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Outro dia estava num desses fóruns de discussão sobre quadrinhos, quando li o seguinte comentário:

“Quadrinho nacional são tudo lixo. Tudo mau feito. A gente devia se envergonhar. Não sei porque ainda tem gente que publica”.

É claro que eu não levei a sério o cara. Mas me assustei com a quantidade de outros internautas que demonstraram seu apoio a tão descabida – e mal fundamentada – afirmação.

Passei os cinco dias seguintes entrando sistematicamente nesses fóruns e vi opiniões bastante semelhantes. Um fato perturbador para quem acompanha de perto o cenário dos quadrinhos nacionais.

Perturbador porque:

1 – Não é verdade, basta olhar a quantidade e qualidade dos lançamentos nos últimos anos.

2 – Essas pessoas se recusam a ler material nacional.

3 – Demonstrando todo o seu complexo de vira-latas (como tão bem definiu Nelson Rodrigues) não aceitam que a produção nacional possa competir com o produto que consomem (no caso em específico um monte de homem com cuecas por cima da calça).

Eu até posso compreender que alguém que cresceu lendo comics norte americanos ou mangás tenha dificuldades em começar a apreciar o material nacional ou europeu.

São coisas muito diferentes entre si.

Os europeus porque possuem um olhar pra lá de diferenciado sobre o que seja o consumo e a produção de quadrinhos.

Os nacionais porque – admitamos – passou décadas lutando contra sua própria estigmatização.

Ora queria apenas ser o Batman, ora apenas o Bob Cuspe.

E, claro, a maior parte dos editores nunca ajudaram. E assim presenciamos gênios como Colin, Shima e Zalla lutando contra tudo e contra todos para formar uma indústria genuinamente nacional.

E finalmente essa indústria parece dar as caras. E já começa também a dar as cartas, sem medo de dizer que é brasileira.

Mas toda uma geração de leitores se perdeu nesse processo, como fica claro pelo comentário do carinha lá do começo do texto. E todo um caminho deverá ser percorrido, cheio de obstáculos estéticos e de mercado.

Felizmente, é cada vez mais comum cruzarmos com gibis excepcionais, que surpreendem até os leitores mais escolados nas idas e vindas de um mercado que nunca foi exemplo de estabilidade.

Movido pela curiosidade, comprei A Balada de Johnny Furacão, do Sama (Editora Flâneur, R$ 32,00). Gibi feito à partir de uma música? Não podia deixar passar.

Comprei o gibi, mas antes de começar a leitura fui nesse diabo medieval de tentações chamado internet pra ouvir a música que originou a história. Um iê-iê-iê como tantos outros que habitavam as rádios e alucinavam a geração de nossos pais (e se você tiver menos de 20, talvez dos seus avós), contando a história de um piloto de rachas naquele idílico mundo de transgressões das décadas de 50 e 60.

Erasmo CarlosMas bem estilosa. Claro, seu autor é ninguém menos que Erasmo Carlos, um cara a quem devemos todo o respeito, não por ser o parceiro de canções belíssimas (sim, podem me chamar de brega, eu não ligo) ao lado de Roberto Carlos, mas sim por ser um dos pilares do Rock no Brasil, ao lado do genial Raul Seixas.

E claro que pensei “isso não dá um gibi”.

O que só atiçou ainda mais minha curiosidade.

Quarenta minutos depois tudo o que consegui dizer foi um grande palavrão.

A Balada de Johnny Furacão é um gibi excelente e desafia tudo aquilo a que estamos acostumados – ou pensamos estar – nos quadrinhos nacionais.

Primeiro: Johnny Furacão é uma aventura muito bem contada e só isso já vale os trinta contos.

Mas não é uma aventura de sessão da tarde. Johnny Furacão é um gibi de piadas ácidas, com um senso de humor sofisticado, que não é sacado numa única leitura.

Culpa do Sama, claro. Sempre há um culpado.

Um cara que é ator (vou me arrepender por ter dito isso, eu sei), cenógrafo, escritor, artista plástico e, desconfio, neto bastardo do Al Capone, não poderia fazer um gibi óbvio.

20110614-CAPA_DA_BALADA_DO_JOHNNYSama brinca com a vida de seus personagens. A começar por Cid, parceiro e irmão de estrada de Johnny. Do que foi ao que poderia ter sido, terminando naquilo que se tornou, Cid reflete a vida, sonhos e frustrações de toda uma geração que se encantou com o rock daqueles primeiros anos e que mudou de forma irremediável o mundo.

Alex, seu filho, não merece nota. É um cara comum. E exatamente por isso é uma das melhores criações do álbum. Na sua ordinária vida, Alex é o estopim dramático ideal para conduzir a trama. No mundo criado por Sama, é Alex quem conduz o leitor por situações extraordinárias.

Um nada convencional casal de namorados completa o núcleo principal, num espelho doentio que explica muito da história de Johnny, se você estiver lendo a mesma história que Alex está vivendo.

Sim, porque Alex vive uma história diferente daquela que estamos lendo. Um recurso narrativo inusitado, que só é percebido nas últimas páginas. Mas contar estragaria toda a surpresa do gibi e – se eu estiver certo e o Sama for mesmo neto do cara – corro o risco de ser encontrado no fundo do Tamanduateí pelo que já disse até aqui.

E tem os caras maus. E entre irônicas e ácidas citações sobre futilidade, moda, sexo, drogas, segurança pública e até organizações protecionistas, são os vilões de Johnny Furacão que sintetizam a requintada crueldade do roteiro.

Tudo uma questão daquilo que foi e do que poderia ter sido. E de como as coisas e o mundo caminharam nesse meio tempo.

Johnny Furacão é surpreendente e surreal. Ler o gibi do Sama é como assistir a um episódio de Além da Imaginação. Uma viagem inesquecível, divertida e por vezes assustadora. Mas uma viagem que sempre vale a pena.

Os quadrinhos nacionais não são um lixo, não são mal feitos (muito menos mau feitos) e cada vez mais nos orgulham.

Há sim um longo caminho a ser percorrido até que os editores entendam que gibi brasileiro é um bom negócio, que nossos profissionais são talentosos e competentes e que nem tudo precisa voar ou ter os olhos grandes.

E a distância entre o perfil do leitor de quadrinhos de hoje e a reconquista do público que almejamos parece intransponível.

Mas gibis como A Balada de Johnny Furacão é o tipo de coisa que nos faz acreditar que isso é possível.

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— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.