Um cara aparentemente normal, outro cara aparentemente alucinado e uma caixa aparentemente quadrada.

Falando assim parece pouca coisa.

E realmente seria, se o cara aparentemente normal não se chamasse Will, o cara aparentemente alucinado não fosse o Daniel Esteves e a caixa aparentemente quadrada não fosse o surpreendente O Louco, a Caixa e o Homem.

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O álbum marca a parceria de dois caras que já se conhecem há bastante tempo, participam dos mesmos projetos, vão às mesmas festas, sempre estão nos lançamentos de uma galera bastante bacana e são companheiros no Quarto Mundo.

Mas além de tudo isso, O Louco, a Caixa e o Homem marca o encontro de dois caras talentosíssimos.

Daniel Esteves é o autor da deliciosa série Nanquim Descartável, uma preciosidade dos quadrinhos nacionais e talvez uma das histórias que mais bem retratam e geração dos anos 2000. Divertida e nada rasa, Nanquim é uma das melhores narrativas brasileiras da atualidade.

Will é o criador de Sideralman, Demetrius Dante e recentemente lançou dois excelentes álbuns em parceria com o roteirista mineiro Wellington Srbek: Ciranda Coraci e O Senhor das Histórias. Egresso do mercado publicitário, para a nossa felicidade se entregou de corpo e alma aos quadrinhos. Seu traço é divertido, ousado e único.

E é claro que deixar os dois juntos é, para se dizer o mínimo, uma temeridade.

Mas o que é exatamente O Louco, a Caixa e o Homem?

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Antes de mais nada é um dos gibis mais divertidos do ano.

Divertido no sentido literal da palavra. Gibi pra se soltar boas gargalhadas dentro do ônibus (para horror da velhinha ao seu lado) e para ler, reler e ler de novo e ainda assim rir da mesma piada.

As gags criadas por Daniel são ágeis, inesperadas e possuem uma característica bastante peculiar, não dos quadrinhos especificamente, mas do humor clássico dos palhaços: são atemporais.

Tá… e o que isso quer dizer?

Bem, quer dizer que Daniel criou (ou reinventou) piadas eternas. Por mais ingênuos que sejam os filmes de Buster Keaton ou Charles Chaplin, por mais batidas que sejam as piadas em Chaves (criação do mexicano Roberto Gómez Bolano), o riso é inevitável.

Como resistir à delícia de uma confusão, de uma torta na cara, de um escorregão numa casca de banana?

E é esse tipo de humor, algo que nos faz rir como crianças, que encontraremos fartamente nas páginas de O Louco, a Caixa e o Homem.

Humor intensificado à enésima potência graças à genialidade de Will. Ao ambientar a história num futuro (ou passado) impreciso, com um visual steampunk, as piadas do roteiro ganham ainda mais força e se tornam um deleite visual – divertidíssimo e preciso.

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Mas até aí, qualquer um que tenha lido a Nanquim sabe do que o Daniel é capaz. O mesmo vale para o Will, basta dar uma sapeada nas páginas do Demetrius para entender o que esse exímio desenhista pode fazer com meia dúzia de traços.

O que faz de O Louco, a Caixa e o Homem um baita dum gibi está muito além das gargalhadas que você irá soltar.

Eu disse o quanto era temerário deixar esses dois juntos?

As piadas estão lá e você vai rir, não tenha dúvidas quanto a isso, mas por trás delas, esse aparentemente insano roteirista fala de coisas muito mais sérias. E o desenhista aparentemente normal, sem perder a leveza de seu traço, transformou palavras sérias em imagens.

O Louco, a Caixa e o Homem trata também da solidão urbana.

Daniel e Will são dois artistas que nunca esconderam sua urbanidade. Em seus trabalhos sempre foi possível identificar esse lance da cidade, dos prédios, das pessoas apressadas nas ruas, do ritmo frenético do dia a dia.

Qualquer um que tenha passado uma temporada em São Paulo ( a 5ª maior cidade do mundo) sabe que por aqui só existem dois tipos de pessoas: os enlouquecidos e os que enlouquecerão.

Todos os dias, milhões de cidadãos passam horas parados no trânsito. Um simples percurso de 15 Km demora cerca de duas horas, numa estrada livre demoraria 10 minutos. Quem não tem carro (ou opta por não usá-lo) tem à sua disposição um moderno e confortável sistema de transporte público, Centenas de pessoas se esmagam num vagão apertado de metrô ou trem, o mesmo sistema que as autoridades insistem em vender em seus horários políticos como eficiente. Experimente pegar o metrô no horário de pico…

Soma-se a isso um custo de vida altíssimo, empregos degradantes, violência urbana (tente passear no centro`durante a madrugada, existem lugares simplesmente proibidos) e desigualdade social.

E essa rotina sufocante endurece as pessoas, lhes tira a beleza de se viver numa cidade fantástica como essa.

Se você é daqui (ou está de passagem) repare: as pessoas estão sempre com pressa e sorriem muito pouco. São Paulo (e qualquer grande metrópole) é formada por pessoas solitárias e com quase nenhum humor.

E é essa loucura implícita, esse afastamento deliberado, essa incapacidade de se enxergar ou se entender o outro, que você encontrará entre as piadas de O Louco, a Caixa e o Homem.

E a caixa aparentemente quadrada mostra ser muito mais do que aquilo que poderíamos imaginar:

Um gibi que parece falar sobre o nada, mas diz absolutamente tudo.

 

 

Para encontrar o louco, o homem ou a caixa:

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— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.