► Alexandre Silva*

 

 

Enquanto as vendas da maioria dos gibis caíam, devido a situação econômica do país, um gibi surgia na contramão de tudo isso. Só a Editora Abril Jovem, na época, a maior na área de quadrinhos, para apostar em uma nova publicação do gênero, e o que é pior ou melhor: era uma produção nacional. Surgia então, a revista em quadrinhos do SENNINHA!

A IDEIA

A paixão pela Fórmula 1, uniu o publicitário Rogério Martins e o desenhista Ridaut Dias Jr. em torno de uma ideia: criar uma história em quadrinhos inspirada no grande piloto Ayrton Senna. Corria o ano de 1990, e Senna acabara de conquistar o segundo título mundial de F1. Depois de muitos estudos, estava criada toda a ambientação para as hqs da versão mirim do piloto. O projeto só chegou ás mãos de Ayrton em 1993, que de imediato aprovou a ideia. Mas nem todos da família gostaram. Seu pai, Milton da Silva, era contra. Mesmo assim, Ayrton deu aval para que a dupla continuasse desenvolvendo. O projeto foi apresentado para a Abril Jovem, na época a maior editora de quadrinhos do Brasil.

OS PERSONAGENS

Senninha não surgiu para contar as aventuras de infância do piloto. Embora inspirado nas suas feições, o personagem era um admirador de Ayrton Senna. Sua turma era composta por meninos e meninas de um mesmo bairro, que viviam grandes aventuras, muitas delas envolvendo competições com uma turma "da pesada" comandada pelo trapaceiro "Braço Duro". Alguns personagens eram batizados em homenagem a alguém. Johnny, que projetava os carros do Senninha, era uma homenagem a Johnny Herbert, piloto da Lotus. JJ, amigo do Senninha fanático por esportes, homenageava JJ Lehto, piloto da Minardi na época. E seus irmãos nas histórias em qquadrinhos, não precisa nem dizer. GIGI (fácil alusão a Viviane Senna) e TÉO, para não ficar LÉO (de Leonardo). Enfim, uma bela galeria de personagens foi criada para dar sustentação as aventuras.

A PREPARAÇÃO

Em 27 de janeiro de 1994, Ayrton Senna apresentou para a imprensa o projeto SENNINHA. O investimento inicial foi de US$ 2 milhões e a promessa é que a revista seria publicada também na Argentina e no Japão. Incluía também uma série de animação com 52 episódios e um filme para cinema, além da marca estampar uma série de produtos. Em entrevista, Senna disse: Senninha e sua turma não visa só o lado comercial, mas também o humano. Será um canal de comunicação com as crianças, para levar a elas noções de vida esportiva, lazer, respeito e formas de se conviver com as vitórias e também com as derrotas.

Em 22 de fevereiro de 1994 foi lançado o número 0 da revista em quadrinhos SENNINHA E SUA TURMA, encartado em várias publicações da Editora Abril. Esse especial de 16 páginas, apresentava todos os personagens e contava o nascimento do Senninha, desde a maternidade, o seu gosto só por carrinhos, e depois, pela velocidade, sempre correndo, seja no andador, seja de patins, ou guiando carrinhos no supermercado. Contava também como o Senninha era escolhido para ser o piloto oficial da turma do bairro e deixava um suspense na última página com a largada da primeira corrida onde Senninha disputava com o trapaçeiro Braço Duro. Quem iria ganhar? Para saber, só comprando nas bancas a edição 1.

O LANÇAMENTO

SENNINHA chegou ás bancas em março de 1994, com tiragem de 150 mil exemplares, periodicidade quinzenal, 36 páginas em papel especial, que valorizava as cores. A primeira história dava continuidade a hq apresentada no número 0. O roteiro era assinado por Mário Mattoso, com desenhos de Roberto Fukue, arte final de Marcos Uesono e Jorge Caxeado, cores de Claudio Ishii. A revista era produzida dentro dos estúdios da Abril Jovem, dirigidos por Primaggio Mantovi, com supervisão e consultoria da Ayrton Senna Licensing, empresa recém-criada para administrar a marca. Localizada no bairro de Santana em São Paulo, a ASL tinha um núcleo de criação, comandado por Rogério e Ridaut, além de excelentes artistas como Marco Cortez, Alexandre Montandon, Mário Mattoso, Jairo Avalle e consultoria de quadrinhos do mestre Waldir Igayara.O número 1 trazia também uma entrevista com o piloto em que ele falava sobre o seu início de carreira, gostos pessoais e também sobre os testes que estava fazendo com a Williams.

A FATALIDADE

Quando o número 4 estava as bancas, o inesperado acontece. Ayrton Senna falece aos 34 anos de idade após sofrer um grave acidente no GP de San Marino, em 1 de maio de 1994. Ninguém conseguia acreditar. O Brasil parou. A produção do gibi parou por várias semanas. O que fazer com o projeto recém-lançado? Nunca houve algo semelhante na história da hq brasileira. A morte do protagonista da revista, logo no início do projeto. Rogério e Ridaut pararam com tudo, estarrecidos. A editora ficou a espera de uma decisão da família Sennasobre o que fazer. Curiosamente, a dupla recebeu a notícia sobre a continuação do projeto pelo pai de Ayrton, que a princípio era contra a criação. Mas era uma forma de homenagear o filho, dando continuidade a um projeto que ele tanto gostava. Apesar da imensa dor, Rogério e Ridaut retomaram o projeto.

Na edição 5, que chegou as bancas poucos dias depois do acidente, a editora apressou-se em colocar um encarte, com uma ilustração onde todos os personagens estão tristes pela perda de seu ídolo e criador, acompanhado de um belíssimo texto assinado por Rogério e Ridaut. Um momento único nos quadrinhos.

Na edição 6, era preciso explicar ao leitor como a morte de Senna era encarada pelos personagen, especialmente o Senninha, seu grande admirador. Talvez a única hq de toda a série que não contou nenhuma aventura do herói, nem uma piada, nada. Era um desabafo, um grito sufocado de dor, escrito por Rogério e desenhado por Ridaut, que fez o leitor chorar.

No período de junho a setembro saiu apenas uma edição por mês. Com uma equipe completamente abalada, era impossível manter a periodicidade quinzenal.

A REFORMULAÇÃO

Em outubro de 1994, chegava a edição 10, com uma grande reformulação. a revista passa oficialmente a ser mensal e com o dobro de páginas. Tal mudança já era uma tentativa de equilibrar os custos da revista, que já sofria com um mercado em retração. Distribuir duas edições por mês tinha um custo muito alto, e pouco tempo de exposição em bancas. Aproveitou-se a ocasião também para relançar o título. Em uma edição especial numerada como 10A com 34 páginas e distribuída junto com a revista QUATRO RODAS, a revista recontava de forma resumida o nascimento do personagem (uma adaptação da hq publicada no número 0) e avançava até o dia da morte de Senna, republicando na sequência a hq especial O HERÓI, que trazia a morte do piloto para as hqs. A hq seguinte era ambientada no tradicional Salão do Automóvel, que de fato, 

estava sendo realizado naquele mês. Também como parte das mudanças, o seu capacete ganhava vida e poderes mágicos e passava a ter um nome: MEU HERÓI. Seu uniforme mudou do azul da Williams para o vermelho da McLaren, equipe onde ele fora tricampeão. Para essa fase, ainda tão difícil para a equipe, foi convidado o desenhista Aluir Amâncio. Já a partir desse número 10, Aluir passa a desenhar quase todas as hqs, contando com arte final de Jaime Podavin, João Anselmo, entre outros. Isso por um período de dois anos. Quem também entrou nessa nova fase foi Marcelo Verde, criando boa parte das histórias. Algum tempo depois, Aluir contrata o desenhista Anderson Nunes para ajudá-lo. 

Em novembro de 1994, foi fundado o INSTITUTO AYRTON SENNA, presidido por Viviane Senna, com o propósito de destinar parte dos lucros arrecadados com o licenciamento de produtos, para a realização de projetos educacionais e de apoio a criança carente. Era o sonho de Ayrton virando realidade.

Na edição 17 (maio de 95) novamente a morte de Senna era lembrada, com um texto de Rogério e Ridaut no início, contando sobre o quanto foi difícil para a equipe trabalhar durante esse primeiro ano, sem o seu mentor.

A partir do número 42 (terceiro ano da série) nova reformulação. A revista volta a ser quinzenal, e passa a ter apenas 36 páginas impressas em papel inferior. Nessa época, acontece também a saída de Ridaut Dias Jr. do projeto. Alegando querer fazer outras coisas que não podia, por causa de seu contrato, descobriu-se depois que havia um motivo maior.

O PROCESSO

Na verdade, Ridaut saiu por divergências relacionadas a utilização da imagem do personagem. Segundo reportagem publicada no UOL ESPORTES em 12/08/2010 por Rafael Krieger e Rubens LisboaRidaut declarou que saiu e pediu revisão contratual. Não conseguiu e desistiu da ação jurídica. Rogério Martinssaiu do projeto dois anos depois, abrindo um outro processo, esse por não haver mais indicação de sua autoria. Suas assinaturas haviam saído de todos os produtos e os personagens teriam sido alterados. Um outro processo também foi aberto pedindo a reparação de danos sobre direitos patrimoniais sobre o personagem.

"A gente não conseguia se entender com a família. Sempre foi difícil, porque tìnhamos um acordo verbal com o Ayrton e sem ele ficamos órfãos. Passamos a ser empregados e só continuamos por vontade de manter o personagem. – declarou Rogério. O que de fato ocorreu, segundo ele, é que após a morte doAyrton, a família apresentou-lhes um novo contrato, que os colocava apenas como desenhistas, assegurando -lhes um valor pela produção da revista e tirando-lhes o direito de receber os royaltes, já que eram os criadores do personagem. "Eles ficaram com todos os direitos, e a gente sem nada" – afirmou Rogério

Bem antes, em 2004, Rogério Martins havia dado a seguinte declaração ao ESTADÃO: "Sempre tentaram esconder nossos nomes, são dez anos de uma criação que enfrentou vários revezes e um clima de trabalho péssimo", acusa. Ele diz que foi obrigado a assinar um "contrato espartano", regido pela CLT. "Era isso ou davamos adeus ao sonho de desenvolver o personagem inspirado pelos ideais e pelo jeito de ser de Ayrton Senna", revela. "Senna afirmou que poderíamos assinar o contrato que ele garantiria. Nós tínhamos uma relação de confiança muito boa, mas quatro meses depois ele morreu."

O que pode ser observado a partir da saída de Ridaut (edição 42), é que já não havia mais a assinatura dos dois nas capas, porém ela aparecia no primeiro quadrinho de cada hq. Na capa, foi substituída pelos dizeres: CRIADORES DO PERSONAGEM: ROGÉRIO M. MARTINS / RIDAUT DIAS JR. O que é mantido até hoje.

A MUDANÇA DE EDITORA
Em 1999, com queda nas vendas e com a crise em que passava a Abril Jovem (que deixara de ser empresa e voltava a ser um departamento do grupo) o título passa para a novata BRAINSTORE EDITORA, de propriedade do quadrinista Eloyr Pacheco que mantém a numeração original. Rogério Martins já saíra do grupo, e nota-se que suas assinaturas também saíram das hqs. O desenho em geral sofre uma pequena reformulação. Essa fase da BRAINSTORE durou apenas 6 edições (98 a 103). Após sua saída das bancas, o personagem continuou um caminho bem sucedido no merchandisng estampando dezenas de produtos no mercado.

O RETORNO

SENNINHA voltou em março de 2008, pela HQM EDITORA. em uma parceria com o INSTITUTO AYRTON SENNA Era necessário apresentar o personagem a uma nova geração de leitores. Um belo álbum foi lançado: AYRTON SENNA, UM HERÓI BRASILEIRO. Com 60 páginas em formato grande e totalmente colorido, trazia uma bela história em quadrinhos, que contava a história do grande piloto de F1 em meio as aventuras de Senninha e sua turma. Foi lançada durante a 14° FEST COMIX.

No mês seguinte chegava ás bancas o número 1 da nova revista do SENNINHA. Com 36 páginas coloridas, a publicação apresentava aventuras inéditas da turma, feitas por uma equipe bem mais enxuta, porém de artistas que estavam no projeto a bastante tempo. Da edição 1 a 5 teve periodicidade mensal. (de abril a agosto) A edição 6 saiu só em dezembro de 2008. Um atraso de 4 meses. Em janeiro de 2009 saiu a edição 7, porém a edição 8 saiu somente nove meses depois, encerrando de vez a publicação. Ainda se tentou colocá-lo nas bancas novamente através da SÉRIE INFANTO JUVENIL HQM, onde cada edição apresentaria um personagem diferente. SENNINHA saiu no número 1, em formato americano, com 36 páginas. E não retornou mais ás bancas. Porém está na internet, através do portal www.senninha.com.br, onde o internauta tem acesso a hqs, passatempos, desenhos animados, jogos, dowload e muito mais.

Continua fazendo muito sucesso, participando de campanhas institucionais, de diversos eventos, está estampado em vários produtos, mesmo não tendo o apoio de um gibi.

E tal e qual seu mentor e inspirador AYRTON SENNA, o SENNINHA tornou-se um grande vencedor. Sobreviveu á morte de seu ídolo, logo no início, mantendo-se em bancas por 103 números, virou caso de justiça, reapareceu e sumiu das bancas, mantendo-se sempre nos produtos, mas a maior vitória deste grande personagem foi realizar o sonho do grande AYRTON SENNA, de ajudar milhares de crianças e jovens carentes a terem dignidade e uma educação de qualidade.

*Alexandre Silva, autor dessa matéria, é Designer gráfico, colorista e produtor de hqs, começou sua carreira em 1986, no Estúdio Ely Barbosa, participando das revistas Os Trapalhões, Turma da Fofura e O Gordo & Cia. Depois, trabalhou durante 8 anos na Abril Jovem, fazendo O Pato Donald, Zé Carioca, Urtigão, entre outras. Colorizou a primeira Graphic Novel Disney feita no Brasil, "Patrulha do Universo" em 1991. A partir de 1997, passou a se dedicar aos livros didáticos, sem abandonar os quadrinhos. De lá para cá, participou de Mico Legal, Graphic Talents, Luana e sua Turma e A Turma do Arrepio.

 

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...