Vinte e dois de agosto.
Dia do Folclore.
Lembra da sua infância? Aquela data quando a escola parava para lembrar de personagens característicos da cultura brasileira. As crianças se fantasiavam de Saci Pererê, faziam desenhos do Curupira e tentavam imaginar como seria uma mula sem cabeça.
Divertido?
Pense de novo.
 
Em um mundo onde vampiros deixam de ser assassinos frios para se tornarem andróginos purpurinados e bruxos soturnos dão lugar a crianças alegres, Giorgio Galli vem na contramão e traz à escuridão seres que passaram tempo demais sob a luz.
No universo de Salomão Ventura: Caçador de Lendas, não há lugar para Saci "sapeca" e Curupira fofinho. Eles estão ali mesmo é para tocar o terror! Literalmente!
Confesso que não esperava muito quando peguei as revistas – entregues a mim no FIQ pelo próprio autor -, tanto que deixei de lado por meses. Mas quando finalmente resolvi dar uma chance àquela "historinha do Saci", tive um ótima surpresa: "E não é que o negócio é bom?"
Depois de ler a primeira edição, imediatamente pulei para a segunda, e fiquei triste por descobrir que não havia terceira (na 

 época).
A história é bem interessante, dá uma abordagem mais sombria a personagens do folclore brasileiro, que em sua raiz sempre tiveram uma origem mais pesada, mas que acabaram recebendo um tratamento infantil com o tempo. 
Na HQ, Salomão é mais que um simples caçador, tudo indica que ele tem uma forte ligação com cada uma das lendas que encontra. Nos dois primeiros números ainda não dá para falar muito sobre quem é Salomão Ventura e se ele está mesmo caçando, recuperando ou tomando conta das tais assombrações, mas o autor vai deixando algumas trilhas, que prometem render boas histórias no futuro.
Apesar de trabalhar num argumento novo, reconstruindo antigos contos e trazendo a tona novos contornos à velhos conhecidos, nem tudo é perfeito. Algumas coisas ali não encaixam.
Como já disse, a sacada de mostrar a natureza sombria dos personagens é fantástica. O problema é que no desenvolvimento da ideia, muita coisa se perde.
A arte de Galli é boa, mas ainda vacilante, e infelizmente isso acaba comprometendo o resultado final.
O desenho é bastante sóbrio, com os traços limpos, mas que por vezes parecem saídos de quadrinhos de heróis. 

Se consideramos que um dos grandes atrativos do roteiro é o suspense, talvez funcionasse melhor uma arte mais suja, que deixasse a sensação de desespero mais palpável ao leitor. 

O ruim da história ser tão interessante (pois é), é que ela é muito curta! Por se tratar de um quadrinho independente, e ter autor único – Galli é quem escreve, roteiriza, desenha, arte-finaliza e edita -, imagino que cada revista seja resultado de muito trabalho e  tempo dedicado, o que acaba inviabilizando a edição de histórias mais longas. Pelo menos por enquanto. Mas nada impede que ele continue escrevendo e convide outros artistas para dar vida ao Caçador. Fica a dica.

Quando terminei de ler a segunda edição e fiquei com aquele gosto amargo de querer saber mais, pensei em como seria legal se Salomão Ventura se tornasse uma série de livros, onde o autor não tivesse mais qualquer limite para explorar esse universo tão promissor. Quem sabe…
Mas independente do que o futuro reserva ao Caçador de Lendas, pode ter certeza que estarei lá para descobrir!
E recomendo que você também esteja. 
…Mas não tão perto, pois nunca se sabe o que virá da escuridão.
 
PS.: A cada edição o autor indica uma trilha sonora. Bandas e artistas q ele ouviu enquanto produzia a HQ. Todos de primeiríssima linha! Vale dar uma conferida nas sugestões.