sem-titulo

Minha avó sempre dizia, quando as coisas davam errado, "Uma coisa boa sempre pode surgir de algo ruim". Antes das plataformas de Crowdfunding e popularização do mercado de quadrinhos no Brasil e antes de Tobey Maguire se balançar por Nova York nas telonas, nos anos 90 haviam poucas alternativas para os autores nacionais lançarem seus trabalhos independentes da maneira que almejavam. Era comum as publicações não saírem de forma ordenada, não haviam estratégias para novos talentos, some isso ao fato de o Brasil estar engatinhando para uma reforma política pós uma Ditadura… Bem, em bom português publicar era um pesadelo extremamente dificil de se acordar. Além disso o mercado nacional era quase em sua maioria dominado por homens tornando o espaço autoral feminino quase nulo. Em 1998 surgia a Front, como website no UOL, aonde centenas de quadrinhistas debatiam a situação brasileira e o futuro da profissão. E quer saber? Ainda bem que eles o fizeram! 

Como disse no ínicio deste texto, uma coisa boa sempre pode surgir de algo ruim e para nossa sorte a "coisa boa" que  surgiu desse pesadelo editorial foi a editora Front. A revista surge da idéia que os autores também fossem donos da publicação e pudessem se autoeditar, estabelecendo um número de cotas (valores para impressão e custos) e posteriormente sendo realizado o acerto de contas proporcional as vendas. Front surgiu como algo inédito, uma revista aonde "os autores eram donos dos editores", aonde não havia machismo, preconceitos sexuais ou de gênero, havia simplesmente contadores de histórias para leitores maduros que buscavam algo fora das capas e colantes. Uma editora com um e-group onde os temas eram debatidos e estudados, aonde as histórias eram desenvolvidas e todos aprendiam com o processo. E que histórias! Quinze anos depois (oito após a última edição da Front ter sido publicada), e lamentavelmente sendo pouco conhecida pelos leitores mais novos, temos a chance de adquirir um novíssimo material da Front, a editora de histórias que conta a história das publicações no Brasil.

hq-front-capa-via-lettera-ambrosia-014

Como já disse a Front se originou da vontade de vários autores de se autopublicar, fugir dos clichês e temas comuns e principalmente do desafio de experimentar. Esta edição revisita muitas histórias que representam estes ideais com uma coletânea de 18 histórias independentes entre si e cada uma escrita e desenhada por pessoas diferentes. Obviamente é impossível descrever com detalhe a riqueza das obras, a beleza da narrativa, ou a acidez das críticas sociais, econômicas e políticas desenhadas nas páginas. As 18 edições trazem histórias com mensagens individuais e atingem a seu modo um pilar do conservadorismo de forma diferente. 

Caso você seja um leitor que aprecia o trabalho nacional de charges e críticas sobre a situação social irá se deliciar com Front 15 Anos e as histórias, Olho no Olho e Página Dois, caso goste de contos de terror, A Coleção de Conchinhas e Ilustração Textada são para você. Para os que amam filosofia e teologia fiquem com A Grande Pauta (na minha opinião a melhor história da edição),agora se você é simplesmente um leitor que busca algo mais, alguém que está curioso para se apaixonar por uma coleção nova e conhecer mais sobre autores brasileiros que têm muito a dizer e desenhar eu recomendaria a edição toda. Acho que no final das contas este é o melhor aspecto da Front, ela agrada a todos. Cada história é feita com o máximo de cuidado e com sentimento. Você vibra com as superações de Selena e prende o fôlego em Noite Luz, mas também esboça um sorriso com as críticas artísticas vistas nas páginas, especialmente as da página 60,74 e 116.

Front é rica em seus detalhes sobre a história do Brasil e das terras aonde as histórias se passam. Em suas páginas preto e branco as metáforas e indiretas não poderiam ser mais claras nem mesmo se fossem pintadas a cores berrantes. A mensagem da edição é clara: Os quadrinhos nacionais vieram para ficar, e é melhor sair do caminho porque tem muito mais vindo. 
O que eu posso dizer? Simples:
Vá atrás do seu exemplar! Você não irá se arrepender. 

Front 15 anos – Uma História tem formato 17 X 26 cm, 160 páginas e custa R$ 42,00.

 

 

— Daniel Franzoni Maioral começou a ler quadrinhos porque sua mãe ficava muito tempo na Renner e nas lojas de cosméticos. Viu todas as séries animadas da DC na televisão quando jovem e se viciou de vez na nona arte. Compra quadrinhos todos os meses e já apertou a mão de Don Rosa, George Perez e andou pela Cozinha do Inferno esperando encontrar algum de seus ídolos. Acredita que o Asa Noturna é o melhor personagem da história e que John Constantine e Blacksad deveriam ser discutidos em faculdades. Psicólogo clínico por graduação e forense por vocação. Escreve hqs e histórias por pura teimosia pois deveria ir trabalhar.