sabermos realmente o que queremos e em que nossos planos resultarão, por mais controladores que sejamos. É uma peça sobre destino, recompensa, quid-pro-quod, fins e meios; tudo isso lindamente consolidado, revelado, pelos jogos dos seus traços redondos, firmes, high-key.

Hamlet5

Consistência, teu nome é Shibao. Simetria, sensualidade. Seus homens me apaixonaram, todos com um olhar firme […]. Com toda a carga dramática, com toda a treva dessa tragédia, esta descida ao inferno da indecisão, da insegurança, da vingança, a dor de crescer (Hamlet é um fedelho que acabou de voltar da escola para casa e já encontra tudo aos pedaços) mesmo com tudo isso, há sensualidade em cada quadro seu: […] é uma peça feita de carne, contendo a dança da morte – feito toda carne. Yorick, o pobre bobo, que dançava tanto e brincava tanto pelos salões reais, agora morto, dançando a dança da morte. Ofélia. Cantava. Dançava. Brincava, se apaixonava por não ter outra condição senão a do casamento – "vá para um convento", alerta Hamlet, pressentindo a dança da morte por perto – ele já era todo morte, todo loucura, todo vingança. Ofélia é a virgem vestal, sacrificada para que o guerreiro da tribo vença sua batalha. Shakespeare sabia muito das coisas humanas, desde que essa história de ser humano começou.

Shibao, você desenha e pinta de um jeito muito firme, muito bom de ler. Como se fosse uma arte felina. […] Gostei muito de ver que você se esforçou em fazer os parentes parecidos uns com os outros. Também é uma peça sobre família, a doença que é ser e estar em uma família, contendo ela própria a cura: renascimento através dos filhos – Shakespeare trata de exterminar a todos, não sobra nada. Ele mesmo não deixou ninguém, morreram todos [os seus descendentes]. Pelo menos, no mito de Stratford-upon-Avon, não deixou. 

[Hamlet] é uma peça [também] sobre extinção. E eu fiquei bastante emocionada com as pancadas finais. Como o rosto [do príncipe] vai se extinguindo, aos poucos. 

PS: Postei fotos de Hamlet em quadrinhos no Instagram e meus amigos da gringolândia ficaram na maior vontade de ter o volume em inglês.

 

*Tradução Intersemiótica é a tradução feita de um meio de interpretação sígnica para outro; em resumo, é isso. podemos falar mais se quiser também, eu costumava dar aulas sobre isso.”

[fim do email]

 

“[…]Apoio esses valores de ramificar a arte em outros meios, com essa onda de adaptações, creio que, como fã da arte aceito mais fácil o olhar de outros artistas produzindo e modificando antigos conceitos, ainda mais depois de lançar Hamlet, mas

também entendo o outro olhar de sentir aquele ciúme de modificar o que já é belo, e as chances de se estragar; mas isso é costume do ser humano, ‘se agarrar’ com o que é seguro e o que ele conhece.”

Alex Shibao, em fragmento de resposta ao meu email

 

Estragou nada! Pelo contrário! Obrigada, Shibao, por compartilhar sua experiência artística e pela generosidade em ler minhas inquietações. Obrigada, Srbek, pela tradução e roteiro competentes, que nos aproximam dessa narrativa tão antiga de forma tão atual.

PS dessa resenha: quem quiser comprar o Hamlet em quadrinhos, clica aqui!

Confira abaixo um preview da obra:

 

 

¹ – Carol Custodio é um híbrido legítimo de Zion. Com mestrado em intersemiótica/Shakespeare, foi professora de inglês e de Literatura inglesa e já trabalhou como fotógrafa. Atualmente, é tradutora e se dedica, o mais que possível, aos seus desenhos, fotografias e roteiros. Mora em São Paulo com o marido e uma gata-filha. Amigos e parentes visitam com frequência a casa-estúdio.

— Adalton nasceu no último dia de uma lua cheia, mas acha que isso não tem nenhuma relação com a sua vida; começou comprando quadrinhos por puro modismo - uma edição da Turma da Mônica parodiando Jurassic Park; sua primeira compra consciente foi a edição nº 01 de Batman: A queda do Morcego, ainda formatinho. Acredita que irá terminar a graduação em Letras antes da catástrofe de 2012 e daqui até lá está estudando parte das traduções intersemióticas das peças de Shakespeare já produzidas. E nos interlúdios, tenta produzir roteiros a partir idéias rabiscadas em antigos pedaços de papel.