fiq-keli-0Poderia iniciar este texto falando da nona edição do Festival Internacional de Quadrinhos, o FIQ, evento ocorrido na Serraria Souza Pinto, no bairro Floresta, em Belo Horizonte (MG), entre os dias 11 e 15 de novembro. Poderia, também, falar que reuniu artistas nacionais e internacionais, que milhares de pessoas passaram pelas mesas, stands, além de participarem de oficinas, palestras e tardes de autógrafos. Mas, isso, você já deve ter lido em sites, blogs e redes sociais, não é mesmo?!   

A questão aqui é que esta que vos escreve foi ao festival praticamente de última hora, tímida, não entendendo bem o assunto. Com uma câmera na mão, um bloco de anotações na outra (a esquerda, porque sou canhota) e o coração pronto para o turbilhão de sensações e sentimentos que encontraria, prefiro aqui fazer um singelo diário de bordo, relatando o que senti como ‘marinheira de primeira viagem’ no FIQ.

11 de novembro de 2015 – primeiro dia

fiq-keli5O FIQ deste ano homenageou Antônio Cedraz com a exposição “Cedraz: Mestre dos Quadrinhos”, cuja curadoria foi do editor deste QaQ, Lucas Pimenta.

Além de fotografar, observei a reação dos visitantes, especialmente as criançfiq-keli12as, que ficavam impressionadas com as homenagens de outros quadrinistas ao artista baiano. Não raro ver uma criança com celular na mão e fazer sua selfie, um pai a explicar ao filho sobre o sertão, o povo sofrido do Nordeste. Sendo filha de nordestinos, muito do que Cedraz e sua Turma do Xaxado relatam eu já ouvi dos meus pais, um pernambucano e uma baiana, que sempre se encantaram pela flor do mandacaru.

 

Depois, fui ao auditório Mateus Gandara para assistir ao bate-papo com Luís Felipe Garrocho, mediado por Samuel Medina. O foco da conversa foi o humor nos Quadrinhos e a velha polêmica dos direitos autorais: “não sou adepto ao copyright. Meu ideal de construção de pensamento é livre”, enfatizou Garrocho em seu discurso, bem como contou sobre o personagem Bidu, na Graphic Novel para a MSP. “O personagem pode ser dividido em um mais bonzinho ao lado do Franjinha e o mais malvado, quando quer se sentir superior ao lado do Floquinho (cãozinho do Cebolinha). Foram nove meses de trabalho árduo para fazer um Bidu que não perdesse esses dois lados”, disse.  

Enquanto isso, na mesa do Quadro a Quadro…

fiq-qaq-kelifiq-qaq-keli2No FIQ, o QaQ trouxe, além de títulos como La Dansarina e Never Die Club (que terá continuidade na internet), a segunda edição de Máquina Zero (com financiamento coletivo), que reuniu mais de 30 artistas e até o locutor oficial do evento, Nilton Carvalho, foi homenageado na antologia. Muitas crianças de escolas públicas da região compareceram e passearam pelos corredores. Até eu autografei marca-páginas para os alunos! Foi bem divertido, mas confesso que desenho praticamente nada. Pelo menos as crianças ficaram felizes, eu acho!

 

 

12 de novembro de 2015 – segundo dia

palestras-fiq-keli (8)Fui a duas palestras: uma sobre Jornalismo e Quadrinhos, com Duke, Lu Cafaggi, Mariamma Fonseca e Thalles Rodrigues, mediado por Leandro Damasceno, e a outra, intitulada Um olhar sobre o outro, com Birgit Weyhe e Phillippe Ôtié, com mediação de Ana Koehler. Destaco a primeira, que relatou como os Quadrinhos podem ser usados como instrumento de informação e não apenas de entretenimento. “Fiz a faculdade de Jornalismo e quis que o TCC fosse em quadrinhos. Lembro que, antes, elaborei um trabalho sobre cafeterias neste formato. Para meu espanto, tirei zero. Muitas vezes, nos deparamos ainda com esse entrave. Ainda bem que depois de mudar de universidade, encontrei uma professora que aceitou e apoiou esta maneira de informar”, explicou Lu no bate-papo.

13 de novembro – terceiro dia

palestras-fiq-keli (3)Sob a influência do Mangá. Este foi o título da palestra que assisti em plena sexta-feira 13, com a presença de Cassius Medauar, Daniel Bretas, Montserrat e Ricardo Tokumoto, mediado por Samanta Coan. Destaco aqui a visão entre oriente e ocidente em relação ao mangá: “Muita gente fica chocada com o conteúdo e cultura oriental. Pensam que, por representarem um povo ‘repreendido’, é de se estranhar cenas violentas ou fortes de sexo no conteúdo. Vale lembrar que são culturas diferentes, conceitos diferentes”, frisou Montserrat.

 

 

fiq-keli-15Assisti outras, mas também queria destacar o painel sobre Política e Quadrinhos, com Alexandra Moraes, Alexandre Beck, Marcelo D'Salete e Thaïs Gualberto, mediado por Fabiano Barroso. “Existe ainda um tabu muito grande quando se fala de quadrinhos feitos por mulheres. O feminismo em si precisa ultrapassar uma série de barreiras para ser visto e respeitado”, comentou Thaïs.

 

 

 

14 de novembro – quarto dia

palestras-fiq-keli (5)Sábado agitado, afinal era, literalmente, dia de Mauricio de Sousa! Mas antes, fui ouvir as palavras do criador de Bone, Jeff Smith, mediado por Vitor Cafaggi. A concepção dos personagens, ele contou, foi inspirada em pessoas de seu cotidiano e do vê nas ruas. “A Spin, por exemplo, tem os traços de minha esposa, até o jeito de colocar o cabelo atrás das orelhas”, disse o artista, que foi a Katmandu para formatar os cenários de Bone. “Eu pensava que o criador de Tintim, Hergê, viajasse bastante para fazer os cenários do protagonista. Só depois que descobri que ele via nas páginas da (revista) National Geographic”, divertiu-se.   

 

palestras-fiq-keli (7)Bom, agora, o Mauricio: mediado por Sidney Gusman com a presença de artistas da Graphic MSP, Artur Fujita, Cris Eiko, Davi Calil, Lu Cafaggi, Paulo Crumbim, Roger Cruz, Rogério Coelho e Vitor Cafaggi, houve três anúncios: mais um episódio de Astronauta, que virou uma trilogia; Bidu 2 (já Bidu – Caminhos será também publicado na França); e a mais nova integrante da turma (sim, com trocadilhos!): Bianca Pinheiro, que desenhará a Mônica. Mas eu queria dividir com você uma frase do Mauricio; quando foi perguntado qual seria o segredo para o sucesso longevo da Turma. “É ter foco, não desviar da sua jornada. Quantas vezes eu ouvi que era para eu desistir? Inúmeras! Simplesmente, ignorava e seguia”, enfatizou.

 

15 de novembro – quinto dia

palestras-fiq-keli (13)“Caramba, é o último dia?”, foi o que me questionei quando saí do hotel para ir ao FIQ. E já na primeira palestra fui conhecer o Lacarmélio, o Celton, figura bem conhecida por vender na rua suas publicações. “O meu público está na rua e as notícias que acontecem são meu roteiro para as histórias que escrevo. É do policial truculento que quer me deter, impedir o meu trabalho, até o que ouço no rádio, leio no jornal. É claro que me importo com o que o leitor acha do meu trabalho!”, reforçou na palestra, que contou com Ana Schirmer, Bruno Azevêdo e Rebeca Prado e mediado por Nina Rocha.

 

 

palestras-fiq-keli (15)Depois, participei do bate-papo Quadrinhos Inclusivos. Nunca presenciei uma áudio-descrição de Quadrinhos, só mesmo de livros e foi bem interessante passar pela situação. Mediado por Cleide Fernandes, contou com a presença de Flávio Soares, Lourival Cristofoletti, Sávio Cristofoletti (pai e filho, este com Síndrome de Asperger) e Lúcio Luiz. A intenção da conversa era mostrar que todos nós temos as nossas limitações, bem como os desafios da inclusão na Nona Arte.

 

 

palestras-fiq-keli (16)Por fim, assisti a palestra Quadrinhos Portugueses, com Carla Rodrigues, João Mascarenhas, Osvaldo Medina e Pedro Serpa, também mediado por Lúcio Luiz. Destaco aqui a fala de Osvaldo Medina, que participou do Máquina Zero, sobre o intercâmbio cultural entre Brasil e Portugal: “Os convites são muito importantes e essas trocas de experiências são enriquecedoras. Não existe, para mim, uma escola única, um processo único em Quadrinhos, são processos, escolas, escolhas”, enfatizou.

 

 

Representação feminina

fiq-keli3O FIQ destacou na nona edição a diversidade, em especial o papel da mulher no cenário da Nona Arte. Para tanto, a Lu Cafaggi fez a arte do festival, representando uma moça de cabelos volumosos enfeitados com flores, além de o evento contar com stands com títulos feitos por mulheres.

Só depois que reparei no detalhe: era a única mocinha do time do QaQ no evento. Responsabilidade, diria. Logo eu, que não entendo muito do “riscado” ousei a mergulhar neste universo tão rico e novo para mim. Espero ter ajudado os outros “Quadrados”, esforcei-me para isso!

Poderia terminar este texto falando que valeu a pena ter ido a Belo Horizonte participar do FIQ. Poderia também dizer que foi um aprendizado e todas aquelas palavras bonitas que guardamos no coração. Mas prefiro concluir que foi uma experiência única, mesmo.

Que FIQ, literalmente!

— Jornalista freelancer, moradora de S. Miguel Paulista - SP e também colabora para o portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br). Nas horas vagas, lê Quadrinhos. Nas outras também. Mais em http://twitter.com/keliv1