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 ► Keli Vasconcelos¹

 

 

 

anansi-1No final do ano passado decidi fazer algo diferente: em vez de mandar os tradicionais cartões de Natal virtuais, elaborei um vídeo com minhas primas, de cinco e nove anos, lendo algumas HQs.

A mencionada aqui é a que minha priminha de nove anos achou mais ‘legal’: “O Senhor das Histórias” (Wellington Srbek/Will – Editora Nemo). Ela é viciada em leitura, como esta prima mais velha – e ‘coroca’, como diria minha mãe – que escreve agora.

Para a nossa coincidência, a trama começa quando dois primos perguntam ao vovô Lobato “De onde vêm as histórias”. O sábio professor conta a saga de Anansi, um velho tecedor habitante da “mãe África” que tem a missão de procurar no palácio celestial as histórias que contara para os companheiros de sua aldeia. A medida que eram proferidas, as palavras subiam aos céus e ninguém mais as lembrava. Por sua vez, todas elas estavam guardadas em uma bela caixa dourada cravada de pedras preciosas, cujo guardião era nada menos que o grande Criador, o “Deus do Céu”.

Ao subir na teia de ideias, o “Velho Aranha” se depara com um desafio:  capturar o leopardo Medo, o enxame de Monotonia e a ardilosa serpente Melancolia para conseguir de volta aquele relicário de preciosas histórias. Uma tarefa e tanto que o nosso protagonista tem de cumprir. Será que conseguirá?

Minha prima leu este mito recriado em HQ com tanto gosto que ficou impressionada com alguns termos e circunstâncias até então desconhecidos. Exemplo, ela não sabia o que era tecedor, muito menos que a África ‘cabia’ em um quadrinho e que ‘melancolia’ é quando ‘a gente tá muito, mas muito pra baixo’. Depois que leu tudo, ela me disse: “Keli, adorei a história do Seu Anansi! Muito louco aquele velho”.

Minhas primas moram no bairro de Guaianases, extremo leste da capital paulista. É uma região de periferia e opções de centros de leitura são bem raras. No bairro onde vivo, que também é uma periferia – São Miguel Paulista, já é uma alegria ter um sebo pertinho de casa! Então, vê-la lendo me enche de alegria e de esperança, pois é uma sementinha plantada para gerar novos frutos, principalmente ao pai delas, meu primo, que recentemente voltou a estudar.

Bom, como também fazemos parte da “grande aldeia dos que contam e ouvem histórias”, minha prima, na casa dela, foi contar a vida do “Seu Anansi” para a vizinha, de cinco anos, a Isa.

Gosto muito dela porque temos muitas coisas em comum, uma dessas por já sofrermos preconceito dentro do ambiente escolar – ambas por conta do peso e o meu agravante no caso, pasme, por ser canhota (tinha seis anos).

Sentamos na soleira da porta e minha prima começou a recontar, do modo dela: “Isa, a Keli me deixou ler um livro muito legal, se chama ‘O Senhor das Histórias’, que é o Seu Anansi. Ele é tecedor, faz as roupas que a gente usa. Sabe a blusa que você está usando? Foi o Seu Anansi que teceu! E ele vive na África. E a África não é pequeninha como no mapa da escola, é enorme! Ele contava as histórias para sua aldeia, mas conforme ele ia contando, elas subiam como a fumaça da fogueira; e ele e todos da aldeia acabavam esquecendo…”

Isa ficou como ‘Seu’ Anansi ao ver a lindeza que era o palácio de Deus do Céu: “‘de queixo caído’, ‘boquiaberta’, ‘pasma’ ou qualquer outra expressão que defina aquele estado”.

Depois das palmas, minha prima foi brincar com a irmã e os outros primos e eu fui beber água. Nisso, Isa me chama: “Keli, posso fazer uma pergunta?”. “Claro, o que quer saber?”, respondi.

“A Nana contou a história do Seu Anansi. Ele é o seu avô?”, disse, com sua inocência mágica.

“Não, Isa. Nós todos somos o Seu Anansi. Mas por que você achou que ele era meu avô?”, indaguei.

“Porque você sabe todas as histórias do mundo!”.

E saiu sorrindo.

Aquilo lembrou do meu avô ‘postiço’, que também era um excelente contador de histórias. Ele era espírita e vivia me falando que um dia iria ‘virar um espírito de luz, que sairia para onde quisesse, mas conforme Deus permitisse’.

Um episódio marcante foi quando me ligou na emissora de rádio que eu estagiava, na Avenida Paulista, no dia do meu aniversário. Lembro dele perguntando como eu estava, se tinha visto muitos cantores – foi quase um ano em uma rádio popular, entrevistando pagodeiros –, me desejando Saúde e Boa Graça.

Conversamos em abril de 2004. Seu Haroldo subiu, como as histórias de Seu Anansi, em junho daquele mesmo ano.

PS: ah, o vídeo!

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— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...