“O universo de super heróis da Marvel Comics começou nos quadrinhos, mas hoje se espalha por filmes, desenhos animados, seriados de TV, games, bonecos, camisetas, mochilas e imaginações em todo o planeta. Renovando gerações de fãs desde a década de 1930, a Marvel criou a narrativa ficcional mais extensa da história e é uma das maiores potências da cultura pop global.”

Marvel Como boa parte dos leitores de HQ, comecei minha jornada através dos ícones da DC,  principalmente Batman e Super-homem (não adianta chamar de Superman, sou velho).  Lembro como se fosse hoje o impacto de O Cavaleiro das Trevas empoeirado dado a mim  pelo amigo Marcos Queiróz, que simplesmente tinha todas as edições da Ebal e RGE  produzidas nos anos 70 encadernadas em belas capas pretas e vermelhas; era como ser  iniciado em uma nova e misteriosa fé de cores explosivas e versículos expressos por  onomatopéias ou balões de pensamentos narrando sagas grandiosas onde infinitos  universos  colidiam  e lendas cruzavam o céu.

 Com o tempo, a paixão pela mitologia falou mais alto e logo me deparei com a Espada  selvagem de Conan, cuja Era Hiboriana, povoada de reinos “como miríades de estrelas sob o  negro firmamento” capturava a essência das antigas narrativas através do cimério de bronze.  Havia algo ali que meus heróis não possuíam, e seguindo o fio de Ariadne, frequentava  Sebos no centro da cidade em busca de edições que explicassem aquelas tramas  complexas, feito um arqueólogo da Cultura Pop.

Então me deparei com os X-men desenhados por John Byrne e escritos por Chris Claremont, o Homem Aranha de Todd Mcfarlane, os Vingadores, Quarteto Fantástico…e por fim Thor, o Deus do Trovão, desenhado por Walt Simonson!

Eram Histórias marcantes que irradiavam força épica e escala cósmica; Asgard e suas torres douradas pairando como um astro no espaço, Peter Parker enfrentando o Duende Verde, o gênio Reed Richards e seu rival Doutor Destino…descobri que aquilo era a Marvel!

Um universo onde os personagens existiam e interagiam uns com os outros, moravam em uma cidade do mundo real e tinham defeitos e paixões, capaz de unir o planeta Ego e o Queens, o cotidiano de Nova York com guerras alienígenas entre Kree e Skrulls, o atraso do aluguel e o dever de salvar o planeta.

Esse mundo, criado por Stan Lee, Jack kirby e tantos outros artistas no início dos anos 60 vibrava de emoção, inovando uma mídia limitada pela autocensura da década anterior, dando vida a personagens capazes de sofrer perdas, mais próximos do cidadão comum.

E é assim que, dotado de uma narrativa frenética, Sean Howe mostra os bastidores da maior editora de quadrinhos dos EUA, desde sua criação nos anos 30 até a venda para a Disney em 2009, revelando a trajetória de gente como Stan Lee, Steve Ditko e Jim Steranko, além do fundador da empresa, o controverso Martin Goodman.

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Ganhador do prêmio Eisner 2013 de melhor livro relacionado a quadrinhos, a obra é um balde de água fria sobre algumas lendas alimentadas por Lee ao longo dos anos, como o espírito de família no Marvel Bullpen – afinal, qual leitor não desejou por um dia sequer escrever ou desenhar seu herói favorito e fazer parte daquela família de artistas? Mas então descobrimos que mestres como Jack Kirby morreram ressentidos por jamais terem sido devidamente compensados pela empresa, por trabalharem muito recebendo pouco (Kirby chegava a desenhar e finalizar três páginas por dia!), e deixa no ar uma questão – seria Stan Lee um gênio ou um aproveitador?

A partir de pesquisas extensas e longas entrevistas, o autor reconstrói as amizades e brigas do período, a relação de Martin Goodman, um “selfmade man” autocrático e dado a rompantes iguais de bondade e frieza com seus funcionários, e principalmente narra o processo criativo e muitas vezes caótico que gerou grandes momentos da “Casa de Ideias”.    

Alternando a análise do contexto histórico com biografias de gente como Roy Thomas e John Romita, a prosa de Howe é atraente para os fãs mais fieis, sem com isso deixar de ser clara ou afastar um leitor neófito, pois não podemos esquecer que se trata da história de uma empresa, e até mesmo um estudante de administração e negócios tem muito a aprender com os equívocos que levaram a momentos como a concordata nos anos 90, o excesso de nepotismo (o próprio Lee era sobrinho de Goodman) e a complicada relação com seus maiores artistas, que segundo o próprio Kirby em uma de suas entrevistas, definiu a Marvel como um “ninho de víboras”.

E o resto meu querido leitor, é história. Vá e garanta o prazer dessa leitura.

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Acima, Stan Lee e Jack Kirby em 1975, com outras lendas como Gil Kane, Jim Steranko, Wil Eisner e Jerry Siegel.

 

Obs: Ponto para a edição brasileira feita pela Leya, que conta com um anexo indicando as publicações nacionais das edições citadas pelo autor.

 

Serviços:

TítuloMarvel Comics – A História Secreta
Editora: Leya

Autor: Sean Howe
Tradução: Érico Assis
Número de páginas: 560
Preço: R$ 59,00

 

— Hugo Canuto é arquiteto e quando o tempo permite, ilustrador. Interessado por mitologia e literatura antiga, se apaixonou pela Nona Arte aos nove anos, ao ler "O Cavaleiro das Trevas" e desde então não largou mais, formando uma biblioteca que preenche seu quarto e serve de cama, mesa e travesseiro.