Esta resenha é destinada a aqueles que já leram o final da série 100 Balas. Eu diria, é para aqueles que já foram batizados.

gravesA expressão "Batismo de Fogo" vem de citações bíblicas. Mas é a interpretação do escritor Mario Puzo, de O Poderoso Chefão, que nos interessa aqui. Com a constante inquietação e a guerra civil entre as Famílias mafiosas que comandavam Nova York durante a época retratada pelo livro, a Família Corleone (protagonista da história), elege Michael Corleone para chefe. O outrora filho alheio aos negócios da família é levado ao poder por uma sucessão de fatos que podem ter sido premeditados ou não, pouco importa. A questão é que, para se fortalecer, Michael precisa eliminar os líderes rivais, no que fica conhecido como seu batizado para o crime organizado. 

O grande trunfo dos livros de Mario Puzo é fazer o leitor se identificar com os personagens. Os mafiosos da Família Corleone são cruéis e impiedosos, mas possuem seu lado humano. E como o protagonista Michael, começamos a narrativa como espectadores, até que entramos a fundo na história, e quando notamos, não há mais como sair. Somos batizados juntos, com fogo.

100 Balas começa com o enigmático Agente Graves, oferecendo uma possibilidade de justiça com as próprias mãos a pessoas que até então nos parecem aleatórias. O escritor Brian Azzarello aposta inicialmente no suspense para prender nossa leitura. E movido por cada bala disparada, por cada maleta aberta e cada página virada, somos guiados por diversas histórias diferentes, que sabemos que irão se encontrar no final. Aos poucos, conhecemos os membros do Cartel, nada mais que uma organização que envolve todos os chefes de Famílias mafiosas dos Estados Unidos. Descobrimos então que Graves era uma espécie de coringa, detentor do poder único de comandar os Minutemen, os soldados responsáveis por manter a ordem de equilíbrio entre os membros do Cartel. Perceba que as palavras que utilizo são "somos guiados" e "descobrimos", pois Brian Azzarello só nos permite conhecer a história seguindo o compasso que fora planejado por ele com muita antecedência.

Depois de ter lido alguns volumes, percebo enfim que estamos diante de mais uma história sobre máfia, e interpreto a maleta do Agente 100Bullets_0601Graves como uma roupagem moderna das atividades mais básicas dos mafiosos: oferecer vingança de acordo com seus interesses, oferecer força aos mais fracos e iniciá-los na organização. Mas os Minutemen funcionam um pouco diferente, e Graves é alguém atolado na lama a muito tempo, muito diferente dos protagonistas de outras histórias tradicionais sobre o tema.

Em seguida, conforme o tom original e vibrante das primeiras histórias diminui, meus questionamentos mudam. Se no início me pergunto quem está por trás de tudo e como toda essa trama funciona, agora me pergunto o que estamos acompanhando, quem devemos seguir e o que devemos esperar ao final de tudo.

Quanto mais leio, mais percebo que o forte desta narrativa também são os personagens. Se não temos um cativante óbvio como Michael Corleone, Azzarello nos oferece um arsenal de personalidades e características para que alguma caia em nosso gosto pessoal. Cole Burns e Willie são os meus preferidos. E conforme a história avança, mortes e mais mortes acontecem, algumas delas capazes de nos deixar novamente indignados esperando entender a mão que manipula tudo. A resposta de muitos enigmas, como CROATOA e como a morte de Shepperd vem com o tempo, mas não da maneira que todo mundo espera. Até que interpreto que a história não é sobre essa mão, afinal. É sobre Graves. O Agente encarregado de balancear a situação havia desequilibrado tudo.

E vamos assim seguindo em frente até que não nos é mais permitido. Fim de jogo. A história vai terminar no próximo número. Um a um, os chefes das outras famílias caem de joelhos. A mão que manipula tudo é tão grande quanto nossa imaginação. Teria Augustus arquitetado tudo sonhando em ser um Imperador solitário? Para mim, se Graves realmente foi manipulado nas páginas finais, só uma pessoa poderia ter feito. Brian Azzarello, que criou esta história toda para levar o Agente ao seu Batismo de Fogo, para oficializar sua ascenção após os  controversos acontecimentos que se sucederam. 100 Balas é um épico afinal, que homenageia e moderniza o clássico dos clássicos de Mario Puzo.

Mas e aí? Graves age o tempo todo com ataques bem planejados e revides bem executados. Nomeia Dizzy como nova Minutemen, e lhe entrega o dever de manter a ordem. Como a história pode terminar? Melhor impossível, sem balas.

100bul

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.