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Demorei um pouco para falar de Arzach, a imortal criação de Moebius (Editora Nemo – R$ 42,00), por um motivo muito simples: eu não conheço o cara e tava me borrando de medo de falar sobre esse gibi.

É engraçado varrer a internet para ler o que disseram (e dizem) sobre o recente lançamento da Nemo. Com raríssimas exceções, o que vemos é um desfile de frases feitas onde palavras como “genial” e “revolucionária” são utilizadas com pouco ou nenhum critério.

Não entendo porque é tão difícil simplesmente admitir que Moebius é um daqueles gênios dos quadrinhos que pouco conhecemos.

Arzach (2)Não sou um cara burro, escrevo de uma forma que as pessoas entendem e já li uma porrada de gibis. Ou seja, nem melhor nem pior do que centenas de pessoas que escrevem sobre quadrinhos na internet. Então, tomando-me como exemplo, vejamos o que realmente sei sobre Moebius:

Algumas historias aqui ou acolá publicadas sem qualquer regularidade nas populares coletâneas da década de 80, as edições de Blueberry da Abril e da Panini e a tão “aclamada” versão do Surfista Prateado…

Muito pouco se considerarmos que o cara tem um status no mundo dos quadrinhos comparável ao de Picasso nas artes plásticas.

O fato é que poucos falam com propriedade sobre a obra desse emblemático artista. Um deles, não por acaso, foi responsável por trazer ao público brasileiro aquela que é considerada uma das mais influentes séries de quadrinhos em todos os tempos, que causou impacto não só em sua mídia original, como também na literatura, no cinema e até na moda.

E antes que radicais coloquem bombas de trojans associadas ao meu nome, prontas a infectarem meu computador assim que o nome Parra for digitado, aviso: Moebius influenciou até o mercado norte americano.

Ignorância assumida mas não conformada, resolvi ler Arzach como se fosse um gibi qualquer, desses que a gente acaba comprando pra ler no ônibus.

Pois bem, Arzach não deve nunca (sob hipótese alguma) ser lido num ônibus. A obra de Moebius aceita qualquer tipo de coisa que faça a sua cabeça, mas jamais a leia de forma ligeira e despretensiosa, ainda mais sem a devida atenção.

Para sentir Arzach, seja lá o que você tenha tomado ou deixado de tomar, é necessário estar sozinho. No máximo acompanhado de uma boa trilha sonora. Sim, porque Arzach não tem sons, só silêncios que farão um barulho infernal dentro de sua cabeça. O álbum traz também histórias – pertencentes ao Universo de Arzach – que possuem texto, mas são as histórias sem fala alguma que fazem toda a diferença.

E o motivo é tão simples quanto complexo: Arzach é basicamente sensorial.

Ler Arzach tem o mesmo sabor daqueles dias ruins, em que tudo deu errado, seu chefe te deu uma bronca na frente de todo o departamento, sua namorada falou na tua cara que você é uma merda na cama, clonaram teu cartão e limparam a tua conta corrente e, claro, choveu e você estava sem guarda chuva. Então, ensopado, enganado, desprezado e frustado, num metrô vazio que vai te levar até uma estação onde o último ônibus já partiu há mais de meia hora, entra um bêbado e começa a cantar numa afinação surpreendente a mesma música que sua avó cantarolava antes de você dormir. E no fundo dos sentimentos mais sombrios você sente algo bom. Não é suficiente pra consertar as coisas ou fazer você se tornar uma pessoa feliz a partir dali, mas é o bastante para você sorrir.

Surreal? Loucura? Quer um pouco do que eu tomei?

Não. Por incrível que pareça estou sóbrio (do contrário não estaria escrevendo esta crônica) e não exagerei.

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Arzach causa sensações estranhas, te encaminha por pensamentos novos, revisita sua vida. Você termina a leitura sem saber direito onde chegou mas com uma irresistível vontade de voltar correndo ao ponto de partida, mesmo sabendo que isso será impossível.

Embora não possua violência explicíta, Arzach possui imagens violentíssimas sobre a vida e sobre a morte. Imagens como você nunca viu, mas que estranhamente lhe parecem familiares.

Pois esse é o segredo de Arzach: não são imagens desconhecidas, são sentimentos coletivos personificados nos quadros.

São representações sobre sexo, medo, desorientação, maldade e amor escondidas nos detalhes mais sutis; atrás de uma janela, na textura da parede de uma construção, num dos muitos seres orgânicos que povoam ou espreitam as páginas, num olhar. Moebius conseguiu em seus desenhos captar aquele átimo de pensamento desconexo, formado apenas da tentativa desesperada de nosso cérebro em tentar racionalizar algo que não entendemos, o mesmo fragmento de pensamento que temos ao tomar um susto, ao entender uma piada ou ao explodirmos num orgasmo.

E talvez tenha sido esse poder narrativo, feito da mesma matéria dos sonhos e das sensações, que tenha causado tanto impacto na época. E que também fará muita gente no Brasil, a partir de agora, começar a entender quadrinhos de uma maneira nova, onde a capacidade de se explorar uma história vai muito além à ditadura imposta por padrões literários, gráficos ou de mercado.

Mais de trinta anos separaram a publicação original de sua versão brasileira.

Entretanto, ler Arzach continua sendo uma experiência única, nova, instigante, mesmo depois de Gaiman, Moore, Miller e tantos outros talentosos artistas que, de uma forma ou de outra, sofreram a influência dessa impactante obra e de seu executor.

E essa modernidade, essa inequívoca capacidade de resistir ao tempo e ainda produzir novos significados às gerações mais novas, é a maior prova de que Arzach é uma obra genial e revolucionária.

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— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.