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► Keli Vasconcelos¹

 

 

 

 

sp-mortosSer zumbi está na moda: no seriado, na música, no desenho animado, presente em ônibus de humorístico televisivo ou nos jogos que povoam a internet. E na Nona Arte não poderia ser diferente.

Na contramão de mortos-vivos cheios de pompa, comedores de carne viva de primeira e com ‘modelitos’ de grandes marcas, o roteirista Daniel Esteves trouxe em “São Paulo dos Mortos” (HQ em Foco/Petisco) uma Sampa real, com suas personas e imperfeições.

Dividido em seis histórias (e ilustrações que as separam), o álbum contou com o traço de Al Stefano, Alex Rodrigues, Ibraim Roberson, Jozz, Laudo Ferreira, Lucas Perdomo, Omar Viñole, Samuel Bono, Wagner de Souza, Wanderson de Souza e Will.

A primeira história, ‘Antes dos Mortos’, mexe em uma ferida ainda recente: a desapropriação dos moradores da comunidade Pinheirinho, em São José dos Campos, em meados de 2012. Tiros, socos, gritos e muita revolta é também pano de fundo de ‘Carona para o Governador’, que relata a vulnerabilidade de um governante egoísta e arrogante, que sente na pele, por meio da personagem Gisele, a vulnerabilidade de não poder alcançar o que conquistou.

Interessante ver a megalópole como palco de um amor não correspondido, em ‘Com você no fim do mundo’, com direito a busca de carne fresca no Largo Santa Cecília e flashback no Viaduto do Chá. E uma vegetariana no meio aos zumbis dentro do metrô em ‘Próxima Estação’?

Paisagens da cidade não foram poupadas dessa intervenção morta-viva, o que é ótimo, pois assim não dá para ficar mais inerte na estação Sé, olhar com outros olhos o Estádio do Pacaembu ou ainda o Monumento às Bandeiras, no Ibirapuera.

letras-estacaoSó que a história que gostaria de destacar é ‘Itaquerão’. E não é porque sou moradora da Zona Leste, que gasto 15 minutos de van até o estádio, ter vários familiares corintianos (não sou muito fã de futebol, confesso) e usar os já peculiares ‘vai curintia’ e ‘aqui é curintia’ (referindo-se ao Corinthians) para comemorar e contestar qualquer coisa. Mas porque retrata as vidas de Carniça, Cabeça e Ton, jovens típicos de Itaquera, com roupa detonada, estômago idem e palavreado entendível. ‘É nóis’, portanto.

Os três amigos invadem sozinhos o estádio dominado por corintianos e são-paulinos zumbis, em busca de jogar uma pelada. E não só isso, também procuram, além de ratos, um prato de comida e um banho quente para tomar. Andam com desenvoltura em meio aos perigos que toda a periferia tem, entre monstros e vielas da ZL, impressionados com o “campo cabuloso” e as “minas zombie”.

“São Paulo dos Mortos” é o lugar que vejo diariamente, melhor, é a São Paulo cotidiana, com o seu cinza, seu trânsito intransitável, pessoas cheias de angústia, pressa, veias saltando. “Eita preula”, é por isso que causa tanto espanto e fascínio a SP!

Tudo a ver com os mortos-vivos, pois estão presentes nas entranhas da História desde as múmias, passando pelo épico ‘Thriller’ de Michael Jackson, até os viciados na Cracolândia, região do centro da capital paulista de venda de entorpecentes, retratados em ‘Vício’. Esteves e grande elenco mostraram São Paulo como é. Melhor ainda, o álbum dá um cutucão em nós, paulistanos ou não, sobre o nosso modo de vida.

Afinal, quantas vezes a indiferença toma lugar da sensibilidade nesse cotidiano tão insano? 

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¹ Keli Vasconcelos é jornalista de São Paulo e freelance para revistas. É colaboradora do Portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br), em que conta histórias sobre São Miguel Paulista, no extremo leste da capital paulista. Saiba mais em http://twitter.com/keliv1

*O conteúdo deste post expressa a opinião da autora, que é plenamente responsável pelo mesmo.

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...